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@thelauraw-blog
Ainda estava surpresa por por ter conseguido convencer o pai a não ir ao baile. Provavelmente não teria conseguido tal proeza se sua prima, Lucy, não estivesse ela mesma em meio a um encontro. Não era de bom tom, como descobriu pouco tempo depois, para moças saírem sozinhas com homens. Mas, longe de se sentir presa a uma situação enfadonha, Laura estava animadíssima. Pelo que conhecia da prima nesses dois meses de convivência, era pouco provável que ela estivesse ansiosíssima para passar a noite com Laura a tiracolo. Suspeita essa que se confirmou pouco tempo depois de terem chegado na mansão de Dorian Gray, para seu alívio. Afinal, aquele era seu primeiro baile e estava determinadíssima a aproveitá-lo o máximo possível para compensar todos os anos isolada de atividades sociais em um schloss na Estíria.
Seria mentira dizer que não estava encantada. Todos os detalhes, de seu próprio vestido até os bordados das toalhas de mesa, prendiam a atenção da jovem que já desvirtuava-se da sua inicial intenção e andava pelas laterais do grande salão de dança na esperança de memorizar os detalhes de cada parte da festa. Quando finalmente sentiu os pés doerem depois de tantas voltas aprisionados nas apertadas botas, sentou-se em uma das mesas com cadeiras vagas logo depois de pegar uma taça de vinho que circulava em bandejas pelo salão. ❛ ——— Se importa se eu me sentar aqui?”
❛ yet if you had a desire for good or beautiful things and your tongue were not concocting some evil to say shame would not hold down your eyes but rather you would speak about what is just ❜ ——— 𝒮𝒶𝓅𝓅𝒽𝑜.
𝐿𝒶𝓊𝓇𝒶 & 𝒞𝒶𝓇𝓂𝒾𝓁𝓁𝒶 (O1/?)
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karnstcins:
A cada pedido de dança, Carmilla via-se negando a gentileza dos cavalheiros, desculpando-se por sentir-se indisposta a exibir sua performance no meio do baile. Preferia ficar em pequeno grupos ou ainda, acompanhando um indivíduo de cada vez, sabendo claramente da importância que a lua em especial trazia aqueles com ligações ao oculto e evitando o próprio enfastiamento caso os aceitassem. E com todas as nuances noturnas, a festa pertencia à Dorian, jamais em momento algum o britânico permitiria sequer um momento sem alguma atração ou momento peculiar. Karnstein, porém, possuindo todo aquele conhecimento espera em particular por uma única alma humana capaz de chamar-lhe a atenção de maneira entusiástica. Questionava-se o quão curiosa a mente da Westenra havia ficado quando havia entregue-lhe um pequeno presente, esse por sua vez possuindo um construto de mistério para acender alguma chama peculiar em Laura. Afinal de contas, possuía conhecimento sobre a figura da mais frágil e permitia-lhe a sabedoria de que ela apreciava jogos assim como a própria Carmilla. Fugindo das amarras e do que era esperado de damas da sociedade, Laura não enxergava em si mesmo, mas Carmilla a vi além e além desejava-a para si. Em Londres, então, o obscuro nascia e com ele, a presença da loira tornava a situação ainda mais deleitável para a criatura, a premissa de uma eternidade de poder e caos surgia e tornava-lhe mais fácil a presença da loira ali, em terras britânicas, quase como destino.
A percepção da morena era afiada, seus sentidos permitindo-lhe notar a chegada da esperada convidada antes mesmo que essa adentrasse a residência de Dorian: era inconfundível, reconheceria o perfume de sua humana e sentia a predadora urgir para tê-la em seus braços, assim, porém, como ela própria. Viu-se pedindo licença a companhia que possuía no momento, por mais peculiar que fosse e o quanto devia à mesma, uma vez que possuía planos para a noite assim como de fato, a mulher à sua frente também haveria de ter em tão místico alinhamento dos astros. No céu, a lua brilhava de maneira intensa, pálida, recebia seu magnetismo e sua presença a fortalecia, tal qual Ártemis, Carmilla colocava-se como deusa da lua, da noite, em seu traje negro que imitava um cisne, como a máscara que emoldurava as feições afiadas. Pegou uma taça de absinto, claramente colocada emeio as outras bebidas de maneira estratégica, já que o licor de coloração verde era capaz de derrubar até mesmo aqueles que eram como ela, fazia pior com humanos. Carmilla ingeriu um pequeno gole, o sabor puro da bebida enganando seu sistema momentaneamente, mas não equiparava-se ao carmesim que desejava em seus lábios. Permaneceu sozinha, estrategicamente afastada de todos por singelos momentos como em uma brincadeira cuja recompensa se Laura a encontrasse, seria sua própria presença. Dirigiu-se, por fim, à sacada do local, onde poucas pessoas encontravam-se. A maioria estava ali com cigarros e cachimbos em mãos, para que a brisa levasse consigo a fumaça resultado de seus hábitos. Carmilla, porém, recostou os antebraços cobertos pela renda negra de suas luvas na sacada, o olhos negros perdidos no céu escuro e imaginando o que viria à seguir, planos sendo traçados em sua mente visando a caçada e o medo daqueles que lhe eram inferiores, ansiando por sua amada Laura ao seu lado.
