❝ Quem ainda acredita em reis? Você costumava acreditar, afinal, descende e uma longa linha de sangue azul, direto da Inglaterra. A imersão precoce em outras culturas te fez um cara dinâmico, liberal e democrático, e talvez a França fosse o lugar perfeito para alguém assim, porém o país da liberté não admite mais reis, por mais bonito que seja seu rosto e por mais mansa que seja a sua fala. Quando era criança, te disseram que você tinha o dom de conquistar tudo o que quisesse, você poderia capitanear qualquer coisa, ser presidente de todos os clubes, ser reconhecido pela sua lábia e vontade de liderar. Te disseram que você tinha todo o tempo do mundo, você ditava as regras. E isso foi verdade por um tempo, até que ele passou a perna em você. Foi duro descobrir que, na verdade, você não tem todo o tempo do mundo e que nada é eterno. Isso causou o último suspiro de seu primeiro reinado, mas abriu o espaço para você conquistar o seu verdadeiro lugar, com as pessoas que verdadeiramente gostava. Quando o seu segundo reinado ruiu bem à sua frente, demonstrando covardia pela primeira vez, se imergiu no colo do pai. E ainda tem coragem de dar as caras agora, tendo uma nova realeza no poder sendo esfregada diretamente em seu rosto, e não há algo que te irrite mais que isso. Agora você anda pelos becos escuros da cidade da perdição, as pessoas sussurram sobre você, quando costumavam te chamar com olhos sedentos. É uma pena que ninguém te avisou: quanto maior a altura, maior a queda.❞
olha lá o TYLER PATRICK FITZGERALD nos corredores da truffaut! ele é um HOMEM CIS de 19 anos que é originalmente de LONDRES/INGLATERRA. é PAGANTE e se ele parece ser HUMILDE, EXTROVERTIDO, DRAMÁTICO e IMPULSIVO, é porque ele é de CÂNCER. seu codinome é CRONOS e é do time dos TITÃS. por aí dizem que se parece com MASON GOODING
𝐁𝐈𝐎𝐆𝐑𝐀𝐅𝐈𝐀 —
Tyler não nasceu em berço de ouro como o pai, mas sempre viveu confortavelmente. Seu pai, Carter Fitzgerald, é um advogado bastante respeitado em Londres e o mais requerido para assuntos reais, já que seu pai (e avô de Tyler) fez parte da Guarda da Rainha durante grande parte de sua vida. E a mãe de Tyler, Zoë Johnson, vem de uma família de missionários de Curaçao. Durante a infância de Tyler, sempre haviam pessoas morando na casa dele, porque a casa deles serviu de abrigo para os parentes da mãe que vinham para a Inglaterra em missão. Então, por causa disso ele foi emergido em diferentes culturas diferentes muito precocemente, já que era uma família de missionários e todos eles tinham opiniões muito fortes, amavam debater e tinham muitas experiências e perspectivas de vida diferentes das dele. Então, Tyler aprendeu muito cedo que passaria muito tempo no mundo cercado por pessoas que não o levariam muito a sério, e para não pensar muito nisso ele aprendeu a gostar de tentar desvendar as pessoas, e entendê-las. Virou quase um hobby.
Sua mãe adorava viajar e conhecer culturas diferentes, Tyler achava que isso vinha da herança missionária dela. Então, quando Tyler tinha doze anos eles se mudaram para Paris, na França. Não foi difícil para Carter conseguir se adaptar profissionalmente, já que era bastante influente por toda Europa. Tyler foi matriculado na Notre Dame, que segundo seu pai parecia ser a melhor escola para alguém como ele. Carter sempre foi muito egocêntrico e supremacista, mas nem sempre Tyler concordava com ele. Ele sentia que a pressão de seu pai era sufocante, e muitas vezes entrava em atrito com a liberdade até abundante que sua mãe lhe dava. Mas com o tempo e sem esforço algum, acabou conquistando seu próprio grupo de amigos na Notre Dame. Não gostavam dele pela influência de seu pai ou pelo seu avô ter sido da Guarda Real. E sim, porque ele tinha um sorriso caloroso e era humilde. Todos se maravilhavam pelo jeito como Tyler falava educadamente com os adultos e parecia ser gente boa. Como um camaleão, ele conseguia discutir qualquer assunto e entendia de tudo um pouco. Todos gostavam dele e por alguns anos, Tyler gostou de viver assim. Até a queda da Notre Dame.
