Tinha tanto para perguntar, para esclarecer. O ritmo intenso dos anos havia feito com que a Cowatt esquecesse da naturalidade com que Clive podia conduzir uma conversa. Ao menos com ela. Ele era direto, sem rodeios ou meandros, e parecia desnudar sua alma como ninguém. Quando estavam juntos, em Wisconsin, ele tinha o hábito surpreendente de deixar claro suas opiniões, dizendo-lhe o que ela precisava escutar. Ainda que não fosse exatamente o que queria ouvir. Isso sempre acabava por fazê-los rir em meio as provocações dessa doce sinceridade. Apesar dos encontros e desencontros, àquele fragmento insistente de familiaridade pareceu furar a bolha de hesitação. Era isso que o levaria longe, pensou Quinn, sua fidelidade aos princípios que o moviam. À música, à arte, à simplicidade poética da vida.
Disseram coisas que eu sequer seria capaz de repetir. O coração de Quinn afundou, como se pressionado pelo peso dos outros órgãos. Havia outra característica curiosa na sintonia compartilhada entre os dois: Eles eram capazes de se comunicar através de enigmas e meias palavras. Será que ele sabia? Será que tinha como saber? O fato dos boatos estarem circulando com velocidade avassaladora, não era tão difícil de processar quanto a possibilidade de Clive ter descoberto sobre seu envolvimento com Elliot por terceiros. O que ele estaria pensando? Será que estava magoado ou ressentido? Ou sequer estava ligando para isso, tendo transformado o que existiu entre os dois em memórias distratantes e insignificantes? Pensar nisso a fez sentir um tanto nauseada. Os barulhos externos e as fofocas sussurradas pelos professores também não ajudavam a fazê-la se sentir melhor.
Ainda que inundada por sensações desagradáveis, o resto do comentário do rapaz a fez rir. Um riso hesitante e surpreso, que escapou-lhe entrecortado por entre os lábios. A ideia inicial era responder-lhe com determinação, mas a forma como ele colocou o raciocínio venceu a superficialidade de suas deliberações. — Pesado? Eu não pego pesado. Eu… — Balançou a cabeça em negação, tentando encontrar as palavras certas. Mas foi vencida, por fim, fazendo um gesto inquieto e derrotado com as mãos. — É, talvez você tenha razão! Eu poderia tentar uma abordagem mais…amigável. — Desabafou, rindo mais um pouco sobre a referência usada por ele com a expressão quebre a perna. — Eu juro que estudei tudo muito bem para me certificar de que ninguém quebraria, literalmente, a perna. Ou a coluna. — Ergueu uma sobrancelha, divertida. — Eu estava tentando criar uma metáfora sobre a atuação ser um mergulho. Pular de cabeça. Deslocar-se minimamente do seu corpo para encontrar um novo eu. Faz sentido? — Perguntou, genuinamente curiosa para saber a opinião do rapaz. Minutos depois, ele anunciou que teria de partir. Algo nela não queria quebrar essa recém-descoberta atmosfera de paz armada. Muito embora soubesse que era inevitável. Talvez ela ainda não tivesse se acostumado a vê-lo partir. — Se estiver precisando de dias mais tranquilos já sabe o que fazer. Instale um andaime na sala de música e ninguém aparecerá. — Curvou seus lábios em um sorriso brincalhão. Subitamente a sensação de náusea voltou a dominá-la. — Quem sabe eu não te acompanho… Acho que o banco dos desajustados não está suficientemente excluído do resto do mundo. — Levantou-se e o acompanhou até a porta. No corredor, falaram sobre amenidades e em algum momento Quinn decidiu tocar no assunto do baile. — Sabe, os professores podem ser ainda mais fofoqueiros que os estudantes quando querem. Aposto que ainda estão discutindo o baile. Houve um acidente e… — Eu beijei meu melhor amigo e agora estou num abismo de sentimentos. Decidiu mudar o caminho. — Não te vi por lá. Estava fugindo do drama adolescente? — Tentou soar descontraída, mas manteve os olhos no chão. Ao chegarem na porta da sala de música, preparando-se para finalizar o assunto, —Bom, está entregue ao seu templo. Clive, eu… — Começou, apoiada no parapeito. Sustentou o olhar do rapaz, com os próprios olhos faiscantes. Hesitou, como começaria a falar. Então sua visão periférica registrou o piano e teve uma ideia. — Queria te mostrar uma coisa. Você se importa se eu entrar por um minutinho?