De uma maneira etérea, o absinto exibia um brilho fantasmagórico no interior da taça antes de Carmilla levá-lo aos lábios para ingerir mais um gole e deixá-lo de lado em uma das bandejas dos garçons que transitavam pela sacada. Retornou ao seu aspecto solitário, sabendo que ninguém ali presente iria incomodá-la ou cochicharia mais tarde por sua falta de modos ao recusar todos os cavalheiros que lhe requeriam uma dança. Dorian apenas convidada aos seus bailes os indivíduos que manteriam segredo sobre qualquer coisa que acontecesse ali dentro, uma vez que havia uma imprevisibilidade constante sobre qual seria a atração a seguir e a alta sociedade, se não peneirada, era extremamente enfastiante, além de chocável com espetáculos menos provincianos. E assim, com pensamentos dispersos percebeu a aproximação calorosa de si, mantendo a expressão inalterada e séria, no entanto, até escutar a voz que ansiava por chamá-la e vociferar seus pensamentos em voz alta e clara.
Finalmente, virou-se, os olhos negros encontrando a figura clara de Laura e sorvendo cada curva de sua silhueta trajando as peças do traje que escolhera para a Westenra. ❛ ——— Meu amor! ❜ As formalidades que utilizava para manter a aparência humana eram destroçadas, exibia parte de si para a loira, sabendo que essa conhecia-a e estabelecia intimidade com a humana. Carmilla ofereceu-lhe um sorriso ladino, terminando sua observação ao molhar os lábios tingidos de vermelho escarlate com a ponta da língua e tomou as mãos de Laura nas suas. ❛ ——— Um pretendente… essa era sua teoria, então? Quão simplório imaginar tal coisa, Laura! Rapaz nenhum seria capaz de possuir a adoração e imaginação que possuo sobre ti. E devo dizer-lhe, ainda conseguiu superar todas a imagens que possuía em minha mente quando imaginava-a ao meu lado, no baile, como nesse extraordinário momento. ❜ O brilho que tangia seus olhos continham sede e desejo, a máscara e fingimento tão logo descartados deixando tão presente as suas emoções e impulsos febris.
❛ ——— Laura… ❜ A destra alcançou-lhe a bochecha direita, seus dígitos traçando a tez pálida da jovem de maneir afetada. ❛ ——— Espero que intensidade não te assuste: isso é apenas uma prévia do que realmente desejo…. Creio que nem seu amado Shakespeare saberia ou conseguiria dispor em sonetos a volúpia que cobiço: ela não é apropriada para ser disposta em livros ou em palavras. ❜ Dessa vez, o sorriso ladino expôs seus dentes, brancos, levemente pontiagudos. Carmilla aproximou-se mais de Laura, o espaço sendo particularmente um fator indesejável para a vampira, inclinando a sua face em direção à face da loira para beijá-la no canto de seus lábios, sem quebrar a proximidade.
❛ ——— No entanto, agora que encontrou-me e resolveu o seu enigma ainda espero que cumpra o que pedi-lhe em minha nota: que exteriorize as suas paixões.
