Protection ⊕ Aldenon & Lyanna
Pode perceber Lyanna relaxando aos poucos enquanto conversavam, e estava satisfeito com isso, apesar de se sentir um tanto grato que ela houvesse confiado nele para se deixar mostrar o rancor que sentia. A expressão dela mudou quando mencionou sua casa, e Aldenon teve apenas um segundo para perceber que tal detalhe não iria escapar alguém como ela, tudo havia parecido tão casual que havia se esquecido que Lyanna não sabia tudo sobre ele.
Era estranho como sua “casa” continuava a segui-lo mesmo agora, quando tudo que queria era deixar aquele mundo para trás.
”É algum príncipe foragido? Se sim, deveríamos arranjar nosso casamento; claro, sem segundas intenções…”
Sabia que a brincadeira escondia uma dúvida real, mesmo assim não conseguiu conter uma risada. — Não, nada tão importante. Sinto muito. — Respondeu, no mesmo tom de brincadeira, ganhando algum tempo para responder a verdadeira pergunta.
Não sabia ao certo por que ainda não havia mencionado de onde era, Lyanna sabia coisas bem mais importantes, no entanto era uma parte de si que havia se acostumado a esconder. A opinião que tinham de Orlais em Ferelden não era das melhores, e tinham razões para isso, também não era bom que saísse por aí agindo como se fosse um nobre importante quando tudo que queria era evitar grandes cidades e não chamar atenção. Ademais, nem mesmo sabia se conseguiria agir como um nobre depois de todos aqueles anos no Círculo.
Nobreza era algo importante em Orlais, até mesmo nos Círculos o sobrenome e a atitude certa garantiam privilégios; Aldenon não tinha certeza se teria a liberdade que tivera para estudar magia se fosse filho de um comerciante, ou um elfo, mesmo com o apoio do Primeiro Encantador. É claro, haviam pessoas bem mais influentes que ele no Círculo, mas ele nunca havia se interessado muito no jogo político para mudar isso, todo seu tempo era gasto na biblioteca… com Alexis.
Ferelden no entanto não era Orlais, e Lyanna não parecia se impressionar muito com nobres. Não sabia se isso devia o deixar mais seguro ou preocupado em revelar aquela parte de si.
— Creio que conheça Orlais? Ou ao menos sua fama. — Perguntou sem jeito, evitando encontrar seus olhos. Encarou as chamas enquanto memórias invadiam sua mente: as festas e jantares que seus pais o levaram, a grande catedral em Val Royeaux, os chateaux, o Grande Jogo e a obsessão que todos tinham por ele. Até mesmo alguns magos do Círculo. Tentou não pensar nisso. — As coisas que acontecem lá… pelo que me diz, Loghain não é muito diferente dos nobres Orlesianos.
Aldenon suspirou antes de continuar. — Temo que eu seria um deles, se não fosse um mago. Ao menos uma coisa boa em ser mandado para o Círculo e perder todos os seus títulos. — Terminou com um sorriso, e se perguntou quanto mais revelaria até que sua jornada terminasse.
— Mas e você, tem muito disso de onde você vem? — Perguntou, se sentindo um tanto exposto depois de falar sobre Orlais.
Seus lábios curvaram-se para baixo com falsa decepção e Lyanna soltou um suspiro resignado. — Tudo bem, tudo bem. Não sou tão exigente. Não me importaria com um título de menos importância… contanto que não seja um duque — embora houvesse um ar brincalhão em suas faces durante todo o tempo que falava, só então o sorriso risonho retornou a elas. A última frase bastou para que se sentisse como se dividissem algum tipo de piada interna. Novamente, atípico, inesperado, mas da melhor das maneiras.
Suas sobrancelhas saltaram levemente em surpresa ao ouvir o nome de Orlais. Sim, conhecia bem sua fama. Em Ferelden, o local era geralmente mencionado com acidez, cercado por xingamentos, e qualquer comentário terminava com uma expressão de gratidão a Loghain — o que, agora, só a fazia rir em escárnio enquanto seu sangue fervia. Muito do restante de que sabia era herança de seu pai, o qual vivera lá por um certo período e depois mantivera bons negócios com seus mercadores. Orlais podia ser um poço de lucro, se bem aproveitada; infinitas possibilidades e uma multitude de pessoas com gostos refinados dispostos a gastar com o que pudessem esbanjar. Por outro lado, sua nobreza destacava-se em ser desgostante, e sua população recebia mesmo um nome para seu hábito de artimanhas. Lembrava-se da repugnância com que o homem falava sobre eles… embora fosse com repugnância sobre todo e qualquer tipo de nobreza. Orlais era particular. Muito do que ouvira fazia-a revirar os olhos.
“Pelo que me diz, Loghain não é muito diferente dos nobres Orlesianos”. Deixou escapar uma risada curta e assentiu. Sim, seu pai concordaria com aquela afirmação, e, vinda de alguém que crescera lá, ela só tornava a ruiva mais propensa a acreditar também.
Um nobre. Encontrou os olhos de Aldenon novamente, sobrancelhas mais uma vez saltadas, surpresa escrita em seu rosto. Era quase hilário, tendo em vista a brincadeira que fizera antes. Um príncipe foragido. Bem, não exatamente, mas quase. O outro já não lhe parecia como um orlesiano, embora desse sentido a seu sotaque. Um nobre, então? Por outro lado, como ele mesmo dissera, fora para o Círculo, e agora era um fugitivo. Não realmente um nobre. Certamente não um nobre em comportamento — o que era o oposto de ruim.
A pergunta do outro trouxe-a de volta à realidade. Casa. Não estava acostumada a falar sobre casa, embora a ideia não mais a fizesse sangrar por dentro. Naquele momento, porém, sentia-se mesmo desejosa de falar, como se a abertura de Aldenon a convidasse ao mesmo. — Não exatamente, não. De onde venho, os nobres são praticamente um enfeite inútil. É sua riqueza que determina seu poder, e não o contrário — respondeu. Não havia melhor maneira de descrever a política de Antiva. Não que possuísse extenso interesse em política, de qualquer forma. — Antiva — esclareceu, com um pequeno sorriso em seus lábios. — Ouço-o falar e ser nobre me parece uma tortura. Não sente falta de nada de Orlais? — indagou, genuinamente curiosa. Se passara a maior parte de sua vida enclausurado no Círculo... bem, podia ver por que não sentiria.















