Até os instruídos gostam de xenofobia
Eu sei que esse é um blog abandonado em uma rede social meio defasada, mas parece ser o lugar perfeito para eu escrever sobre certas coisas que não saem da minha cabeça, mas que não posso falar em voz alta. Se alguma alma estiver lendo isso em pleno 2025, quando as pessoas só gostam de ler legendas piscantes no Tik-Tok, pois muito bem, boas-vindas.
Acontece que recentemente encontrei uma das pessoas mais bem-sucedidas profissionalmente que já pude conhecer na vida, e embora seja admirável o fato dela ter discursado na ONU e ter viajado pelo mundo em seu digníssimo trabalho, o que mais me lembro é como ela acaba sendo arrogante sem mesmo perceber.
Chega a ser intrigante, de verdade! É o tipo de pessoa supersimpática e “tão galera”, mas que destila uma leve dose de veneno quase imperceptível e que só quem nasceu em um berço aburguesado sabe fazer tão bem. Eu, ali naquela mesa de jantar, sem saber qual das três taças na minha frente eu deveria usar, só fui notar esse PhD em presunção um tempo depois, quando ruminei a situação.
Em dado momento a pessoa em questão soltou aquela velha (velha mesmo) expressão “trabalhar como chinês preso”, o que foi de certa surpresa para alguém que comentou:
— Nossa, você é de Direitos Humanos e diz isso...
Ao que ela respondeu sem titubear:
— Exatamente por isso que eu digo.
Que eu saiba, essa expressão refere-se ao trabalho forçado na China. O que me incomoda nisso é que soa muito xenofóbica e no mínimo hipócrita. Eu me pergunto: por que ela não diz algo como “trabalhar como funcionário da Salton” ou “como trabalhador da fazenda do Leonardo”? Não entendo essa mania de apontar para pessoas ou grupos que lhe parecem inferiores para zombar de problemas que seu próprio meio sofre.
Essa falta de noção começa a fazer sentido quando penso que a dita cuja, embora pague seu aluguel, pouco habita a cidade de São Paulo. Cidade conhecida pelo trabalho escravo de bolivianos, por exemplo. Acho que lá do alto de sua torre de marfim na Chácara Klabin não se enxerga esse tipo de coisa, quero dizer, as condições do próprio país ficam muito distantes. Presumo que também não tenha ficado sabendo da indústria penitenciária dos EUA, quando esteve lá para fazer o mestrado ou sei lá o quê.
A fala dela, no entanto, dá a entender que sua formação acadêmica lhe dá a autoridade de dizer uma expressão xenofóbica como essa. Porque ela estudou fora, conheceu tantas pessoas de tantos lugares do mundo, trabalhou com pobres coitados em países na América Latina, na Índia... Não, na China, não. Mas isso não importa, ela tem um belo currículo.
Eu, que estudei em uma faculdade particular barata de São Paulo e cuja maior conquista acadêmica é um certificado de inglês avançado que nunca utilizei fora do país, fiquei com uma pulga atrás da orelha... Como se aquele comentário sobre o “chinês preso” fosse, na verdade, uma tentativa de me “dar uma cutucada” depois de eu ter conversado sobre estar estudando mandarim. Aquela leve dose de veneno que mencionei em outro parágrafo.
Se isso é fruto do meu complexo de inferioridade ou não, valeu a pena a reflexão.