Tens medo da verdade que elas podem mostrar-lhe? ❜
Laura nunca recuperou-se completamente da febre que lhe quase custara a vida anos atrás. Vez ou outra era tomada no meio da noite por estranhos sonhos, um pouco menos vívivos do que quando ainda morava na silenciosa e solitária Estíria, mas ainda muito reconhecíveis. Com certa frequência, acordava em meio a um já conhecido suadouro depois de ser visita, mais uma vez pela figura de Carmilla. Eram destinadas, é claro. Esse fato era claro para Laura. Afinal, por qual outro motivo suas alucinações seriam marcadas pelo rosto da bela mulher desde a infância? Felizmente, atualmente as sequelas da febre se limitavam aos sonhos e não se extendiam à astenia. Era uma graça divina, também, a nova natureza dos sonhos, que quase haveriam completamente mudado de natureza, não fosse a estranha cicatriz arroxeada que lhe parecia brilhar toda vez que acordava enxarcada pelo próprio suor após seus recorrentes sonhos.
Seria mentira dizer os sonhos foram a única sequela proveniente da estranha febre. Com frequência, Laura perdia o fôlego quando era colocada em situações que exigiam-lhe esforço físico. De certo não era a mesma sensação que havia experimentado quando tomada pela doença ou sequer a mesma que Carmilla custumava sentir, sempre frágil como era. Mas depois de atravessar o salão correndo, o solado das botas conseguindo fazer-se audível contra o piso por cima da música tamanha a urgência dos seus passos apressados, sentia o rosto tomado pelo rubor do esforço físico e os seus pulmões davam seu melhor para manter Laura oxigenada. É fato que costumava usar a desculpa das sequelas da doença para não ter que se esforçar muito fisicamente; assim, por mais que apreciasse uma boa caminhada pelos jardins conseguia livar-se da maioria dos compromissos que o pai a tentava empurrar, mas isso não quer dizer que estava mentindo. Naquele momento, uma parte da sua mente lembrava-lhe que parte dos seus sintomas tinham tudo para ser fruto da sua fascinação por Carmilla, lembraça essa que Laura ignorava para o bem da sua dignidade.
❛ ——— Oh, Carmilla! Não ria de mim. Deves suspeitar o quão confuso foi para mim ter sido convidada por ti e, logo depois, receber um embrulho sem remetente. Devo admitir o quão influenciada pelas teorias de meu pai eu fui... se tivesse sozinha, talvez não tivesse sido tão tola.” Como sempre ocorria quando estava tomada pela presença de Carmilla, Laura era incapaz de permanecer aborrecida ou fingir estar. Por um breve momento havia planejado convencer a outra de sua profunda mágoa por ter ido às cegas para os braços de um desconhecido sem saber o que lhe esperava. Por sorte, Deus havia atendido suas preces e a livrado de mais um entendiante pretendente que a lhe faria sentir saudades das horas que passara na lamentando-se do quão solitário era o pitoresco schloss onde crescera. Mas diante das palavras sempre tão intensas de Carmilla, viu que seria impossível negar-lhe a recompensa de saber o quão radiante estava com toda a atenção que estava recebendo. ❛ ——— Se soubesse que viria de Odile jamais suspeitaria de qualquer outra pessoa. Mas, de novo, não conheço nenhuma outra pessoa capaz de tamanha intensidade, como disse. Mesmo depois de todos esses anos, não teve um dia que eu não me lembrasse da paixão de suas frequentes palavras, minha querida Carmilla.”
Laura não conseguia desgrudar os olhos das expressões de Carmilla. Estava acostumada à natureza das palavras da amiga, mas, na sua memória elas eram sempre acompanhadas de expressões frágeis e delicadas, compatíveis com as de uma nobre como ela. Mas naquela noite, tudo o que Laura podia ler nos traços da bela jovem era de uma natureza completamente diferente de tudo o que lembrava ter visto ali e, também, muito melhor. Seu rosto ficou impassível e imóvel quando Carmilla resolveu aproximar-se, o canto de sua boca já formigava pela proximidade dos lábios da amiga e Laura sabia que, caso inclinasse o pescoço poucos graus em direção a ela, os sobriria com os seus próprios lábios.
Mas não o fez.
Ao invés disso, divertindo-se ao criar uma clara falsa imagem de desinteresse, afastou-se alguns centímetros, longos o suficiente para que pudesse encarar Carmilla e, sentindo a respiração da outra atingir-lhe as bochechas, sorriu. ❛ ——— Minha querida, sinto-me um pouco ofendida quando me pedes para exteriorizar minhas paixões e tenta negar-me o refúgio dos versos. Sabes que tenho pouco para não dizer nenhum apreço a regras: 'Cama macia, o amor nascia / De sua beleza, e eu matava... A sua sede.'”
