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@umaovelhacolorida
Insuportável. Olhar chega a ser insuportável. Mas depois, quando se suporta o primeiro estado de efervescência, sente-se uma calmaria que preenche, ela te preenche até que não sinta mais seus órgãos por dentro, pois tudo que existe é a sensação de se encher. Mas então volto a me perceber, ela me faz ter cada parte de mim respondendo ao que ela é. Respondo aos seus pés em movimento pendular, respondo ao seu sorriso vivo, que se entende por um minuto com as páginas que ela envolve entre os dedos. Respondo às suas expressões com o rosto, e ao seu balançar de cabeça. E de repente, ela me faz responder aos seus olhos. Calmaria não há mais. Volto ao ponto inicial, sinto que novamente estou frente a algo insuportavelmente belo. O desespero passa, se eu fito por mais alguns instantes. Não me acostumo com a potência da beleza, mas abro espaço ao contentamento e então, sem lutar, aceito que exista, que bom que existe.
Mas de onde vem? E como chega até mim? Por qual meio? Qual a forma? Acredito que cada toque é uma busca. Uma busca ao que me provoca. Busco na sua pele, busco entre os cantos, busco com todos os meus sentidos e por todos os lados. Quero o mais sensível de mim tocando a parte mais sensível que há nela. Quero que nos sintamos com propriedade. E assim provamos nossos movimentos. Entro no seu calor, torturo meus instintos.
Voltando a minha consciência, fico incrédula! Como fui capaz de tocar a essa totalidade? Como pude sentir com meu corpo toda essa existência? Como foi possível? Ela existiu em mim. Ela compartilhou com o meu ser, a essência do seu. E tudo que me parecia insuportável, por um instante, estava derramado em mim, envolto. E, incrivelmente, também respondendo a mim, com suas próprias respostas. Era uma conversa, uma comunicação que gritava em silêncio.
Estou completamente esgotada, escrever é suplício, não prazer, mas dor. Um grito em uma cabeça que explode. Quero me derramar, mas longe de toda e qualquer pessoa que me alcance. Longe o suficiente para que não me tirem da poça do meu ser. Me deixe lá. Me deixe pois quero estar. Estou cansada de não existir. Cansada de estar cansada. Não suporto o presente, e o futuro ri do meu rosto. Não adianta dar o melhor de mim se o melhor que sou vai embora de mim mesma no processo. Processo, processo, processo. Onde está a próxima ata? Para onde vai o que resta de mim no final? Está perdido em que folha? Em que sonho? Não quero ser boa em nada, quero ser razoável, quero ser dispensável. Estou farta. Me deixem só. Não me resta tempo para ser. Não me resta. Eu não me resto...
“O seu amor Ame-oe deixe-o livre para amar O seu amor ame-o e deixe-o ir aonde quiser O seu amor ame-o e deixe-o brincar ame-o e deixe-o correr ame-o e deixe-o cansar ame-o e deixe-o dormir em paz. O seu amor ame-o e deixe-o ser o que ele é.”
— – Ame e dê vexame . Roberto Freire.
Tenho medo de ficar cansada Tão cansada De não pensar mais E parar de escrever Parar de olhar Parar de
Claras
Pelo amor livre
Eu prometo não te prometer nada, nem não te trair nunca, nem não te deixar jamais. Estou aqui, te sinto agora. Sem máscaras, nem artifícios. E enquanto for bom para os dois que o outro fique. Nada a te oferecer senão eu mesmo. Nada a te pedir senão que sejas quem tu és. A verdade é o que de melhor temos para compartilhar.
Tuas coisas continuam tuas e as minhas, minhas. Não nos mudaremos na loucura de tornar eterno esse breve instante que passa. Se crescemos juntos, ainda que em direções opostas, saberemos nos amar pelo que somos, sem medo ou vergonha de nos mostrar um ao outro por inteiro. Não te prendo e não quero que me prendas. Nenhuma corrente pode deter o curso da vida. Nenhuma promessa pode substituir o amor.
Quero que sejas livre como eu próprio quero ser. Companheiros de uma viagem que está começando casa vez que nos encontramos novamente.
- Na terra dos budas
Eu sinto falta de mim, mais do que sinto das coisas que vivi.
Tudo que vivi é eterno, mas meu eu é inconstante e mutável.
Quem eu sou quando olho na parede do meu quarto não conhece quem eu fui minutos antes no espelho do banheiro.
Eu me perco entre quem fui e quem deveria ser. E não sei onde estou, talvez em um espaço entre eles.
Disse que a rua tem olhos
Olhos que escutam demais
Olhos que julgam calados
Olhos vazios, vidrados
Que afastam meu toque do seu
Disse que prendem teus dedos
Que gritam alto dos prédios
Invocam livros sagrados
E dizem saber que é errado
O nós que a gente criou
Disse que a rua tem olhos
Mas a Minha rua não tem
Minha rua eu mandei ladrilhar
E a todos que andam eu grito
Respeito!
O amor vai passar
Se a rua tem olhos, que olhem!
Que sintam, e digam, é lindo!
É lindo amor,
O amor.
Todo amor
É sempre lindo.
Mas se a rua olha,
Não solta.
Aperta
Segura minha mao.
Segura.
A rua
É sua.
Ladrilha com seu coração.
(Malu Alves)
Toda vida me prendi
Às finas arestas
Dos meus polígonos
Nunca fui de abrir mão
Nunca pude solta-los
Entortei nossas retas
Até que se cruzassem
Perpendiculadas
E no lugar de intersecções
Amarrei nós apertados
Fiz de você mais que podia
Fiz de você minha dimensão
Furei nossos intestinos
Com segmentos cortados
Em pedaços que já não eram
Em sonhos já desbotados
(-Malu Alves)
às vezes me sinto inútil, mas lembro que exalo o dióxido de carbono de que as plantas precisam.