𝐇𝐄𝐀𝐃𝐂𝐀𝐍𝐎𝐍𝐒 𝐃𝐀 𝐏𝐑𝐈𝐌𝐄𝐈𝐑𝐀 𝐓𝐄𝐌𝐏𝐎𝐑𝐀𝐃𝐀 —
Foi difícil se adaptar à Truffaut, se é que ele se adaptou. No início além de tentar manter seus amigos unidos, tentou também encontrar seu lugar na nova escola. Porém, parecia que em todo lugar que ia era Zeus quem reinava e não ele, nunca ele. A pior coisa era que os dois eram parecidos demais, queriam as mesmas coisas e por isso chegavam a dar atrito.
Quando ficou sabendo da Festa da Passagem que era um ritual para os terceiranistas, e eles, os titãs, não tinham sido convidados foi a gota d'água. Tyler não ficava irritado facilmente, mas os deuses e principalmente Zeus conseguiu tal feito. Ele queria ir naquela festa para mostrar aos seus amigos que era um líder de verdade, e também para mostrar aos deuses que era direito deles também.
Alguma coisa dentro dele dizia que subir no penhasco não era a melhor ideia, mas ele silenciou aquela vozinha. A voz da razão. Ele estava bêbado e fora de si quando travou uma briga com Zeus, nem ao menos viu quando acabou machucando Hefesto. Naquele momento no penhasco, Tyler deixou sair toda a raiva que vinha sentindo por meses e as consequências foram catastróficas.
Os dias depois da morte de Deméter passaram devagar e Tyler ficou apreensivo. Ele foi buscar apoio no colo do pai mas tudo o que o patriarca fez foi dizer o quão irresponsável o filho tinha sido e o quanto estava decepcionado. E isso aumentou a culpa que Tyler sentia; por ter empurrado Hefesto e ter talvez exagerado demais na bebida. Mas isso era algo que nunca admitiria em voz alta. Na sua cabeça era culpa deles também. Além disso também tinha o término com Réia que o tinha deixado literalmente sem chão, pela primeira vez na vida ele não sabia o que fazer. Quando foi chamado na delegacia para dar mais um depoimento, Tyler nem precisou pensar antes de mentir para proteger seus amigos. Já tinha perdido Réia e não tinha um lugar na Truffaut, não ia perder eles também.
Tyler ficou alarmado em relação a esse anônimo, porém não se sentia seguro o suficiente para contar ao pai tudo o que tinha acontecido no penhasco. E se algum segredo seu fosse revelado, era provável que seu pai o mandasse para um internato, e mais do que tudo ele não podia deixar seus amigos na mão. Então, foi nesses dois motivos que ele pensou ao ceder às chantagens de -E.
Tyler sempre foi muito incerto quanto ao seu futuro, por isso durante a feira de profissões estava uma pilha de nervos. Seu sonho era fazer algo que realmente fizesse a diferença na sua vida e na vida das outras pessoas, e viajar. Como ele ama viajar! Porém, toda a pressão de seu pai o impossibilita de realmente seguir qualquer coisa que não seja relacionado a direito. Ele não se inscreveu em nenhuma Universidade, mas sabe que seu tempo está acabando e que deve decidir se quer contrariar o seu pai ou ser infeliz pelo resto de sua vida.
Os acontecimentos dos primeiros dias de dezembro foram uma surpresa para dizer o mínimo. Tyler não acreditou quando viu Deméter de novo nos corredores da Truffaut, aquilo parecia cena de alguma série policial francesa. Sabia que tinha algo de errado naquela volta repentina e de repente a volta da menina não trouxe explicações e sim, mais perguntas. Apesar da curiosidade tudo o que Tyler quer é paz depois desses meses turbulentos. E finalmente decidir qual é a escolha certa que vai definir o resto de sua vida.
(📲 para fahinha 💛) áudio: eu sei que você ama áudios grandes, [risada] but hear me out. estava eu aqui fazendo [pausa] bem, nada produtivo, quando lembrei que a gente nunca conversou mesmo sobre tudo o que tá rolando ultimamente. e sei lá, fahe, nesse exato momento eu sinto que alguém vai me dar outra facada nas costas. não literalmente, mas você entendeu. o que eu quero dizer, é, eu queria saber se você sabia do nik e da maddy. claro que você me diria se soubesse, né? ou não... [pausa] [suspiro] esse áudio tá ficando gigante, mas era só isso. estava me perguntando e sem julgamentos dessa vez, eu juro.
