1. gnossiene: no. 1 - erik satie
2. i walk the line - johnny cash
3. you don't know me - ray charles
4. travellinâ light - cliff richard
5. lonesome town - ricky nelson
Abriu a boca para responder a pergunta com a sinceridade que lhe surgia sempre que conversava com Betty, mas parou por alguns segundos. Deveria? Ficou tentado a se encolher um tanto com a proximidade, desacostumado com o contato, mas disfarçou, alcançando a chaleira e evitando olhar diretamente para ela. "NĂŁo muito. Desacostumei com o silĂȘncio do interior." Inventou a primeira desculpa que surgiu na mente. "E vocĂȘ?" Serviu-se uma xĂcara de chĂĄ, limpando a garganta com a constatação de que, sim, nĂŁo se falavam havia muito tempo. "Bem ocupado. Eu..." Qual seria a desculpa da vez? "VocĂȘ sabe, pacientes tomam bastante do nosso tempo." Assentiu, satisfeito. "E vocĂȘ? NĂŁo imaginei que viria."
Vincent acordou novamente com os passos dos colegas no corredor. Ainda estava exausto, como se não dormisse hå meses. Se arrumou devagar e, quando percebeu o relógio, notou que estava atrasado. Terminou depressa, e desceu enquanto ainda ajeitava a gravata. A mesa estava posta e, como se rotineiro, ele começou a caminhar para o assento que tomava quando criança, mas a senhora Banks o segurou pelo braço e apontou para outro lugar vazio. Sem contestar, ele se sentou onde ela mandou. Jå havia visto quem estava ao seu lado, e depois do sonho febril da noite passada, lembrou-se de como havia sido rude. Podia sentir o rosto queimar de vergonha, tanto por sua atitude naquela noite, quanto pelos anos passados. Respirou fundo, as mãos inquietas embaixo da mesa. "Bom dia, Elizabeth."
antes de retribuir o abraço, ele se pegou surpreso. vince sempre fora hesitante demais para qualquer demonstração tão espontùnea. e, pelo jeito, ainda era, jå que se afastou logo em seguida, visivelmente envergonhado, mas sem conseguir esconder a alegria no olhar. ainda assim, uma melhoria da sua versão mais jovem, com certeza.
ââ foi o courage que te convenceu?â brincou, em tom leve. na sua Ășltima despedida com vincent, eddie havia lhe dado sua pelĂșcia, um gesto silencioso de conforto, como se quisesse garantir que ele nĂŁo estaria completamente sozinho fora da mansĂŁo. agora, vĂȘ-lo de volta ali parecia quase simbĂłlico, como se algumas coisas, por mais que mudassem, sempre encontrassem um jeito de retornar.
Milo soltou uma risada baixa enquanto adentrava a sala, seus passos lentos ecoando suavemente no ambiente. Ele deslizou a mĂŁo pelos mĂłveis, admirando os instrumentos espalhados, como se explorasse um territĂłrio quase esquecido. Sempre soubera da existĂȘncia daquela sala, mas as vezes que a frequentara eram tĂŁo poucas que podia contar nos dedos.
Ele deu de ombros, e um breve sorriso de canto surgiu em seus lĂĄbios, apenas para ser rapidamente substituĂdo por sua costumeira expressĂŁo neutra.
â NĂŁo muito. Te assustei?
O tailandĂȘs se aproximou, acomodando-se prĂłximo a Vincent, os olhos observando-o com uma atenção meticulosa, quase curiosa.
â NĂŁo imaginei que vocĂȘ fosse voltar, Vince. â disse, sua voz firme, mas com um toque de genuĂna admiração. â Estou, ao mesmo tempo, surpreso... e orgulhoso.
Pensou em como nĂŁo ouvia a risada de Milo havia muito tempo. Tentou comparar com o riso que se lembrava da infĂąncia, mas as memĂłrias pareciam tĂŁo escassas e ao mesmo tempo tĂŁo presentes. Era engraçado a forma que se lembrava das crianças de Thornhill com pouca frequĂȘncia, como se fossem um sonho distante, mas quando se lembrava, sentia que nunca havia abandonado aquela mansĂŁo e seus habitantes.