Elle Fanning in The Beguiled (2017) ↳ dir. Sofia Coppola
Prólogo: Não hei de demorar-me com palavras, uma vez que teremos toda a eternidade para trocá-las, meu amor! Escrevo-lhe com a intenção, porém, de explicá-la a razão do traje que entrego-lhe: anseio por vê-la e odeio as distâncias que nos são impostas e por meio dessa nota, peço-lhe que compareça ao baile de Ano Novo que será dado na mansão do Sr. Gray. Não espero que entenda o motivo pelo qual escolhi por presenteá-la com tal traje, por ora, tudo será esclarecido quando chegar ao baile. Prometo-lhe que não será difícil de resolver esse enigma e tampouco identificar-me: basta atentar às suas próprias paixões e deixá-las se exteriorizarem, Laura. Espero, verdadeiramente, desconcertá-la e tornar sua mente inquieta com as possibilidades, pois a única maneira que terá para descobrir-me, será comparecendo ao baile.
C.K.
O primeiro baile de Laura estava brincando com as borboletas no seu estômago por motivos muito diferentes do que havia imaginado quando, ainda criança, importunara John para que a levasse para um baile na capital. O convite feito por Carmilla havia sido recebido com todo o entusiasmo esperado por qualquer dama que, assim como Laura ainda era neófita em eventos sociais da alta sociedade. Não que estivesse preocupada em fazer feio, tinha plena confiança na educação extensiva que recebera e na atenção precisa à etiqueta que suas amas haviam etiqueta. De fato, seus trejeitos ainda eram um tanto provincianos e endurecidos pelo frio e pela natureza austera dos germânicos, mas lembrava-se com clareza do dia que sua querida amiga havia se instalado no Schloss da família. A aura misteriosa e estrangeira de Carmilla funcionava como um magnetismo e, com alguma sorte, Laura esperava replicar aquele mesmo efeito nos outros convidados da festa.
Mas não estava preocupada, pelo menos, não por isso. Laura repassou os eventos que permitiram que ela fosse uma das convidadas. Primeiro, como por resposta do destino, Carmilla estava assim como ela em Londres e depois de um piquenique, havia convidado Laura para o ano novo. Depois, seguindo os roteiros românticos prescritos por seus professores de literatura, recebeu o traje de gala completo. Muito vaidosa como era, havia gravado todas as palavras da curta carta que havia sido entregue junto ao pacote e deliciado-se com o tom que elas carregavam. De alguma maneira, elas a faziam se lembrar dos surtos afetuosos de Carmilla quando ainda estavam na Estíria. Assim como há dois anos atrás, sentia-se afogada em meio a todas as palavras apaixonadas com a diferença de que, nessa nova situação, sentia pouca ou nenhuma vontade de retribuir as palavras do seu admirador secreto tal como sempre fazia de uma forma ou de outra quando ouvia a doce voz da sua então hóspede.
Se para o seu ego o presente havia sido um verdadeiro deleite egoísta, para a sua consciência foi a confirmação de que, de fato, ser vista como estrangeira era, para alguns, um charme. E por esse motivo, não preocupava-se. Por algum tempo, havia se perguntado se o efeito que uma mulher como Carmilla havia produzido não fora fruto dos seus próprios gostos e desejos, mas estando ela mesma agora no papel daquela que vem de fora, podia perceber que não era a única a se afetar facilmente. Laura sentia-se muito confiante coberta dos pés à cabeça pela renda dourada que contrastava aos mesmo tempo com o tom rosado das suas bochechas e lábios, e com o branco alvo do tule macio da saia e das alças, tecido que confundia-se com a própria pele de Westenra. Estava ela toda envolta em texturas e cores que mimetizavam a difusão e maciez das plumas de um cisne, com exceção da máscara metálica que brilhava opulente no rosto de Laura, lembrando-lhe, graças ao frio congelante que canalizava, que estavam em pleno inverno apesar de estar aquecida em meio às peles que cobriam seu ombro. A sensação pungente do metal contra as têmporas lembrava-lhe vagamente das alucinações vívidas com agulhas que costumava ter quando doente: tudo em volta era pouco definido e confuso, mas jamais se esqueceria daquelas agulhas afiadas perfurando a carne do seu seio.