(📲 para fahinha 💛): pfvr escuta o áudio todo
(📲 para fahinha 💛): é importante pra minha saúde mental
Depois de do fiasco que tinha sido a conversa no grupo dos amigos e de sentir que só dava bola fora, seja o que falasse, Tyler saiu do apartamento. Ele não pegou o carro, apenas resolveu andar sem rumo, ou assim ele pensou. Porque quando percebeu já estava na rua do Semiramis, o apartamento em que boa parte dos seus melhores amigos moravam. Estava com os headphones ouvindo Moonlight Sonata de Beethoven no último volume quando percebeu em que rua estava. Quase esbarrou em alguém quando estava virando a esquina, mas se desviou bem a tempo. “Desculpa.” Falou depois de ter tirando o headphone do ouvido. E foi quando percebeu quem era a pessoa. Jeanne. “Ah, oi, Anne.” Disse coçando a nuca brevemente em um misto de vergonha e culpa por estar na rua da casa dela. “Você vem sempre aqui?”
Sentiu o coração despedaçar assim que escutou o que ele falava, até mesmo os batimentos cardíacos, antes acelerados, pareciam morrer dentro do seu peito. Sabia que as coisas entre eles jamais voltariam a ser como tinham sido. O término, que foi grande parte por sua culpa, já que fora ela que tinha proferido as palavras, tinha sido um momento que tinha parecido decisivo no relacionamento que tiveram durante todo aquele tempo. Uma parte de si ansiava para que voltassem um para o outro em algum momento, como frequentemente faziam. Na época, estava tão confusa, cheia de sentimentos que não eram bem-vindos, acreditando que o melhor para evitar que qualquer um dos dois se machucasse era terminar. Tinha feito o seu máximo para que não visse a dor nos olhos de Fitz que via atualmente e essa era a pior parte. Quando estava perto dele, a reputação, assim como os problemas de sua vida no geral, pareciam minúsculos dada a tristeza que sentia. “Eu sei que não tenho como voltar atrás com as coisas que eu fiz. O que eu mais queria era mudar as coisas para nós, mas sei que não posso. Só queria saber que… Sinto muito.” As palavras foram ditas em uma voz quase inaudível, os olhos focando-se na linha do horizonte. Era uma covarde em não ter coragem de olhar no rosto do ex-namorado, mas temia que, se fizesse, não teria mais controle do seu corpo. Tudo que ansiava era passar os dedos pelos fios escuros do cabelo alheio, assim como puxá-lo para um abraço até que toda a angústia do coração de ambos fosse dissolvida; no entanto, tinha consciência que, se estavam tendo aquela conversa, era culpa exclusivamente de Madelinne.
“Você pensa que terminei por conta de Nikólaos?” O choque envolveu a Binoche-Orman, que não deixou de transparecer em seu tom de voz. Era um pensamento tolo, mas sabia o porquê da ideia ter aparecido nos pensamentos alheios. “Ele não foi nada mais que um amigo. Nunca foi nada mais que isso, se posso ser sincera.” E estava sendo sincera quando disse. Mesmo quando trocavam beijos anos atrás, enxergava Nik como um amigo colorido, no máximo. Jamais teve qualquer sentimento afetivo ou romântico pelo outro, muitas vezes questionava-se se alguma vez teria algo assim. Isso até conhecer Fitz, que acabou expondo um lado que até mesmo Maddy não sabia que existia. “Naquela época, terminei porque estava confusa. Eu tinha dúvidas a respeito de quem eu era e de quem estava me tornando. Não queria arrastá-lo para o furacão por capricho meu. Não suportaria a ideia de te machucar.” O que acabou acontecendo independente das suas intenções, tornando a situação ainda pior para Madelinne. Não suportava olhar para os olhos do garoto, as mãos cerradas segurando o tecido sobre as pernas. Deveria permanecer assim para que não fizesse nenhuma besteira, principalmente quando havia tanto em jogo. “Nunca amei ele, não com a intensidade que eu te amo, hayalim*.” A confissão saiu dos lábios da jovem de traços asiáticos antes que pudesse contê-las. As bochechas coraram-se assim que percebeu o erro que cometera, sendo injusto de sua parte colocá-lo naquela posição, principalmente quando estava tão sensível. “Amei.” Tentou corrigir, mesmo tendo noção que o estrago das últimas palavras talvez já estivesse sido feito. Mesmo que não fosse verdade a correção, acreditava que era o mais apropriado a ser feito. Não deveria colocar o ex-namorado em uma situação que a perdoasse facilmente pelos erros que cometera. Aquilo não era justo para o outro.
