A promessa de ser inesquecível
Ela me olhou como quem sabe o poder que carrega. As palavras chegaram pela tela, mas cada letra parecia dita com a boca encostada no meu ouvido.
"Quero ser a personagem principal do teu livro."
Era mais que uma frase bonita. Era um pacto silencioso. Um aviso de que, dali em diante, minha história teria o nome dela gravado nas páginas que importam.
Logo vieram mais mensagens, como golpes calculados no meu peito:
"Eu quero realizar seus desejos. Quero superar suas expectativas e pensamentos. Quero que você sinta algo diferente. Algo que te marque. Pra você nunca esquecer de mim."
E eu sabia, no fundo, que não havia como sair ilesa. Ela não queria ser só um capítulo — queria ser o enredo.
Numa manhã qualquer, quando confessei que sentia sua presença até nos instantes mais íntimos, ela respondeu com aquela mistura de doçura e provocação que era só dela:
“Eu vou saciar seu desejo. E o meu também. Você tava muito linda hoje. Sempre tá, né? Você tem uma boca muito gostosa."
Era assim que ela me prendia. Entre o carinho e a fome. Entre o romance e o desejo. Entre a promessa de ser eterna e o perigo de, um dia, cumprir essa promessa apenas na minha memória. E talvez fosse exatamente isso que ela queria: não só viver comigo, mas se eternizar em mim. Depois que ela falava, o silêncio não vinha sozinho. Ficava carregado, como se o ar ao meu redor ganhasse peso e cheiro. Eu podia jurar que, mesmo sem vê-la, a presença dela se movia ao meu redor, como um perfume que insiste em ficar preso à roupa. Cada frase dela virava um eco.
“Pra você nunca esquecer de mim."
E não esquecia. Não tinha como. Tudo que eu tocava parecia lembrar seu toque. Tudo que eu via me puxava para alguma lembrança dela: o olhar que parava o tempo, o jeito que o canto da boca se curvava antes de me beijar, a risada que vinha baixa, como se fosse só nossa. E nas noites em que eu fechava os olhos, ela não aparecia inteira. Vinha em fragmentos: a voz, o pescoço, as mãos. Mas era o suficiente para me virar do avesso. O problema das promessas é que elas não avisam que também podem ser armas. Ela queria me marcar, e conseguiu. Não com cicatrizes visíveis, mas com algo pior: um lugar permanente dentro de mim.
Era como se cada palavra dita tivesse sido cuidadosamente escolhida para se encaixar nos meus vazios. Ela sabia o que eu queria ouvir. Mais do que isso: sabia o que eu precisava ouvir para me entregar sem reservas.
E eu me entreguei. Sem armaduras, sem reservas. Sem medir o quanto me custaria.
E, talvez, no fundo, ela soubesse que um dia tudo isso ficaria apenas no papel. Que a personagem principal poderia desaparecer da minha vida, mas continuaria viva aqui, entre as linhas, como ela mesma pediu.