As coisas pareciam estar caminhando melhores do que imaginava. Antes, sempre que refletia um possível reencontro com a loira, imaginava que um certo desconforto poderia pairar entre ambos, mas nada se comparou à realidade da primeira conversa. O fingir uma desatenção enquanto tudo o que se queria era exatamente o oposto. Por que sempre era tão difícil lidar com sentimentos? Gostava de pensar de tinha alguma maturidade para lidar com as coisas, que seria capaz de lidar sozinho com suas próprias questões, de maneira objetiva e completamente racional. Mas parecia que essas situações vinham despidas de coincidências, apenas para provar que ele não estava sob o controle, que qualquer sensação de segurança que sentia diante de suas escolhas e atitudes eram-lhe apenas momentaneamente permitidas.
Imaginar tudo isso nos dias que se seguiram, principalmente depois de encontrar a carta em sua sala de aula, o colocou num vórtex de sentimentos conhecidos e estranhos que o fizeram parar para entender como as coisas seriam dali para frente. Vinha o fingimento, e a armação para parecer que tudo estava bem. Sabia que não conseguiria, entretanto. A arte da atuação era talento dela; talvez fosse a pessoa mais habilitada a seguir com com isso. Não ele. Mas algo nesse encontro parecia diferente das outras vezes e ainda não tinha tido tempo hábil para ponderar o que se passava. Racionalmente sabia que o melhor era investir naquela sensação, pois sabia que poderia ser passageira; ou pior, sua recusa poderia gerar um estranhamento que afetaria a relação de ambos de modo definitivo. E, por mais que sua história tivesse acabado, sabia que precisaria lidar com ela todos os dias daquele ano letivo, bem como nas reuniões de professores onde todos os docentes eram obrigados a interagir. Construir um muro, portanto, não lhe parecia uma opção viável e, para ser honesto, não sabia se era seu desejo.
Apesar dos apesares, esses pensamentos viam entremeados a várias risadas e palavras aleatórias que vinham soltando. Quem olhasse de fora, provavelmente não notaria nenhuma tensão e talvez até imaginaria que eram amigos de longa data. Mas era isso o que eles eram, certo? ”Desculpa, mas pra mim faz tanto sentido quando mandar seus alunos saltarem num mar congelante apenas para dar-lhes uma lição. Ainda acho que você estava planejando matar alguém e fingir demência”. Tinha acabado de pegar a mochila e já tinha se posto de pé quando ouviu que teria seus passos acompanhados. Provavelmente a sala que ela iria ficava para o mesmo lado, por que não? Deixou um pequeno sorriso simpático e sem dentes aparecer e assentiu uma vez.
E quando os passos foram iniciados, sabia que ela voltaria a falar-lhe. Caso contrário, ele próprio tomaria a iniciativa. E poderia ter imaginado diversos assuntos a surgir, mas quando a palavra baile fora pronunciada, seu rosto abaixou-se, enquanto sua visão procurou algum ponto inespecífico em que pudesse cravar o olhar. Não tinha certeza, mas poderia apostar que tinha engolido em seco, ainda que a expressão tivesse permanecido inalterada. “Ah, sim, sim. Acho que não estava muito no clima dos dramas adolescentes. E pelo que ouvi dos diretores, realmente o drama chegou a um outro nível.” Falou, sentindo uma grande necessidade em mentir dizendo que tinha sido a única fofoca que ouvira. Mas faltou-lhe força em expressar a mentira. Será que procura uma forma de me contar sobre o que aconteceu? Perguntou-se; sentindo uma súbita necessidade de fugir daquela conversa e fingir ter esquecido de fazer algo importante bem longe daqui. Algumas coisas eram melhores permanecerem secretas, pois verdades poderiam ser piores que o desconhecimento.
E quase agradeceu a Deus, a vida, ao universo, quando chegaram à frente de sua sala e nenhuma palavra a respeito do evento tinha sido falada. Abriu a porta com bastante calma, voltando-se a ela, percebendo que aquele assunto finalmente se findaria. Tinha apreciado aquele momento, mas sentia que precisava ficar só por um momento. Mas para contrariar a expectativa --- sentia-se testado por algum motivo --- percebeu-a já adentrando a sala. “Ah, claro.” Os olhos dela não era mais os mesmos de antes, ele percebia. Estavam dotados de algo misterioso, como se quisesse falar alguma coisa, mas não tivesse coragem. E por alguns instantes não desviou o olhar, sentindo aquele contato distante como fez na primeira vez que conversaram quando chegou à escola. Era como se seu corpo formigasse em antecipação; sequer sentia a língua dentro de sua boca, ou os dedos de suas mãos, que se cravavam com violência na carne de sua palma. “Vai tocar alguma coisa para mim?”