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Conforme caminhavam em direção à cafeteria, trocando meia dúzia de trivialidade e algumas risadas divertidas, Tomás se deu conta de como havia sentido falta da presença de sua melhor amiga durante todo aquele verão: as ruas silenciosas, muito em parte por conta do baixo número de estudantes que havia retornado para o próximo semestre, agora pareciam aquecer-se com a presença vibrante de Anastasia, suas gargalhadas volumosas e melódicas e também por seu espírito tão brilhante e efervescente quanto às madeixas douradas de seus cabelos. O nervosismo que borbulhava dentro de si lentamente transformou-se em um sentimento de satisfação, denunciado por um corriqueiro sorriso junto aos lábios, que vez ou outra tornava-se largo demais para aquela situação, a qual ele fazia questão de tentar seu máximo em disfarçar. “Ela se lembra”, seu inconsciente repetiu, como se buscasse certificar-se de que era aquilo mesmo que havia ouvido e não apenas mais um golpe ilusório de seu coração apaixonado, que frequentemente se perdia em devaneios românticos e fantasiosos. Riu de si mesmo, bobo com a possibilidade de que logo ele era capaz de ocupar algum espaço na mente da garota de seus sonhos – “o que mais será que ela se lembra?”, questionou, ponderando as possibilidades. – Vou me lembrar disso da próxima vez. – o sorriso completamente derretido brotou em seus lábios antes mesmo que pudesse concluir o raciocínio, sem saber se àquela sensação em seu estômago eram das borboletas ou da fome que sentia.
– Hum… – respondeu espontaneamente diante da hipótese levantada pela amiga. Tomás não entendia muito sobre o que a garota fazia, bem, é claro que sabia que ela corria atrás de maridos infiéis à mando de esposas desconfiadas, isso era bastante óbvio, mas pouco sabia como ela realmente fazia isso – será que ficava escondida em arbustos durante toda a noite como fazem nos filmes? Uma espécie de híbrido entre Nancy Drew e Agente 007? As histórias, entretanto, eram sempre fontes de um entretenimento divertido e o García não se importava em ouvir por horas e mais horas sobre as experiências quase hollywoodianas da garota. – Caramba, isso é… horrível. – a conclusão o fez franzir a sobrancelhas enquanto ainda tentava entender o que havia acabado de ouvir, mas uma risada rompeu o semblante outrora sério do latino. – Não, tô falando sério, isso é muito cruel. – os dedos tocaram a boca, buscando controlar as risadas inadequadas. – Avalon não era pra ser, tipo, aquelas cidadezinhas de filme? Super pacatas, cercas branquinhas… – Tomás também não conhecia muito sobre a cidade natal da amiga, mas a última coisa que poderia esperar de um município tão pequeno quanto àquele era um triângulo amoroso desastroso. – Como as pessoas são capazes de esconder coisas assim? Fala sério, eu nem sei privar meu mural no MySpace. – o moreno riu do próprio comentário, logo em seguida pensando em como o mesmo havia soado completamente idiota.
O semblante bem humorado do rapaz lentamente deu lugar à uma expressão petrificada, como se não pudesse acreditar naquilo que seus ouvidos estavam escutando. Sua vontade era de interrompê-la antes que dissesse mais uma palavra, mas isso implicava em uma confissão de seus sentimentos mais profundos, o que certamente ele não teria a menor coragem de fazer, ao menos não ali, no meio da rua em um domingo de sol qualquer. Suspirou baixo, afogando seus sentimentos em um silêncio profundo e desanimador, sentindo-se um fracote por não conseguir admitir suas paixões, exercício que frequentemente fazia sempre que a via passar pela porta de seu quarto. – Não, é, eu entendo, super. – arranhou a garganta, enfiando as mãos no bolso, buscando não parecer tão desesperado quanto realmente estava. – É que, sei lá, não acha que pensar assim é conceder vitória à eles? – deu de ombros, observando os pés. – Os traidores, quero dizer. – completou o raciocínio, buscando fazer sentido. – É por isso que eu acho que as coisas só vão para frente quando as pessoas já se conhecem, sabe? Antes de qualquer relacionamento, de tudo. – Tomás poderia ser um covarde, mas não era burro. – Pode parecer besteira, mas no final das contas se você não é amigo de quem você ama, então o que sobra? – embora o rapaz estivesse desesperadamente tentando argumentar contra o convicto estado de desilusão amorosa da outra, ao mesmo tempo que jogava um dica ou outra sobre suas intenções, o raciocínio elaborado por ele era legítimo. – Ás vezes só amor não basta. – a conclusão parecia um tanto melancólica, e talvez Stassie estivesse certa, mas preferia acreditar que não. – Mas o que eu sei, não é? – ele ergueu as duas mãos como se o objeto da conversa fosse irrelevante, soltando um suspiro despreocupado logo em seguida. – Até que enfim! ‘Tá sentindo isso? – o comentário se referia ao aroma inconfundível da panificação que invadia o salão da cafeteria. – Se não fosse por você eu estaria agora na cozinha da Kappa tentando descobrir se aquele galão de leite ainda está na validade. – a direita abriu a porta, dando espaço para que a jovem entrasse no salão. – Eu provavelmente deveria ver isso mais tarde, não é? Bem lembrado. – ele ergueu o dedo indicador de uma das mãos como tivesse feito uma enorme descoberta científica, marcando a tarefa doméstica em uma nota mental afim de não se esquecer.