Aos sussurros, Agnes disse Ă Vincent que ele seria enviado para longe por ser um bastardo. Arthur amava apenas Phaedra, e por isso estava garantindo que o pirralho birrento e chorĂŁo estaria longe o suficiente para nĂŁo perturbar a pequenina. Apesar dos sussurros, Arthur ouviu. Apesar de nĂŁo ser o melhor dos pais, ele amava o seu filho. De uma forma corrompida e pĂștrida, mas amava. Agnes sorriu maliciosamente ao ver as lĂĄgrimas quentes se formarem nos olhinhos azuis do pequeno Vincent, e nĂŁo percebeu a mĂŁo que fora erguida contra ela.
De modo algum a conversa que se seguiu foi afetuosa, mas ao menos Arthur tentou explicar ao primogĂȘnito que vovĂŽ e vovĂł, aquelas duas entidades que ele conhecia apenas por nome, estavam o esperando, e que um senhor muito gentil o havia oferecido um quarto. NĂŁo houve delongas para explicar ao garotinho que a guerra destruiria Londres, e ele perguntou de Phaedra. Ela estaria segura ali? E ele nĂŁo? Agnes riu amargamente por entre as lĂĄgrimas, jurando que a preocupação da criança era falsa, cheia de cinismo. Como poderia uma criatura como ele se importar? Estava cega de ciĂșmes.
Na estação de Yorkshire foi encontrado pelo mordomo dos avĂłs. Henry e Florence nĂŁo puderam comparecer, e ele foi sozinho com o homem mais velho. Ambos em silĂȘncio, enquanto Vincent observava a estrada vazia e aterrorizante. Foi deixado em frente Ă grande mansĂŁo sem sequer uma palavra de conforto, um aviso de que veria os avĂłs em algum momento... nada. Uma moça logo veio lhe buscar, se apresentando como a babĂĄ que tomaria conta dele. Foi levado pelos corredores da mansĂŁo, recebendo instruçÔes que ele mal conseguia ouvir. Todo pequeno barulho era motivo para olhar duas vezes e se certificar de que veria uma pessoa viva. Cada sombra entre as passagens dava lugar Ă imagem de fantasmas prontos para o pegar. Ele nĂŁo queria chorar, mas os olhinhos marejados e as mĂŁozinhas apertadas em volta da malinha foram vistos como timidez ou receio, e nĂŁo como uma criança aterrorizada com aquela construção.
Ouvir aquela melodia fez Milo questionar seriamente sua sanidade. Mal havia chegado a Thornhill, e jå estava ouvindo vozes? Cassandra certamente ficaria orgulhosa dele. Seu pai, o Sr. Suthipong, passara boa parte de sua infùncia insistindo para que ficasse longe daquela casa, mas Milo nunca ouvia. Talvez fosse pura ousadia⊠ou burrice mesmo. Provavelmente a segunda. Mas agora jå era tarde; ele estava ali, preso entre as paredes que pareciam exalar lembranças.
Guiado pelo som, Milo tentou se lembrar da localização da antiga sala de mĂșsica. Enquanto caminhava, flashes de sua infĂąncia invadiam sua mente: as tentativas frustradas de aprender piano, resultando apenas em uma versĂŁo trĂŽpega de La Vie en Rose, de Edith Piaf. Foi assim que percebeu que as artes nĂŁo eram o seu forte â ele era um homem da natureza, nĂŁo da mĂșsica.
Ao encontrar a sala, seus olhos pousaram no loiro, completamente absorto no instrumento. Por um instante, Milo sentiu um leve toque de inveja daquela habilidade, mas rapidamente reprimiu o pensamento. Aquela casa tinha o hĂĄbito de despertar sentimentos que ele preferia deixar no passado, mas nĂŁo permitiria que isso o dominasse novamente.
Enquanto tocava a canção, mantinha os olhos fechados, absorvido na melodia do instrumento que tocava. Em algum momento sentiu que estava sendo observado, mas o terror de abrir os olhos e enxergar algo que nĂŁo deveria o fez continuar tocando, esperando que a sensação se dissipasse em algum momento. Tentou postergar o final da mĂșsica, mas logo as notas terminaram e ele percebeu que deveria abrir os olhos e enfrentar o que estivesse o observando. Ă claro que nĂŁo considerou que seria outra pessoa, a casa estava cheia, afinal. A voz de Milo, no entanto, o fez abrir os olhos e se acalmar. "Talvez vocĂȘ sĂł nĂŁo estivesse prestando atenção, Milo." Sorriu, segurando o instrumento e olhando para o mais velho. Levou o comentĂĄrio como uma brincadeira, sem querer cair no erro de analisar o tom e as palavras para descobrir se era, de fato, um comentĂĄrio ĂĄcido. "EstĂĄ aĂ hĂĄ bastante tempo?"