Desviou o olhar da ex-namorada mesmo antes de ela terminar de falar. Tyler odiava que ela nem conseguia olhá-lo nos olhos para dizer tudo aquilo. Ouvir o “sinto muito” da boca de Madelinne olhando para o mar, só conseguia fazer a dor que estava sentindo por ser corno ser ainda mais insuportável. O problema não era as pessoas falarem, nem por ainda sentir algo por Maddy. Porque não sentia, pelo menos não romanticamente. O problema e o que mais doía era que ela e Nik ficaram durante o namoro dele com Madelinne, e guardaram esse segredo por todo esse tempo. O fato dos dois agirem esses meses todos como se não tivessem feito nada acabava com Tyler. E provavelmente nunca o teriam contado se o E não tivesse exposto o vídeo da cápsula.
“Ah, por favor, Maddy!” O choque na voz dela o fez se levantar. Tyler estava inquieto, naquele momento se arrependeu de não ter saído dali assim que Maddy chegou. Ele observava o rosto da ex-namorada tentando buscar qualquer sinal de honestidade, mas não conseguia. Naquele momento, Tyler não sabia diferenciar o que era verdade do que não era. Afinal, se ela e Nik tinham omitido por tanto tempo a traição, como ele podia acreditar no que ela estava dizendo a verdade agora? “Não precisa mais fingir que não rolou nada entre vocês dois, o Nik disse o que houve. Pelo amor de Deus, para o eu idoso dele!” Suspirou. “Pode não ter sido nada para você, mas certamente foi algo para ele.” Balançou a cabeça, a verdade era que Tyler queria esquecer daquele vídeo. Esquecer as palavras que Nikólaos tinha dito. A traição dele conseguia ser mais dolorosa que a de Madelinne, e Tyler nem sabia explicar porquê. Não suportaria a ideia de te machucar, ouvir aquilo sair da boca de Maddy quase fez com que começasse a chorar. Tyler se virou para o mar e tentou respirar fundo. Tudo o que ele queria naquele momento era ficar sozinho. Ele sabia porque Maddy tinha terminado o relacionamento dos dois, ela lhe contou algum tempo depois. E Tyler lembra na época de ter entendido e ter sido quando realmente voltaram a ser amigos depois de tudo. Olhou de volta para a ex-namorada assim que a ouviu chamá-lo pelo apelido carinhoso. Ficou olhando para ela por um momento, mas Madelinne não o encarou de volta. “Só... Vai embora, tá legal? Eu acho que você já falou demais.”
29 DE JANEIRO DE 2021, TURNO DAS AULAS DA TARDE @ ARMÁRIO DO FITZY w/ @fitzgerald3
Wolfgang estava perfeitamente acostumado a ser o encrenqueiro do seu grupo de amigos. Entre sua impulsividade e gênio forte em momentos chave, o austríaco sabia que não era o melhor em diplomacia; e tudo bem, porque nunca foi sua intenção ser. Conforme o tempo na Truffaut decorreu, somando os remédios à equação e sua retração diante do luto pela suposta morte de Eloise, houve uma mudança drástica no quadro; Wolf não se metia em tanta confusão como antes, ao passo que os amigos pareciam cada vez mais afundados em problemas. O anônimo, então, terminou por selar o caixão de muitos ali. Era custoso para o austríaco entender o que estava acontecendo entre Maddy, Nik, Anne e Fitzy e tudo o que se seguiu depois dos vídeos vazados pelo E. Ao mesmo tempo que tentava consola-los, procurava também compreender com mais clareza o que estava acontecendo. Depois da revelação sobre a gravidez de Madelinne, Wolf resolveu ir atrás do amigo e ex namorado da garota. Não respondia as suas mensagens e parecia sumido da face da terra, então o Mateschitz recorreu à esperá-lo na frente de seu armário. Quando viu o outro, vários centímetros mais alto, chegando, comentou: ❝ — Você não responde as mensagens, não atende ligações, não escreve, não manda sinal de fumaça. Precisei vir ver com meus próprios olhos que você não foi raptado.❞
