Essa é a nossa história.
A Ruptura de Umbral
Ninguém escolheu viver em Umbral, era como se a vila escolhesse seus moradores. Isolada do mundo, envolta por uma floresta antiga e coberta por névoa densa, Umbral sempre foi um refúgio para aqueles que não pertencem a lugar algum. Um reduto para o diferente, o esquecido, o monstruoso.
Ali, criaturas sobrenaturais coexistiam sob uma paz frágil, sustentada por um acordo ancestral e protegidas por uma barreira mágica criada pelos bruxos. A Barreira não apenas os escondia dos olhos dos humanos, mas selava o acesso ao Éter, o plano espiritual de onde fluem os poderes das fadas, demônios e bruxos. Era uma prisão dourada, uma promessa de segurança forçada. Mas até prisões de ouro podem ruir.
A rachadura surgiu como uma cicatriz no céu. Por ela, o sol atravessa com violência, queimando a pele dos vampiros, e algo pior escapa: uma energia densa, corrosiva, sem cor nem forma, conhecida apenas como O Vazio.
O Vazio não é silencioso. Ele sussurra, corrompe tudo o que toca.
Os efeitos foram imediatos. Os vampiros mais jovens passaram a sonhar com lembranças que não lhes pertencem, memórias humanas que deveriam ter sido enterradas com seus antigos corpos. Alguns enlouqueceram. Outros desapareceram. Os lobisomens, que costumavam ser guardiões de equilíbrio entre ferocidade e sabedoria ancestral, perderam a conexão com seus espíritos. A fúria domina, e o instinto sobrepõe a razão.
Bruxos e fadas, antes os pilares mágicos da vila, viram seus poderes falharem. Encantamentos se desfazem, feitiços explodem em energia bruta, e a própria conexão com o Éter parece venenosa. Os semideuses, abandonados por seus pais, sentem sua fé se esvair, e com ela, seus dons divinos. Tornam-se praticamente mortais.
Quanto aos demônios e duendes... quase todos sumiram sem deixar rastros, como se nunca tivessem existido.
No centro de tudo isso está Pandora, uma entidade envolta em mistério e lendas. Alguns dizem que ela foi uma fada ancestral, outros acreditam que é um demônio expulso do Éter. O que se sabe é que Pandora não destrói com violência. Ela semeia o caos com elegância. Espalha pequenos artefatos mágicos pela vila, itens que amplificam os piores impulsos de cada criatura. Um pingente que torna um vampiro incapaz de resistir à sede. Uma pedra que faz um lobisomem entrar em fúria apenas ao ser contrariado. Um anel que transforma a magia de um bruxo em destruição pura. Cada objeto parece inofensivo... até não ser mais.
E a cada novo conflito, a Barreira enfraquece. A cada ataque, traição ou descontrole, a energia mágica que protege Umbral se parte mais um pouco. O mundo humano se aproxima. E o Éter, onde habitam entidades antigas e famintas, sente o cheiro da falha.
Diz a profecia que Pandora foi expulsa de Umbral há eras, quando tentou dividir as espécies e abrir caminho para o retorno dos Anciões, criaturas primordiais que desejavam exterminar todas as raças impuras. Naquela época, os povos de Umbral se uniram para vencê-los. Mas um traidor sobreviveu. E agora, ele está sugando a energia vital da vila, abrindo caminho para que os Anciões retornem, libertos pela fenda que cresce a cada dia.
Em meio ao caos, alianças precisam ser refeitas. Rancores antigos devem ser superados. Porque em Umbral, agora, a sobrevivência não depende apenas de força ou magia. Ela depende de confiança. E da coragem de encarar o Vazio, fora e dentro de si.