O tempo que passou no baile fora, é claro, aproveitado, tal como deveria ser no primeiro evento daquela natureza de qualquer pessoa, mas no fundo de sua mente Laura ainda sentia-se ansiosa para reencontrar Carmilla. Sabia que deveria estar animada para finalmente conhecer o cavalheiro que havia tão apaixonadamente a presenteado ainda aquela manhã. Mas daí teria que, assim como o pai havia implorado, entreter o homem para que continuasse interessado. E uma coisa era receber presentes e bilhetes afetuosos, outra coisa era oferecer alguma coisa, qualquer coisa, em troca. Não tinha paciência ou sequer talento para ser uma moça em busca de um marido; adorava a atenção, mas sentia-se incrivelmente entediada quando via-se na obrigação de retribuir.
Qual não foi a sua surpresa quando, de soslaio, avistou a sua possível conterrânea. Carmilla estava, como sempre, belíssima. Apesar dos trajes não serem um espelho da moda em voga, Laura podia ver traços da personalidade de Carmilla em cada detalhe que conseguia enxergar. De todo modo, ela mesma, assim como a outra, não trajava um vestido criado exatamente nos moldes do que se vestia por aquele tempo. Achava a ideia de andar nos braços de alguém tão avant-garde quanto ela divertida e animadora, mas qualquer plano de desfilar pelos corredores conversando com a sua bela amiga foram esquecidos quando seus olhos finalmente focaram nos detalhes da máscara de Carmilla: uma cópia exata da sua própria mas com as cores invertidas.
Laura rapidamente seu deu conta, sendo fã de ballet como era, que estavam as duas vestidas quase como um espelho onde ela era a rainha dos cisnes, Odette, e Carmilla, Odile, o Cisne Negro. Não mais de alguns segundos depois, Laura juntou todos os pontos e descobriu a resposta que mostrava-se cristalina como a luz do dia e ofuscava qualquer outra teoria: não precisava preocupar-se em dividir sua atenção entre Carmilla e seu apaixonado pretendente porque, para a felicidade do seu coração, os dois eram a mesma pessoa. Tomada por uma coragem que só momentos como aquele podia proporcionar, Laura caminhou apressadamente por entre os convidados, pouco atenta se esbarrava em alguém e menos ainda se devia algum pedido de desculpas. A taça de vinho que carregava com uma surpreendente destreza serviu-lhe como norte e como âncora em sua pequena jornada até a sacada por onde Carmilla circulava. ❛ ── Minha querida, deve imaginar quão grande foi minha surpresa ao me deparar com o bom gosto de meu pretendente. Odette é tão encantadora quanto a carta que me tu escreveste, mas me pergunto como pude não ter fechado o quebra-cabeça mais cedo, devia saber desde o começo que apenas Shakespeare e tu poderiam ter escrito algo de natureza tão intensa.❜
𝕃𝔸𝕌ℝ𝔸 𝕎𝔼𝕊𝕋𝔼ℕℝ𝔸
𝒪𝒹𝑒𝓉𝓉𝑒, 𝓉𝒽𝑒 𝓈𝓌𝒶𝓃 𝓆𝓊𝑒𝑒𝓃
Laura Westenra compareceu ao baile de máscaras de Dorian Gray vestida aos gostos de um pretendente semi-anônimo, para o deleite de seu pai. O corte do vestido, mais moderno que o comum para a sociedade londrina e um escândalo para sua terra natal, bem como as outras peças — a saber, uma capa branca e um adorno que enfeitava-lhe os cabelos — que trajava seguiam o tema ditado pela máscara metálica de clara inspiração no balé russo, O lago dos cisnes, que havia estreado anos atrás.
ᴄᴏᴜʀᴛᴇꜱʏ ᴏꜰ ᴄ. ᴋ.
Laura Westenra; 21 years old; Currently single; Daughter of John Westenra and Mary Westenra; Student; Homosexual; From the stupendous story of Carmilla; {Elle Fanning}
Quando John Westenra comprou uma propriedade nos pés de uma floresta quando se aposentou, jamais poderia imaginar sua família teria seu lugar em uma trama de terror. O schloss, uma espécie de castelo austríaco era muito mais requintado do que o John seria capaz de bancar em qualquer outro lugar da Europa, mas ali, onde tudo era muito mais barato, conseguia viver como um nobre mesmo que seu patrimônio não fosse compatível com tamanhos luxos.
A primeira e única filha do casal, Laura, cresceu na austera paisagem do schloss sendo tratada como uma lady da alta sociedade. Mesmo nunca tendo conhecido a mãe, Laura foi cercada por figuras femininas que tentavam suprir a falta de uma presença materna. Desde muito jovem, os cuidados do pai e sua posição de filha única criaram na jovem austríaca um sentimento de superioridade perante aos criados e aqueles que eram de classes inferiores. Não era nenhum sentimento de desprezo, mas julgava estar em outro nível e merecer ser paparicada.