Quando viu Wolf parado na frente do seu armário, sentiu um alívio. Já faziam alguns dias que Tyler queria conversar com o amigo. Sua cabeça tinha estado um pouco aérea durante os últimos dias, e ele resolveu focar nos estudos e no violino do que em interação humana. O que era algo bem diferente e nada comum em se tratando do inglês. “O que foi, tá montando guarda, Wolf?” Tentou começar bem humorado para mostrar para o amigo que eles estavam de boa apesar de tudo que tem acontecido nos últimos dias. Soltou uma risada depois de ouvir o exagero que o Mateschitz tinha colocado nas palavras. “E você acha que alguém conseguiria me raptar?” Ergueu as sobrancelhas em tom inquisitório. Mas aquela era uma pergunta retórica, o Fitzgerald só estava tentando adiar o assunto principal. Cujo era a razão pela qual estava evitando conversar com quase todo mundo nos últimos dias. “Os últimos dias tem sido embaçados para dizer o mínimo.” Suspirou. “Você sabe sobre os vídeos e agora esse lance com a Maddy… Só tá acontecendo desgraça, Wolfgang!” Falou o nome inteiro do amigo para enfatizar e encostou de lado no armário de frente para ele. “Para ser honesto não sei mais o que fazer quanto a tudo isso.” Admitiu gesticulando vagamente. Doía lembrar que Frances era quem mais o aconselhava dentro do grupo, e agora os dois estavam pisando em ovos há meses. Ele sentia falta de como eles eram quando chegaram na Truffaut, unidos. Mas parecia que os últimos acontecimentos eram o início do fim.
“Ficou traumatizado com a vovó Josephine?” provocou, antes de puxá-lo pelo braço para dentro da casa. Vários sinos coloridos tocavam no batente da porte, similares aos que Hypatie tinha no próprio quarto. Aliás, toda a decoração a fazia se sentir um pouco em casa, se não fosse pelo chão de madeira velha rangendo sob os pés dos dois e a luz filtrada por vidros coloridos na janela. Certo, a casa era um bocado mais assustadora e mística do que o quarto da garota. “Madame Sabine?” ela chamou. As paredes responderam com um eco. O silêncio se seguiu até que um gato cinza assustado anunciasse a chegada da vidente. “O que temos aqui? Um casal procurando saber do futuro?” Era uma mulher da estatura de Hypatie, porém bem mais idade, cabelos cor de fogo desbotados e um robe escuro. Não enxergava bem mesmo com os óculos meia lua, aproximou-se dos clientes. Ela pareceu ter descoberto a resposta mesmo antes dos dois balançarem a cabeça. “Não, somos… amigos. A Quell Agreste te recomendou, disse que a senhora tem contato com realidades alternativas, achei interessante” explicou. “Sim, ela está certa. E o rapaz? O que quer saber?”
Antes mesmo que pudesse raciocinar sobre a pergunta de Marie Hypatie, Tyler foi puxado para dentro da casa pela loira. Assim que entrou sentiu quase tudo o que sentia no apartamento antigo da sua tia avó Josephine, os calafrios, a sensação de que não devia estar lá e que tivessem espíritos à espreita. O Fitzgerald nunca foi muito supersticioso ou de acreditar em fantasmas, bem... Não era antes de morar no apartamento de sua falecida tia avó. Passou a mão direita no braço esquerdo tentando se livrar do olhar da idosa baixinha que se aproximou dos dois, no entanto deu um passo à frente de Hypatie caso a mulher tentasse qualquer coisa. Ela era certamente estranha e peculiar. Pigarreou antes de dizer qualquer coisa, Tyler queria ter certeza de que sua voz não iria falhar. “Eu, érr... não quero saber nada não, madame. Só vim acompanhar a minha amiga mesmo. Sem querer ser desrespeitoso nem nada disso, eu não acredito em tudo isso.” Gesticulou vagamente aos arredores deles. “Se vocês pudessem andar logo com isso, eu agradeceria.” Falou dando um breve cutucão com o cotovelo no braço da amiga.
