Protection ⊕ Aldenon & Lyanna
Não sabia ao certo que reação esperava arrancar do outro, se sequer esperava algo. Que compartilhasse de sua raiva? Que a julgasse? Que pedisse por mais explicações, para que ela pudesse enfim derramar toda a raiva que tinha contida em si em palavras? Muitas possibilidades do que de fato receberia haviam cruzado sua mente sem que ela escolhesse, ou tentasse escolher, uma. No entanto, não chegara a imaginar aquilo. Uma reação tão… moderada, quase asseguradora. Desconcertada, deixou seus olhos oscilarem, incerta de como prosseguir.
As palavras dele pareceram lembrá-la de respirar. Por um momento, simplesmente encarou o fogo em seu bruxulear constante, reganhando ciência de onde estava, deixando o ódio se esvair. Então, voltou o olhar para ele e assentiu. Ele soara… genuíno. Por trás de sua voz, podia jurar que ouvira a insinuação de alguém que se importava. E não havia ela se importado com Aldenon quando este lhe revelara a realidade que conhecera?
Por um breve instante, sentiu-se como se se conhecessem havia anos, sua relação baseada em mais do que alguns septins e um contrato selado em ar. De fato, nunca tivera tanta proximidade com um contratante antes, e ainda que fosse nova no ofício de mercenária, não tinha razões para acreditar que teria. Quem buscaria se tornar amigo daqueles que pagava para realizar seu trabalho sujo por si?
Bom, nada em seu serviço com Aldenon fora habitual, fora? Se fosse sincera, estava contente assim. Havia mesmo uma confortável familiaridade em protegê-lo, agora que pareciam ter desenvolvido alguma espécie de parceria. Como se a aproximasse de quem realmente fora criada para ser.
A voz cavernosa do outro arrancou-lhe de imediato de suas reflexões. Franziu o cenho. Casa? Referia-se a sua casa como se as baixarias da classe alta fizessem parte de seu dia a dia, o que ela não podia deixar de estranhar. Só então ocorreu-lhe que ele provavelmente tivera algum resquício de vida fora do Círculo, vida da qual ela não tinha qualquer ideia. Como era natural de si, sentia sua curiosidade aflorar.
— O faz lembrar de casa? O que quer dizer com isso? — perguntou. — É algum príncipe foragido? Se sim, deveríamos arranjar nosso casamento; claro, sem segundas intenções… — um sorriso divertido indiciou-se nos cantos de seus lábios enquanto mascarava sua real dúvida como um gracejo. Falara de gente da laia de Loghain e Aldenon replicara com uma propriedade que lhe passara despercebida — muitas pessoas, de fato, tinham ciência da sujeira sob o tapete dos nobres, ou suspeitavam de algo. No entanto, sua nova afirmação a trouxera de volta à mente. Uma charada, tornou a pensar. Ele era realmente uma charada.
Pode perceber Lyanna relaxando aos poucos enquanto conversavam, e estava satisfeito com isso, apesar de se sentir um tanto grato que ela houvesse confiado nele para se deixar mostrar o rancor que sentia. A expressão dela mudou quando mencionou sua casa, e Aldenon teve apenas um segundo para perceber que tal detalhe não iria escapar alguém como ela, tudo havia parecido tão casual que havia se esquecido que Lyanna não sabia tudo sobre ele.
Era estranho como sua “casa” continuava a segui-lo mesmo agora, quando tudo que queria era deixar aquele mundo para trás.
”É algum príncipe foragido? Se sim, deveríamos arranjar nosso casamento; claro, sem segundas intenções…”
Sabia que a brincadeira escondia uma dúvida real, mesmo assim não conseguiu conter uma risada. — Não, nada tão importante. Sinto muito. — Respondeu, no mesmo tom de brincadeira, ganhando algum tempo para responder a verdadeira pergunta.
Não sabia ao certo por que ainda não havia mencionado de onde era, Lyanna sabia coisas bem mais importantes, no entanto era uma parte de si que havia se acostumado a esconder. A opinião que tinham de Orlais em Ferelden não era das melhores, e tinham razões para isso, também não era bom que saísse por aí agindo como se fosse um nobre importante quando tudo que queria era evitar grandes cidades e não chamar atenção. Ademais, nem mesmo sabia se conseguiria agir como um nobre depois de todos aqueles anos no Círculo.
Nobreza era algo importante em Orlais, até mesmo nos Círculos o sobrenome e a atitude certa garantiam privilégios; Aldenon não tinha certeza se teria a liberdade que tivera para estudar magia se fosse filho de um comerciante, ou um elfo, mesmo com o apoio do Primeiro Encantador. É claro, haviam pessoas bem mais influentes que ele no Círculo, mas ele nunca havia se interessado muito no jogo político para mudar isso, todo seu tempo era gasto na biblioteca... com Alexis.
Ferelden no entanto não era Orlais, e Lyanna não parecia se impressionar muito com nobres. Não sabia se isso devia o deixar mais seguro ou preocupado em revelar aquela parte de si.
— Creio que conheça Orlais? Ou ao menos sua fama. — Perguntou sem jeito, evitando encontrar seus olhos. Encarou as chamas enquanto memórias invadiam sua mente: as festas e jantares que seus pais o levaram, a grande catedral em Val Royeaux, os chateaux, o Grande Jogo e a obsessão que todos tinham por ele. Até mesmo alguns magos do Círculo. Tentou não pensar nisso. — As coisas que acontecem lá... pelo que me diz, Loghain não é muito diferente dos nobres Orlesianos.
Aldenon suspirou antes de continuar. — Temo que eu seria um deles, se não fosse um mago. Ao menos uma coisa boa em ser mandado para o Círculo e perder todos os seus títulos. — Terminou com um sorriso, e se perguntou quanto mais revelaria até que sua jornada terminasse.
— Mas e você, tem muito disso de onde você vem? — Perguntou, se sentindo um tanto exposto depois de falar sobre Orlais.













