Sonhar com ele é sempre como entrar involuntariamente numa cápsula do tempo e retornar a um passado distante. Desta vez, não poderia ter sido mais claro, porque de fato havia uma cápsula do tempo, mas para um só. Como um sarcófago em que alguém escolhesse se congelar por exatos oito anos. E foi exatamente o que ele fez.
Não sei como meu inconsciente foi capaz de fazer um cálculo que eu conscientemente nunca antes fizera. Mas sim, oito anos se passaram, quase uma década. Quase uma vida, se eu contar em histórias em vez de números. Em mudanças. Em transformações. Em significados que aprendi e outros que abandonei - mas, sempre que sonho com ele, me pergunto se abandonei de fato.
Minha analista e eu já desvendamos e revisitamos o mistério inúmeras vezes: não é sobre ele. É sobre o lugar, a crença, a vida que deixei para trás por livre escolha, mas que me assombra a alma quando meus olhos se fecham. A vida que tive dos três aos quase vinte e três. E ela afirma que, se o diploma de psicologia lhe vale de algo, é para saber que vinte anos não se esvaem em um dia, ou em várias noites mal dormidas. Não se esquecem em anos, mesmo que longos oito. E se nós, escritores e leitores, fôssemos dos números como ele, como todos eles, notaríamos que a conta nem fecha… Que nunca fechou. E que talvez nunca feche.
Mas até quando vou me punir por isso?
No sonho eu esperava e sabia que ele me escolheria ao sair daquela caixa. Como um velho cardigã guardado debaixo da cama, mas que sempre foi seu favorito, e ninguém haveria de saber disso tão bem quanto nós dois. As coisas que nós dois sabíamos sempre foram só nossas. Mas então, oito anos mais tarde, para a nossa surpresa lá estava ela. Linda, deslumbrante, tão doce quanto me lembro, tão delicada quanto sempre foi. De repente, outra possibilidade, e que eu soube instantaneamente que seria o encaixe perfeito para ele, assim como eu encontraria o meu.
Despertei antes que a cápsula se abrisse, e ali estava meu encaixe perfeito, dormindo profunda e gentilmente numa manhã chuvosa da capital fluminense. Suave, belo, forte… Real. Acariciei seus cabelos pretos e suspirei me perguntando se algum dia conseguiria me esquecer da outra vida que vivi, e que hoje ela vive, quase como se completasse as páginas de um livro cuja escrita quem abandonou fui eu. Eu. Por livre, espontânea e consciente vontade.
Minha analista me pergunta se me arrependo de ter deixado a caneta, e respondo com convicção que não. Hoje, eu não caberia naquela vida, jamais a desejaria sequer. Porque para a mulher que me tornei, ele, aquele lugar, aquela cidade, nunca seriam nada além de uma cápsula. Uma prisão. Um sarcófago.
Eu acordo e penso não nele, mas nela. Não pesarosa, mas curiosa, quase aliviada ou feliz porque alguém pôde descobrir como foi aquele futuro com o qual um dia eu sonhei, mas que não era para ser meu.
Me levanto e preparo o café para a vida que escolhi. Me preparo para viver a vida acordada, dessa vez sem me perguntar como provar para minha mente adormecida que não queremos voltar para lá, que aquela vida só nos feriu, nos aprisionou. Penso, talvez pela primeira vez, que não precise fazer minhas duas ou infinitas versões lutarem entre si, mas possa tentar fazê-las tomarem um café e se ouvirem, se acolherem.
Tudo bem voltar àquele restaurante às vezes para tentar entender as tristezas, as alegrias, a sabedoria e os traumas daqueles vinte anos. Tudo bem que oito ainda não sejam o bastante para processar todos os lutos que vivi naquele lugar.
O Dela.
O dele.
O Dele - ao menos como eu até então conhecia.
O meu próprio.
Mas que eu jamais me arrependa, quanto menos me ressinta, por ter me levantado e deixado a mesa quando o amor deixou de ser servido.
V.