A um mês de seu aniversário de dezenove anos, Hypatie arrastava Fitzy para uma portinha cor de malva em uma casa que parecia ter sido abandonada. Desta vez, no entanto, não planejava gravar um documentário com ele. “Ok, quebra de suspense. Vamos ver uma vidente aqui” revelou, mostrando mais animação do que costumava fazer quando estava com ele. Em seu auge de ansiedade com o futuro acadêmico, havia pedido uma recomendação de sensitiva à Quell Agreste do segundo ano, porém tinha certo receio em frequentar aquele tipo de lugar sozinha. Por isso, Fitzy. “Me falaram que ela é muito boa, faz leitura de tarô, mãos, borra de café e também consegue ver vidas passadas e de realidades alternativas!” Embora tivesse algumas crenças do lado espiritual, Hypatie não tinha certeza se levava a sério as habilidades da vidente. Ainda assim, sentia curiosidade a respeito das previsões, talvez a ajudariam de alguma forma. “Agora é tarde demais para você fugir, Harrison III.” Ela apoiou a mão na maçaneta e abriu a porta.
Se fosse um dia normal, Harrison III definitivamente não teria aceitado ir a algum lugar aleatório com Marie Hypatie. Eles não eram amigos, mas também não se odiavam. Era um meio termo que o inglês não sabia bem como nomear. Ele só tinha aceitado acompanhar a loira em sabe-se lá aonde porque os últimos dias tinham sido horríveis para dizer o mínimo. E respirar novos ares talvez o fosse ajudar a se distrair. "É sério?" Perguntou, seu lado cético falando mais alto. Apesar de já ter tido experiências com o sobrenatural, tentava fingir que tais acontecimentos tinham sido seu cérebro lhe pregando peças. "Parece mais uma casa mal assombrada." Enquanto Patie demonstrava mais animação que o normal, Fitzy estava indiferente. Quando a loira terminou a próxima frase uma parte do inglês se animou um pouquinho. "Tarô, você disse?" Falou mas a loira já estava com a mão na maçaneta e abriu a porta. "Você não vai tocar a campainha?" Perguntou mas Hypatie não estava mais no lado externo junto dele, tinha o deixado falando sozinho. Fitzy bufou enquanto seguia porta adentro.
“Estava te procurando.” Pronunciou-se conforme aproximava-se do garoto, um sorriso fraco nos lábios de Madelinne. Estivera procurando-o na escola, pensando o que deveria falar quando o visse, se deveria desculpar-se, agarrando-se na probabilidade que um dia a perdoasse pelo que tinha feito. Por outro lado, qualquer pedido de perdão seria confessar que tudo era o que parecia ser, o que não era verdade. Vê-lo ali, perto do Musée de La Mer, olhando o mar que chocava-se contra as rochas embaixo deles, trazia uma certa nostalgia do que um dia foram. O casal perfeito, que apoiava-se em tudo o que faziam, com uma felicidade interrupta que parecia envolvê-los. Lembrava-se da paixão que a envolvia toda vez que o via, como se jamais houvesse algum problema que não conseguissem resolver. Então houve Vivi e, principalmente, Eloise, o que tirou-a completamente da sua zona confortável e segura. Aproximou-se em passos lentos, hesitante se deveria fazer aquilo. Queria que Fitz visse a verdade em seus olhos, como não mentia quando falava o que acreditava que deveria ser dito. Mesmo que não houvesse uma traição, tinha consciência que tinha sido uma grande filha da puta. Não tinha julgado tanto Ross para que no final não confessasse que tivera uma culpa em tudo aquilo, fingindo uma inocência que não existia. O que tinha acontecido entre ela e Nik naquela época havia ficado no passado de ambos, não restando qualquer sentimento ou anseio. Sentou-se ao lado do jovem, o olhar fixo no horizonte, permanecendo em silêncio por alguns segundos. O coração estava batendo acelerado contra o peito, tentando recuperar-se do desespero que tinha sofrido nos corredores eternos, os olhares julgadores em uma constante reprovação. No final, a única opinião que realmente estava preocupada sobre era do ex-namorado, não querendo confessar os motivos por trás disso. Antes que perdesse a coragem que tinha adquirido, virou o rosto para o outro, tentando quebrar o silêncio que tinha estabelecido entre eles. “Sabia que acabaria encontrando você por aqui.”
