[ FLASHBACK: PIZZA PARTY. ]
Era ruim para Marie observar a confusão do outro, porque só provava que ele mentia sobre muitas coisas. Provavelmente sobre a maioria das coisas. Era extremamente frustrante pensar que, meses depois do atentado de Vincent contra a própria vida, ela não havia obtido nenhum progresso aparente. Porque ele ainda se mostrava o mesmo, continuava se destruindo, se machucando. Queria entender, era a coisa que mais desejava conseguir. Entender como uma dor emocional poderia ser tão grande que o único alívio era a dor física. Quando ouviu o pedido sincero de desculpas do garoto, quis ir embora e esconder-se dele durante dias. Porque explodira sem nem ao menos explicar a ele o que estava acontecendo. Porque batera nele sem saber das coisas que ele não conseguia evitar. Estava arrependida, é claro, mas nada daquilo poderia ser desfeito.
Lutou para ouvir a pergunta devastadora que ele lhe fez. Sabia o motivo. Sabia exatamente, mas não sabia colocar em palavras. Não de um jeito em que nenhum dos dois saísse machucado. Desconfiava que não precisaria. Afinal, a forma como ele tocou sua mão com os dedos tremendo entregava tudo. O von Brandt sabia que aquilo, tudo aquilo, era por causa dele. Balançou a cabeça em negação ao ouvi-lo, deixando um riso sem humor escapar. “Por favor, Vincent. Are you even listening to what you’re saying? Acha que eu ainda estaria aqui se eu não quisesse mesmo te ajudar? Porque, convenhamos, você é um porre. E não, não é injusto. Não é injusto porque eu não tô fazendo nada contra a minha vontade. Eu não quero desistir, entende? Porque você é meu amigo. A única dúvida aqui é se eu sou sua amiga. Você diz que sim, mas eu nem te conheço direito. Eu vou no seu apartamento, mas não sei nada sobre você.” Sabia que não era o momento para reclamar sobre aquilo, mas precisava usar todos as cartas que tinha na manga. Era um momento decisivo, ambos sabiam disso. O momento em que Vincent decidiria se aquilo continuaria ou não.
Respirou fundo e, mesmo com a mão machucada, segurou a dele e esperou alguns segundos. “Não minta mais. I’m a tough girl, I can handle everything.” Brincou, um sorriso leve brincando em seus lábios. Seus olhos brilharam com interesse à mínima possibilidade de saber a verdade e Marie fez apenas assentir e segui-lo. Até que parou no meio de um corredor e mudou o caminho, indo para o seu dormitório. “É noite de festa, a enfermaria provavelmente está cheia de bêbados. Eu tenho um kit de emergências no meu quarto e lá também é mais… Huh, privado.” Explicou, fazendo o caminho tão conhecido sem nem ao menos prestar atenção. Ao chegar, logo pegou o kit e sentou-se na cama, esperando que ele fizesse o mesmo. Esperou em silêncio, observando cada parte do corpo dele que pudesse dizer alguma coisa. Sabia que ele contaria a verdade, mas não custava ter artifícios para confirmá-la. “Take your time, ok? But just tell me.”
Era estúpido perguntar o porquê daquilo tudo quando ele já sabia a resposta. Durante todos os meses em que estiveram próximos, Marie viu a mão de Vincent ser queimada por centenas de cigarros. Viu as marcas ficarem cada vez piores e viu ele simplesmente não se importar e mentir sobre a dor que sentia quando o fazia. Ela viu o sorriso falso em seu rosto quando, na verdade, Vincent queria se queimar até ter coragem de chorar. E era por isso que a garota havia queimado a mão, queria saber se realmente não doía. Queria saber até onde as mentiras do von Brandt iam. E, céus, elas iam muito além das queimaduras de cigarro em suas mãos. Elas iam muito além dos sorrisos, dos ‘eu estou bem’, dos dias em que ele dizia que estava ficando melhor. Ele não estava. Se sentia drogado pelos remédios, se sentia uma máquina cujas peças enferrujadas haviam sido trocadas por outras um pouco melhores. Vincent sabia que estava tudo errado, mas, por Deus, não queria enfiá-la na merda de vida que tinha. Não queria arrastá-la para a escuridão onde ele se encontrava.
“Eu não sei.” Respondeu a ela com essa única frase. Não sabia porque ela fazia tanta questão de ser boa com ele. Não sabia se ele merecia toda aquela atenção. Não sabia se, de alguma forma, a obrigava a fazer aquilo. Não sabia se aquilo era justo com ela, mas acreditava que não. “Eu gosto de música pop, por mais incrível que pareça.” Começou, e não esperou que ela entendesse. “Não conheço meu pai e meu padrasto era horrível para mim. Por isso minha mãe acabou o casamento com ele. Ela se importa demais comigo.” Continuou, a voz saindo fraca enquanto ele olhava para o chão. Não tinha coragem suficiente para olhar para ela. “Eu tenho uma irmã mais nova. Ela é linda. Eu não sei como pode ser minha irmã, sinceramente, porque ela é realmente uma boneca com vida.” Uma risada abafada saiu da garganta dele. Então levantou os olhos, olhando para a face de Marie com certo pesar. “Mas saber dessas coisas não importa muito. Não importa porque isso não é me conhecer. Me conhecer é saber o que eu sinto por dentro e, céus, nem eu sei o que eu sinto. Nem eu me conheço, Marie. Desculpa.”
“Não vou mentir. Não vale a pena quando isso te faz sentir tão... Tão assim.” Segurou a mão dela com certo receio, temendo machucá-la. Um sorriso de canto apareceu em seus lábios quando viu que ela sorria. Estava tudo bem. Ele esperava que estivesse, pelo menos. Não disse nada quanto a irem para o dormitória dela. Não seria a primeira vez, de qualquer forma. Já conhecia bem o caminho, então só continuou a segurar o braço da garota com delicadeza enquanto andava ao seu lado. Quando ela pegou o kit, o tirou das mãos dela e se ajoelhou no chão, em frente a ela. Pegou as coisas necessárias para limpar o ferimento e assim o fez, usando de toda calma e leveza que podia para não machucá-la. Continuou a fazer o trabalho em silêncio, pensando em como poderia explicar-lhe o porquê de se queimar com os cigarros.
Quando já tinha limpado e passado pomada na queimadura, começou a enfaixar a mão dela. “E-Eu...” Começou mas parou, respirando fundo, fechou os olhos por uns segundos e quando abriu, já havia terminado de cuidar da queimadura. Por isso, levantou o olhar para olhar nos olhos de Marie, ajeitando a postura para que não ficasse tão abaixo dela. “Quando eu me queimei pela primeira vez, faziam dias que eu não sentia absolutamente nada. Eu não sentia sono, fome, não me importava com os abraços da minha mãe e minha irmã, não me importava com o que diziam sobre mim nas redes sociais. Eu não sentia nada. Mas ai eu pensei que talvez, só talvez, eu sentisse a dor. Por isso, quando eu ‘tava fumando, eu apaguei o cigarro na palma da mão esquerda. E eu senti aquilo. Não foi exatamente bom, mas... Mas eu senti.” Fez uma pausa, esperando que ela digerisse a informação. “Depois de tornou um hábito. E eu tenho medo de não sentir mais nada se eu parar de fazer isso. É horrível não sentir, Marie.” Fechou os olhos novamente, abaixando a cabeça para que ela não visse que lágrimas ameaçavam escorrer por sua face. Quando já tinha tudo sobre controle novamente, voltou a olhar para ela. “Já imaginou como seria se eu não pudesse sentir... Sentir o que eu sinto por você, por exemplo?”