“ou talvez eu seja o maluco. porque... sendo franco, já considerei te sequestrar pela noite.” havia um meio sorriso ao dizer, era uma confissão sincera ou uma brincadeira? bem, todas as noites poderiam ser empurradas para o próprio fim quando ele encontrava eric. uma vez que o fazia, o dia cessava em completude. não restava pendência que não pudesse esperar. era curioso, divino, o modo como a presença dele diminuía a magnitude dos abismos que o cercavam. a doença de victor avançando, a chegada estranha em santorini, a conversa com charlotte, o desejo crescente em seu peito. ali, porém, só conseguia focar nele. na escolha das roupas que vestia, a qual ele sempre atinha um tempo a observar; no perguntar sobre seu dia, como fazia agora que o recebia em seus aposentos todas as noites; na urgência de correr os dedos por sua pele, e aspirar o aroma que dela exalava. mikkel, que jamais fora homem de arder por ninguém, nunca deixava de se surpreender com o efeito que eric exercia sobre si. nos relacionamentos passados, houvera cuidado, até ternura construída. mas nada que o tomasse como aquilo. ali não houvera deliberação, cálculo, escolha racional. não houvera necessidade de construir. fora um mísero sorriso trocado naquela festa, e o coração entrara em desordem, mar escuro revolto sob lua cheia. ele ainda sofria com o sorriso. sofria no melhor sentido da palavra, rendendo-se ao abraço agora, deixando que os lábios retribuíssem o beijo nos seus, descendo pela extensão de pele que encontrassem espaço. terno, calmo, ligeiramente faminto. sempre faminto dele.
“acho que enviou a entregadora em uma missão quase impossível... mas você gostou da escolha? não tinha certeza de quais seriam suas flores favoritas.” tinha certo tom juvenil na insegurança, como se fosse um adolescente se esforçando para impressionar alguém por quem era apaixonado (e não era quase aquilo?). mas mikkel estava satisfeito a ponto de lhe faltarem palavras, o sorriso tentando devorar cada centésimo da felicidade que atravessava o rosto do francês. passara os últimos meses com a vontade insaciável de arrancar à força todo mal que causara, como se fosse possível reverter o passado com gesto presente. reparar. reconstruir. fazer exatamente aquilo. aguardou, paciente, a noite observando o nascer da lua, enquanto eric vestia o presente. queria ver o instante exato em que o sorriso se desenharia, se apreciaria o colar escolhido. colocou as flores e a caixa vazia sobre um banco próximo, libertando as mãos em preparo. queria aproximar-se sem nada entre eles, ver de perto como o metal repousava contra o pescoço dele, ornando-o como constelação discreta. porque se mikkel fosse a noite, vasta, densa, por vezes impenetrável; eric não era o sol que o apagava, mas a lua que o acompanhava. não rivalizava com sua escuridão; caminhava ao lado dela, iluminando sem ferir. era seu astro eleito, aquele que não dissipava a noite, aquele que a tornava suportável.
“é suposto que use. se quiser... todos os dias.” a voz saiu mais baixa, grave. ele tomou uma das mãos de eric, levando-a aos lábios, pressionando beijos firmes contra os dedos, demorados o bastante para que a intenção se tornasse inequívoca. selava o pacto que viria em sua carne, marcando na pele aquilo que por tanto tempo mantivera apenas contido no pensamento. “é suposto porque... gostaria que fosse um lembrete diário. de uma promessa que lhe faço.” houve uma pausa, breve. ele organizava os pensamentos por um instante, alinhando-os com dificuldade incomum. e dessa vez, não falhava em olhar em seus olhos. sustentava o olhar. diabos, parecia conversar através daquelas íris. “eu preciso que saiba que eu... eu nunca fui embora por não sentir nada por você. você sempre esteve em minha cabeça. todos esses dias, a fio. e não existem desculpas para eu ter te deixado como deixei. mas, eu não saberia como olhar em seus olhos e ir embora. porque... porque se você houvesse pedido para eu ficar, eu não conseguiria te dizer não, eric... nunca. eu nunca consegui.” os olhos se fecharam por um instante, imersos na vergonha, e um arrependimento que não se tornara mais leve com o tempo. machucá-lo fora uma violência que também recaíra sobre si. ele carregara aquela decisão em bolo mal resolvido no peito, algo que nunca encaixa completamente. precisou respirar, absorver, não havia terminado.
“é suposto que use também... porque eu te amo. nada mudou nesses dois anos. se surtiu efeito, foi em tornar claro o quão miserável minha vida consegue ser sem você. não, eric... eu te amo. mais do que sabia ser capaz de amar.” não havia elevação dramática, apenas a afirmação, inteira. os olhos azuis mantiveram-se ainda nos dele, sem desvio. era a primeira vez que não tentava administrar a própria vulnerabilidade. de tudo que segurara, consciente, mas incapaz de formular nos últimos dias, restava apenas isso. era verdade. o amava, incondicionalmente, sem cláusulas ocultas. “eu não faço ideia de como as coisas serão, mas tenho a certeza de que não irei embora... eu lhe prometo que nunca mais irei embora. se você ainda quiser que eu fique. porque... eu tenho certeza que não te mereço. mas gostaria de passar os meus dias tentando te merecer.” não prometia perfeição, não prometia facilidade, só podia lhe prometer sua permanência. e ali, despido de títulos, de poder, de qualquer grandeza que o mundo lhe atribuísse, mikkel, érebo... não era arquétipo, não era nem sombra primordial. esqueça o deus. hoje, mikkel é apenas um homem que implora para ficar.