influências #2 - os mutantes
Há algum tempo falamos sobre o Ray Charles e como a sua mistura de blues e jazz sob um fundo gospel com letras nada cristãs influenciaria meio mundo depois dele, nos mais variados estilos. Em 1966, Ray Charles lançava seu primeiro álbum após finalmente ter vencido o seu vício em heroína. Neste mesmo ano no Brasil, dois irmãos já envolvidos no meio musical conheciam uma outra menina cantora e formavam o que viria a ser talvez a mais importante banda já criada em terras nacionais, Os Mutantes.
Os irmãos Arnaldo Baptista (um tecladista super criativo) e Sérgio Dias (um guitarrista talentosíssimo) aliaram-se a Rita Lee, que já cantava na banda Teenage Singers e juntos, chamaram a atenção de produtores famosos da época, responsáveis pelo sucesso então crescente do rock brasileiro, ainda na forma da Jovem Guarda.
Já contestadores, em 1967 preferiram abandonar a rede Record, então responsável pelos programas dominicais da Jovem Guarda por não concordarem com algumas de suas diretrizes artísticas e então, livres de um contrato que os limitava artisticamente seguiram seus próprios passos auxiliados pelo maestro Rogério Duprat, que foi o grande responsável pelo encontro d’Os Mutantes com o Tropicalismo (assunto para outro post).
Essa fase tropicalista durou relativamente pouco, mas o suficiente para ficar na história e influenciar diversos artistas ao redor do globo, lógico, com a ajuda dos demais membros do movimento, que podemos destacar entre os mais famosos Caetano Veloso, Gilberto Gil e Jorge Benjor.
Fato é que já nesta época Os Mutantes faziam uso de artifícios pouco utilizados musicalmente não só no Brasil, mas em todo o planeta, como guitarras distorcidas com efeitos variados, sobreposição de vozes e arranjos de teclados como plano de fundo para as mais variadas melodias.
Quando a Tropicália teve seu fim devido ao avanço do conservadorismo imposto pela ditadura militar que se instalou no país, cada artista se viu obrigado a seguir o seu caminho e Os Mutantes entregaram-se então ao rock, lançando em 1970 o álbum A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado, tão aclamado pela crítica que foram convidados a passar uma temporada na França, onde viriam a gravar o álbum Tecnicolor, que só viria a ser lançado no ano 2000 (logo ali embaixo) devido a desistência da gravadora em lançar o álbum na época.
De volta ao Brasil, cada vez mais Os Mutantes se aproximavam do rock psicodélico, em muito pelo uso constante de drogas e pelo envolvimento dos integrantes do grupo com a comunidade hippie, o que também culminou na saída de Rita Lee (então casada com Arnaldo Baptista) da banda, em 1972.
A partir daí, Os Mutantes foram perdendo sua identidade. Arnaldo, cada vez mais perturbado devido ao fim de seu relacionamento com Rita deixou a banda sendo acompanhado pelos demais integrantes, que deixaram Sérgio seguir adiante com o nome, lançando sempre álbuns pouco rentáveis comercialmente e cada vez menos elogiados pela crítica.
O retorno d’Os Mutantes aconteceria graças a gravadora Universal, que acabou herdando os direitos sobre aquele álbum gravado na França em 1970, o Tecnicolor, e o lançou com arte e caligrafias de Sean Lennon (ele mesmo, filho do beatle John), sendo logo aclamado por fãs e crítica e sendo eleito por diversas publicações especializadas como um dos álbuns mais influentes de todos os tempos, no rock, na psicodelia e na música experimental.
A repercussão do álbum foi tão positiva que os membros originais da banda foram convidados em 2006 a receber uma homenagem no Barbican Hall, importantíssimo centro cultural localizado no coração de Londres, o que resultou na realização de um show em comemoração aos feitos da banda. Rita Lee e Liminha (baixista original do grupo) recusaram o convite e foram substituídos, sendo os vocais femininos assumidos por Zélia Duncan. O show teve a abertura de Devendra Banhart (grande fã do grupo) e acabou virando um bem sucedido DVD, lançado pela Sony BMG e que levou o grupo a uma breve turnê nos Estados Unidos, tendo tudo isso acontecido no ano da glória de 2006.
Em 2007, o grupo se apresentou no aniversário da cidade de São Paulo no Parque da Independência, em frente ao Museu do Ipiranga, para cinquenta mil pessoas (tive a sorte de estar presente neste show), apresentando seus maiores clássicos e anunciando que retomariam as atividades, com Zélia definitivamente no lugar de Rita.
Empolgado, Sérgio Dias tentou manter os integrantes remanescentes juntos, mas sem muito sucesso, tendo Zélia deixado a banda logo depois e assumido os vocais em seu lugar Bia Mendes, que excursiona com Sérgio e Dinho Leme (baterista original do grupo) até hoje, apresentando-se esporadicamente em diversos lugares ao redor do planeta.
Apesar do melancólico fim, Os Mutantes deixaram a sua marca na música mundial, tendo influenciado diversos artistas, como David Byrne (Talking Heads), o já citado Devendra Banhart, El Guincho, Tortoise, Beck e mais adeptos da psicodelia e da tropicália.