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#obsoleto #robertofreire #premiocamoes #foratemer #raduan #museulasarsegall #arcaico #lavouraarcaica #helenasevero #bibliotecanacional
Onde uma química frívola tenta dissolver e recriar o tempo
Um copo de cólera
(...) um filho só abandona a casa quando toma uma mulher por e esposa e levanta outra casa para nela procriar e com trabalho promover o sustento da família("o amor é a unica razão da vida")(...) e daí passei direto pra fotografia antiga, o pai e a mãe sentados (...) tendo os dois a ninhada numerosa à sua volta(...)e aí me detive nos fundamentos e nas colunas e nas vigas inabaláveis daquela estufa, tínhamos então as pernas curtas, mas debaixo desse teto cada passo nosso era seguro, nos parecendo sempre lúcida a mão maciça que nos conduzia, era sem dúvida gratificante a solidez dessa corrente, as mãos dadas, a mesa austera, a roupa asseada, a palavra medida, as unhas aparadas, tudo tão delimitado, tudo acontecendo num círculo de luz, contraposto com rigor - sem áreas de penumbra - à zona escura dos pecados, sim-sim, não-não, vindo da parte do demônio toda mancha de imprecisão, era pois na infância (na minha), eu não tinha dúvidas, que se localizava o mundo das ideias, acabadas, perfeitas, incontestáveis, e que eu agora - na minha confusão - mal vislumbrava através da lembrança (ainda que viesse inscrito no reverso de todas elas que a "culpa melhora o homem, a culpa é um dos motores do mundo"), ao mesmo tempo em que acreditava, piamente, que as palavras - impregnadas de valores - cada uma trazia, sim, no seu bojo, um pecado original (assim como atras de cada gesto sempre se escondia uma paixão), me ocorrendo que nem a banheira do pacífico teria água bastante pra lavar (e serenar) o vocabulário, e eu ali, no meio da quebradeira, de mãos vazias sem ter onde me apoiar, não tendo ao meu alcance nem mesmo a muleta de uma frase feita (...)
:) :(
O silêncio do desconhecido
“Sou incapaz mesmo, não gosto de “gentes maravilhosas”, não gosto de gente, para abreviar minhas preferências”
Uma carta expondo sentimentos feridos nunca ditos antes não é das idéias mais originais, mas com certeza ninguém a imagina da mesma forma que o escritor de Pindorama, interior de São Paulo, Raduan Nassar. Em seu conto O ventre seco, publicado em 1997 no livro Menina a caminho (mas escrito em 1970, época de repressão política e cultural), Nassar cria um cenário cotidiano para servir como crítica e discussão de algo maior. O alvo aqui é a chamada intelectualidade da época, ou melhor, a “gentes maravilhosas” como o narrador mesmo as classifica. “Não gosto de gente”, ele limita ainda mais suas preferências.
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