Assim como sua infância havia sido marcada pela constante atenção de seu pai e todos à sua volta, da mesma forma os eventos místicos acompanharam a jovem Laura desde os seus seis anos. Ainda uma criança, vivenciou uma experiência que daria frio na espinha do mais cético dos homens. Em uma noite, Laura em um semi transe se deparou com a presença de uma mulher muito bonita em seu quarto, ajoelhada e com os cotovelos apoiados sobre o colchão de sua cama. A beleza dela a acalmou e a pequena Laura voltou a dormir, quando acordou com a sensação de duas agulhas perfurando-lhe a clavícula, a misteriosa mulher, ao diante dos gritos da criança, escorregou para debaixo da cama. A experiência foi tão assustadora que uma ama dormiu no quarto de Laura até que ela completasse quatorze anos.
Os anos se passaram e só voltou a rever a mulher anos depois, já com seus dezenove anos. A surpresa ao se dar conta de que se tratava da mesma pessoa que lhe visitara durante a infância causou uma primeira repulsa na jovem, mas não o suficiente para impedir a aproximação das duas. Curiosamente, Carmilla - como se chamava sua nova amiga - afirmava ter tido o mesmo sonho quando tinha a mesma idade de Laura e, assim como ela, a visão que teve foi de uma Laura adulta, tão qual suas feições eram naquele momento. Os Westenra abrigaram Carmilla uma vez que tanto ela quanto a mãe haviam sido vítimas de um acidente de carruagem e a mais velha havia seguido para uma vila próxima para se recuperar, deixando a filha sob os cuidados da família.
A convivência de Laura e Carmilla tornou as duas inseparáveis, estavam sempre na presença uma da outra e parecia ser atraídas como por magnetismo. Se por um lado Carmilla tinha episódios de paixão e declarava seu amor pela amiga efusivamente, Laura era incapaz de recusar os afetos ou de manter-se irritada quando estavam juntas. Se por um lado a presença de Carmilla no schloss dos Westenras era como um transe para Laura, nas redondenças as mulheres começaram a ser acometidas por uma espécie de febre que, após uma alucinação, drenava todas as forças até que nada restasse a não ser a morte.
A convidada dos Westenras parecia sofrer de uma doença crônica, vira e mexe encontrava-se acamada e enfraquecida e não era capaz de percorrer longas distâncias principalmente ao longo do dia. Laura, por sua vez, começou aos poucos a apresentar sintomas da febre que espalhava-se pelas vilas e schloss vizinhos. As visões noturnas que se misturavam com sonhos voltaram e, assim como quando era uma criança sentiu novamente agulhas perfurando-lhe os seios. A cada dia, sentia-se mais tomada pelos sintomas da febre, cada vez mais fraca apesar de não ser acometida por nenhuma dor além da sensação de estrangulamento em parte do seu pescoço.
Apesar da progressão rápida da doença, felizmente Laura não teve o mesmo fim das outras mulheres que haviam sucumbido aos sintomas. Desde aquela época até hoje, gostava de afirmar que havia se curado graças ao hábitos nobres e à distância que mantinha de trabalhosos não muito sanitários.
Esperando livrar a filha da experiência de ter quase morrido, John levá-la para longe da Áustria. Em um primeiro momento, pai e filha passaram um ano na Itália. Dali, foram para Londres onde John pretendia achar um marido para sua única filha. Laura, devido às origens inglesas do pai, havia sido educada para conhecer e usar a língua tão bem quanto qualquer nativo, mas, apesar de não ter nenhum problema para se comunicar, os novos ares da cidade grande trouxeram consigo uma nova posição social. Se na Áustria, isolada pela aparência austera do schloss onde morava, era tratada como uma dama da alta sociedade, ali Laura era uma média burguesa que só conseguia se misturar com parte da classe nobre devido à educação que havia recebido do pai e não mais pelo status do seu nome.
Assombrada e ao mesmo tempo fascinada pela nova vida, Laura convenceu o pai a usar sua existente influência para conseguir que a filha frequentasse a universidade e estudasse Literatura. Com um pouco de jogo retórico, acabou por convencer John de que um diploma universitário seria um diferenciador na hora de arrematar um bom casamento.
Closed; Played by Liv; She/Her;