Anastasia acabou rindo com a ideia do rapaz de sua cidade natal, e ela realmente não o culpava por pensar daquele modo. Era assim que Avalon se esforçava para aparentar aos turistas de qualquer maneira, e verdade fosse dita, para os próprios habitantes. Mas como qualquer outro lugar, tinham as pessoas boas e as ruins - sendo as últimas em maior quantidade. “Você acha que nessas cidadezinhas não existem coisas ruins e mentiras? Pois acredite, esse tipo de coisa tem em todo lugar, não importa quão bom pareça.” Talvez fosse uma visão exageradamente negativa da vida, mas assim era Stass - pessimista, num geral. O comentário seguinte dele podia ter sido despreocupado e despretensioso, mas servia - mesmo que inconscientemente - para aumentar alguns pontos na concepção da loira. Claro, ela não tinha a menor intenção de colocar a mão no fogo por outra pessoa, mas Tomás era mesmo muito sincero em tudo que dizia e fazia, e até mesmo o comentário brincalhão colaborava para aquela visão autêntica que tinha do amigo. Além do mais, sobre o que ele poderia mentir, de qualquer maneira? Não era como se tentasse se aparecer, e não poderia imaginar o que o levaria a mentir, por exemplo, sobre seus tantos empregos. Considerando o máximo que Stass estaria disposta a acreditar em alguma pessoa, ele definitivamente ocupava espaço naquela pontuação alta. “O que me lembra: eu tenho quase certeza de que confundiu os lugares do chat privado e da timeline um dia desses. A não ser que queria que todos lessem sobre como você precisou sair mais cedo do trabalho porque rasgou a sua calça.” Ela disse, recordando-se do que tinha feito uma nota mental de avisar o mais velho. Provavelmente ele gostaria de apagar a postagem depois. Para o assunto ligeiramente mais sério, que era mais um desabafo da parte dela que qualquer outra coisa, Anastasia seguiu atenta, escutando com interesse as opiniões que ele tinha a oferecer. Fazia sentido o que ele tinha a dizer, admitiria, mas mesmo assim havia algo que muito a incomodava na ideia de entregar a confiança a alguém, reduzindo à uma questão de tempo que tivesse o coração quebrado e a lealdade alheia questionada. No fundo, seu medo de se submeter a um relacionamento menos do que perfeito vinha da maneira que havia sempre idealizado a relação outrora existente entre o pai e a falecida mãe. Se eles conseguiram encontrar a pessoa ideal e perfeita um para o outro, então é porque aquilo era sim uma possibilidade. E se era, então queria dizer que, pelo menos matematicamente falando, Demir tinha pouquíssimas chances de seguir o mesmo caminho de sucesso. “Talvez tenha razão. Eu acho talvez seja mesmo muito melhor se há uma amizade forte.” Comentou, pensativa. No mínimo proporcionaria uma base suficiente, certo? O assunto foi dissipado com o comentário alheio quanto ao café, que fez com que a jovem sentisse o estômago roncar. “De nada, de nada” Brincou, apertando um pouco mais o passo para entrar no local. “Oh, por favor, tudo naquela geladeira deve ter estragado nas últimas semanas. Precisamos urgentemente resolver aquilo” Os Kappas definitivamente não estavam entre os mais organizados daquele campus. Sentando-se na mesa de sempre, Stass apoiou as pernas em uma das cadeiras ao lado, esperando pelo atendente e se fazendo confortável como de costume. “E então, me conta: quais os novos empregos que conseguiu no verão?” Ela brincou, bem humorada. Não tratava com qualquer demérito os tantos trabalhos do homem, muito pelo contrário. “Sabe, ainda está de pé a proposta de trabalhar comigo. Apesar de que...bom, você teria que ser um pouco menos estabanado. Só um pouco.”











