𝑻𝑯𝑬 𝑴𝑰𝑫𝑫𝑳𝑬 𝑪𝑯𝑰𝑳𝑫 ⨾ lives in a dream , waits at the window wearing the face that she keeps in a jar by the door who is it for ?
𝒉𝒊𝒔𝒕𝒐𝒓𝒚 ⨾
virginia thornhill nunca foi protagonista de sua história. ao nascer, a criança logo teve amparo de kitty, os pequenos olhos ungidos dia e noite para que ela pudesse finalmente abri-los e dar o ar de sua graça. dizia-se que virginia roubou a parte fria do ventre de sua mãe, deixando-a apenas com um torturante calor e um estado de delírio turvo, o corpo empapado de suor enquanto a respiração saía em arquejos descompassados, como se o organismo tentasse expulsar da forma que podia qualquer resquício que virginia deixara em seu corpo por doses sufocantes e ardentes. um presságio que acometeria clara thornhill anos após ou não, fato era que virginia nunca esqueceu do evento desde que o escutou pela primeira vez. seus olhos diziam muito mais que suas palavras, embora pouco chegasse ao conhecimentos dos pais e dos adultos que a cercavam: para eles, virginia era muda, uma criança que o gato comeu a língua. o tempo passou e, aos poucos, sons quebraram o mutismo, tímidos e hesitantes, de modo que cada sílaba custasse um preço valioso. e realmente o era, pois quando virginia abria a boca, poderia-se imaginar um grande monólogo, seguido por um estado de silêncio. foi só então que os thornhill enxergaram a atípica timidez de virginia como sua armadura, uma forma de se proteger do mundo que parecia sempre grande demais, barulhento demais, para uma menina tão introspectiva. quando a guerra estourou, virginia ainda não era mais que uma sombra de seus irmãos, uma jovem magra e pálida, que hesitava ao caminhar, como se cada passo pudesse fazê-la desaparecer. quando harry thornhill deixou seus filhos para se juntar a guerra, a garota sentiu que mais uma fagulha de si mesma estaria perdida para sempre. de sua própria maneira, idolatrava o mais velho, a maneira que cuidava de seus irmãos, embora o que ela não seria capaz de esquecer era o olhar que a lançava quando constatava que virginia não precisava de seu afago e tampouco de sua preocupação: jamais causaria problemas. foi na guerra que a insônia se tornou sua companheira mais fiel. no início, atribuía ao barulho imaginatório das bombas e ao cheiro de pólvora, mas mesmo quando as noites estavam silenciosas, ela se via incapaz de fechar os olhos. era como se, ao adormecer, corresse o risco de perder algo vital e depois da morte de seu pai, esse temor ganhou forma. sonhava com ele quase todas as noites, a figura de harry surgindo em fragmentos confusos, chamando por sua ajuda com uma urgência que virginia não podia atender, e por mais que tentasse, pois em todos os seus sonhos ela tentava, jamais mudaria o destino do homem. anos depois, afastada de seus tormentos, se comprometeu a um novo papel: o de coadjuvante da história de phillip smythe. o relacionamento prático e estável permitiu uma centelha de esperança, uma rara fantasia de que poderia finalmente encontrar alguma estabilidade junto ao homem, não o amava, ao menos, o sentimento que nutria para com o noivo nada se assemelhava com as histórias de romance que acumulavam poeira em seu quarto, e no dia do casamento, tudo se provou-se pior: o altar permaneceu vazio, exceto por ela. phillip teria desistido dela e tudo que ela representava no caminho da igreja, e com ele qualquer sonho que virginia ainda nutria sobre compartilhar sua vida com outra pessoa foi enterrado em seu mediastino. desde então, virginia decidiu que bastava. tornou-se ainda mais prática, fechada, e completamente cética sobre as histórias de finais felizes que sempre considerou tolas. se a vida queria que ela fosse uma sobrevivente, então sobreviveria, mesmo que a vida fosse cinzenta como um dia tipicamente londrino. isso não significava que não doía, especialmente quando a solidão pairava sobre ela com o mesmo peso que seu silêncio de infância. ainda assim, virginia thornhill continuava, como uma figura discreta, eficiente, e teimosamente resistente em um mundo que parecia determinado a torná-la obsoleta.
𝒊𝒏𝒔𝒑𝒊𝒓𝒂𝒕𝒊𝒐𝒏 ⨾
esther greenwood (the bell jar), malcolm irvine (a little life), theodore decker (the goldfinch), celine (before sunrise), natasha rostova (natasha, pierre & the great comet of 1812).









