Ela ainda existe em algum lugar que nĂŁo Ă© lugar.
NĂŁo no tempo, porque o tempo seguiu.
Mas em um tipo de espaço que ficou suspenso.
Ă noite lĂĄ.
Ela estĂĄ acordada, como tantas vezes esteve,
com os olhos pesados e o peito cheio de alguma coisa que nĂŁo tem nome.
O mundo ao redor estĂĄ em silĂȘncio,
e ela tambĂ©m aprendeu a ficar em silĂȘncio.
Ela chora baixo.
Não porque alguém mandou,
mas porque alguma parte dela entendeu que devia ser assim.
Como se o que ela sente fosse grande demais
e, ao mesmo tempo, pequeno demais pra ser mostrado.
Ela nĂŁo sabe explicar o que estĂĄ errado.
SĂł sabe que parece que fez algo errado.
Sempre parece.
E ninguĂ©m vĂȘ.
O quarto continua igual,
a noite continua passando,
e ela continua ali,
tentando caber dentro de um peso
que não foi feito pra alguém tão pequeno.
Ela nĂŁo saiu daquele momento completamente.
Parte dela ficou ali, repetindo aquela mesma noite,
como se estivesse esperando que algo fosse diferente.
Mas o tempo andou.
E, de algum jeito,
alguém cresceu a partir dela.
Alguém que olha pra trås
com uma ternura que dĂłi um pouco,
porque sabe que aquilo nĂŁo deveria ter sido assim.
E mesmo sem conseguir alcançar aquela criança,
sem conseguir mudar aquela noite,
existe agora uma espécie de presença
que antes nĂŁo existia.
Como se, finalmente,
ela nĂŁo estivesse mais completamente sozinha.











