Eu não devo abrir... Eu conheço o som dessa batidas. Os nós dos dedos magros contra a madeira velha da porta. Devia te-la deixado lá, batendo até que os nós desatassem. Mas sempre ajo duas vezes antes de pensar. E enquanto meu cérebro pensava em não abrir a porta, minha mão já alcançara a maçaneta. Maldito cérebro!
Ela entrou sem cerimonias, e foi se instalando na minha poltrona. Sem olá, ou como vai, acendeu um cigarro. Meus cigarros. É até bonito como risca o fósforo, para acender o cigarro preso entre o indicador e o polegar. Essas mãos magras, que parecem incapazes de segurar qualquer coisa me fascinam. Seu poder de agarrar tudo não pode estar nas mãos... É mais provável que esteja nos seus olhos de peixe morto.
Eu me sentei no chão, e pensei se era o melhor angulo para observa-la. Me ocorre a ideia de que talvez não possua ângulos, seja reta, plana. E olhá-la é vê-la por todos os lados. Exceto por dentro. Porque é como se o lado de dentro dela fosse algo como o ar, ou coisa que o valha, e pairasse, mas invisível. É impossível saber algo sobre ela só de olhar, entende? Eu não. Eu fui muito bem classificado como "o tipo de pessoa legível" no nosso primeiro encontro/desencontro. Entrei no ultimo ônibus que rodava em uma noite daquelas em que se tem vontade de não existir, e la estava ela, com suas mãos. Fomos até o ultimo ponto, e voltamos caminhando pelas ruas mais escuras da cidade. Eu sem saber bem pra onde voltava, e ela me seguindo, como um cachorro vira-lata, que a gente da a sobra do lanche, e ele nos segue. Esperando ganhar mais restos é claro. Ela sabia bem que eu era sem rumo. Ela estava naquele ônibus aquela noite, só porque, de alguma forma, sabia que eu estaria ali.
Deu a ultima tragada de olhos fechados, tinha cara de puta quando fazia assim, e eu detestava achar aquilo bonito. Assoprou a fumaça branca como um trem descarrilhado. Apagou, e deixou a guimba no cinzeiro de porcelana que era, na realidade, uma xícara. O cigarro agonizava. Ela mata o cigarro que a mata. Vingativa. Eu não dizia nada. Ela não dizia nada. Por que não dizia nada? Agora seria a hora certa pra alguma frase inapropriada. Mas não dizíamos. Veio se esgueirando. Sentou no chão bem de frente pra mim. Não era dada às sutilezas convencionais. Com sua mão de galhos de árvore do sertão, segurou a minha. Apertou forte... O que é que aquela garota, quase uma criança ainda, fazia dentro do meu apartamento? Entra sem pedir, senta na poltrona, fuma meus cigarros... Como ousa usar essas mãos ossudas, geladas, e lindas? Eu te proíbo de ter essas mãos aqui, moça. Chega assim, sem avisar. Invade tudo. Se espalha, não sobra sequer um canto vazio de você sua... sua metáfora ambulante de mãos adoráveis. Te proíbo de ser isso aqui. Por que não são leves seus passos, mulher? Para que te levem daqui?
E ela com as mãos apertando as minhas. Eu queria mada-la embora, mada-la pra puta que a pariu, ou qualquer lugar mais distante que isso. Mas já tinha entrado mesmo. Era tarde. E não tinha dinheiro pro ônibus. E ela poderia ser atacada na rua. Poderia se perder. Poderia resolver entrar num bar, alguém poderia lhe pagar umas doses de cachaça. Ela beberia até vomitar. Quem seguraria seus cabelos? Quem cantaria Joana Francesa pra ela dormir? Ela poderia ser confundida com uma fugitiva de um hospício e a levariam pra um lugar onde seria lobotomizada. Ela poderia arrumar uma carona com algum caminhoneiro, e fugir. Ou conhecer um mochileiro que a pediria em casamento... E... E... Merda, eu não a mandaria embora de jeito nenhum.