Fitzy continuou olhando para o mar mesmo após ouvir a voz familiar de Madelinne. Ele tinha ido até ali para se distanciar do alvoroço que tinha sido aquela exposição, bem na frente de todo mundo. O mar também o lembrava da sensação que era estar na casa de veraneio da família, então o ajudava a pensar e esperava colocar seus pensamentos em ordem. Entretanto, também o lembrava de Maddy... Antes de Nikólaos sair correndo da mesa onde se encontravam com todos os seus amigos, o inglês tinha a mais absoluta certeza de que aqueles vídeos eram uma armação de -E. Afinal, aquele maldito chantagista queria ver eles com os nervos à flor da pele, e Harrison Fitzgerald III jurou a si mesmo que não deixaria aquilo lhe afetar. Porém, depois de mandar mensagem para o melhor amigo e não obter nenhum retorno, resolveu dar um jeito naquilo sozinho. No momento em que reassistiu seu vídeo da capsula foi quando teve certeza de que o vídeo de Nik não tinha sido manipulado. E aquilo... Aquela percepção foi como receber uma facada nas costas. Foi a sensação de ser traído por alguém que amava outra vez.
Enquanto as ondas quebravam nas rochas, Fitzy pensava em todas as formas que aquilo poderia ter acontecido e o fato de que seu melhor amigo nem a sua namorada na época, terem tido um peso na consciência e lhe revelado o que tinham feito. Ele se sentia como um palhaço. E devia ser assim que todos na escola o veriam agora. "Sabe por que eu amo tanto vir para cá? Principalmente na época que a gente brigava." Não foi uma pergunta, mas mesmo assim ele olhou brevemente para a ex-namorada antes de voltar seu olhar para o mar. Sentia que se olhasse Maddy nos olhos começaria a chorar, o menino dentro de si pelo menos. E ele odiava isso. "Porque as ondas sempre voltam para o mar assim que batem nas rochas. É como a água ama. E é…" Pigarreou quando sentiu sua voz ficar rouca. "Eu sei que já tem um tempo que a gente terminou, mas... É como eu via a gente, Maddy. Sempre voltávamos um para o outro. Como as ondas voltam para o mar." Soltou uma breve risada para disfarçar a tristeza que ameaçava o entregar. "Eu só não entendo como… Foi por isso que terminou comigo?" Se virou para a ex-namorada ao perguntar. Ele sabia porque eles tinham terminado, mas aquele vídeo... Deixou uma dúvida latente na sua cabeça. "Por causa do Nik?"
- onde: entrada da Truffaut
- quando: quinta-feira, 28 de janeiro de 2021
- quem: Nikólaos & @gngstarters
Pisar novamente na Truffaut depois dos acontecimentos da última semana era estranho. Nikólaos não havia tido muito contato com seus amigos desde então, sendo limitado a somente algumas mensagens de texto e sem oportunidade de conversar sobre tudo o que acontecia. Naquela altura, Nik sabia que todos os vídeos da cápsula do tempo tinham sido revelados, então era de se esperar que as coisas estivessem tão esquisitas, principalmente entre os colegas de classe. Sim, era óbvio que o grego estava apreensivo sobre como estaria sua relação com seus amigos, o que eles pensariam sobre tudo aquilo. Mas ele estava disposto a conversar sobre aquilo, tentar ajeitar ao coisas após o seu sumiço. Ao adentrar a instituição, finalmente viu um rosto conhecido e tentou agir naturalmente ao aproximar-se “ As coisas parecem estar bem calmas por aqui, cadê todo mundo?”
Ao contrário de vários colegas, Fitzy não faltou um dia sequer de aula. Apesar de no fim de semana ter ido até a Inglaterra ficar com a sua família, voltou no domingo à noite. Seria algo inadmissível para Harrison II que o filho deixasse de realizar seus deveres acadêmicos por estar “chateado”, como ele mesmo colocou. Ele voltou com a expectativa de que veria seu melhor amigo, porém isso não aconteceu até o presente momento, três dias depois. Pensou que até dado momento já estaria se sentindo calmo e menos agitado, mas não foi isso que aconteceu. Só de ver Nikólaos tentando agir como se nada tivesse mudado entre eles já era demais. “Nem tudo.” Respondeu prontamente. “Alguns professores foram substituídos, a maioria dos alunos do nosso ano faltaram esses dias e...” Respirou fundo, odiava o fato que começava a tagarelar quando estava nervoso. Não daria a Nik o que ele provavelmente veio buscar, evitar os vídeos da cápsula. “Quer saber? Esquece. Nem sei porque estou te contando isso, não somos mais amigos.”
“Hello?” Acenou com a mão para a luz vermelha da filmadora que estava piscando. Tinha comprado uma filmadora especialmente para esse momento. O professor tinha dito que podia ser o celular, mas Fitzy queria fazer aquilo direito. Afinal, era algo que poderia mostrar para seus filhos e netos dali há 50 anos. “Harrison ou, uh… Fitzy do futuro. Ou seja lá como você se chame agora, espero que esteja feliz. É. E…” Passou a bola de futebol de uma mão para a outra. “Eu não sei porque estou obviamente nervoso, mas é que… isso é estranho. É. Eu estou olhando para uma filmadora e gravando um vídeo que provavelmente só eu vou assistir.” Riu consigo mesmo do seu nervosismo. Olhou ao redor para o seu quarto.
“Não sei se você se lembra, mas o papel de parede do seu quarto de quando você era um junior era… Bem, o mapa-múndi. Porque você amava o planeta Terra e é muito bom em geografia. Mas, é… O seu pai nunca o deixaria se formar em sei lá, geografia ou turismo. Ele não deixou, certo?” Suspirou pensando no pai. Desde sempre sempre tiveram uma relação no mínimo conturbada. “Você continua sendo modelo? Essa seria uma profissão que nos permitiria viajar pelo mundo. Seria o meu sonho! E… isso não é meme.” Falou fazendo um gesto para a filmadora como se estivesse falando com alguém de verdade. “Bem, independente se você seguiu sua intuição ou os desejos do papai… Espero que ainda continue cuidando das nossas irmãzinhas porque elas são… Se isso é daqui 50 anos, então…” Fez as contas nos dedos apesar de não precisar tanto. Seus olhos começaram a lacrimejar com o pensamento repentino que teve. “A mamãe provavelmente já vai ter morrido, ou bem perto disso.” Engoliu em seco. “É bom mesmo que você tenha tratado ela bem durante todos esses anos, senão Deus sabe o quanto nós nos odiaríamos pelo resto de nossas vidas.” Limpou as lágrimas que escorreram pelas suas bochechas antes de continuar. “Eu sei que é impossível de saber, mas juro que queria saber se nós ainda estamos apaixonados pela Maddy. Você sabe o quanto ela foi e ainda é importante para nós, e eu sinceramente não sei se consigo imaginar minha vida sem ela. Lembra daquela vez que roubamos várias margaridas de um jardim apenas para dar para Maddy? Nós não conseguimos porque o dono do jardim quase nos deu um tiro de espingarda. E bem, eu preferi salvar a minha vida do que salvar aquele buquê.” Sorriu se lembrando do acontecido. Mais tarde quando contou para os amigos e Maddy, ninguém acreditou nele. Porém, semanas depois podia se ver vários cartazes pregados no bairro sobre um adolescente que roubava flores. “Espero que ainda se lembre disso. E se não se lembrar, é algo para contar para seus amigos e Maddy, e rir se lembrando dos velhos tempos. E por favor não seja um velho chato e ranzinza!” Suspirou como se as palavras que tivesse acabado de proferir tornassem aquilo verdade. Como um encantamento. “E esse é o objeto que eu vou deixar.” Levantou a bola de futebol rente à sua cabeça e a abaixou de novo. “Ela simboliza nossa primeira traição, a primeira vez que decepcionamos a mamãe e… a razão pela qual você tem medo que ninguém seja confiável. É uma merda, mate!” Passou a mão no cabelo obviamente querendo terminar aquilo logo. Fitzy odiava se lembrar daquilo. “Caso você não lembre, bem… Você tinha um melhor amigo e ele acabou te traindo falsificando seu exame de antidoping.” Ergueu as sobrancelhas. “Pois é, loucura, né? Essa bola simboliza isso. Porque eu finalmente quero deixar esse evento para trás. Eu tenho amigos agora, que sei que são verdadeiros e… Como a mamãe sempre diz: não faz bem ficar remoendo o passado. O que passou, passou. Falou, coroa. Aqui é o Fitzy e espero que você tenha tido uma ótima vida.” Se levantou e caminhou para desligar a câmera dando fim àquilo.