“Tem horas que é caco de vidro, Meses que é feito um grito, Tem horas que eu nem duvido, Tem dias que eu acredito.”
— Paulo Leminski. (via cultiva-me)
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“Tem horas que é caco de vidro, Meses que é feito um grito, Tem horas que eu nem duvido, Tem dias que eu acredito.”
— Paulo Leminski. (via cultiva-me)
Quando Vier a Primavera
Quando vier a Primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma Se soubesse que amanhã morria E a Primavera era depois de amanhã, Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. Por isso, se morrer agora, morro contente, Porque tudo é real e tudo está certo. Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. O que for, quando for, é que será o que é. Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos” Heterônimo de Fernando Pessoa
eu queria tanto ser um poeta maldito a massa sofrendo enquanto eu profundo medito eu queria tanto ser um poeta social rosto queimado pelo hálito das multidões em vez olha eu aqui pondo sal nesta sopa rala que mal vai dar para dois
Leminski in Não Fosse Isso e Era Menos. Não Fosse Tanto e Era Quase (1980).
Quando Vier a Primavera
Quando vier a Primavera, Se eu já estiver morto, As flores florirão da mesma maneira E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada. A realidade não precisa de mim. Sinto uma alegria enorme Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma Se soubesse que amanhã morria E a Primavera era depois de amanhã, Morreria contente, porque ela era depois de amanhã. Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo? Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo; E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse. Por isso, se morrer agora, morro contente, Porque tudo é real e tudo está certo. Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem. Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele. Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências. O que for, quando for, é que será o que é. Alberto Caeiro, in “Poemas Inconjuntos” Heterônimo de Fernando Pessoa
Clarice Lispector, “Um sopro de vida”.
Marcha As ordens da madrugada Romperam por sobre os montes: Nosso caminho se alarga Sem campos verdes nem fontes. Apenas o sol redondo E alguma esmola de vento Quebram as formas do sono Com a ideia do movimento. Vamos a passo e de longe; Entre nós dois anda o mundo, Com alguns vivos pela tona Com alguns mortos pelo fundo. As aves trazem mentiras De países sem sofrimento. Por mais que alargue as pupilas, Mais minha dúvida aumento. Também não pretendo nada Senão ir andando à toa, Como um número que se arma E em seguida se esboroa, - E cair no mesmo poço De inércia e de esquecimento, Onde o fim do tempo soma Pedras, águas, pensamento. Gosto da minha palavra Pelo sabor que lhe deste: Mesmo quando é linda, amarga Como qualquer fruto agreste. Mesmo assim amarga, é tudo que tenho, entre o sol e o vento: meu vestido, minha música, meu sonho e meu alimento. *Quando penso no teu rosto, fecho os olhos de saudade; tenho visto muita coisa, menos a felicidade. Soltam-se os meus dedos ristes, dos sonhos claros que invento. Nem aquilo que imagino já me dá contentamento. Como tudo sempre acaba, oxalá seja bem cedo! A esperança que falava tem lábios brancos de medo. O horizonte corta a vida isento de tudo, isento… Não há lágrima nem grito: apenas consentimento.
Cecilia Meireles
Canteiros Quando penso em você Fecho os olhos de saudade Tenho tido muita coisa Menos a felicidade Correm os meus dedos longos Em versos tristes que invento Nem aquilo a que me entrego Já me dá contentamento Pode ser até manhã Cedo, claro, feito o dia Mas nada do que me dizem Me faz sentir alegria Eu só queria ter do mato Um gosto de framboesa Pra correr entre os canteiros E esconder minha tristeza E eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza E deixemos de coisa, cuidemos da vida Pois senão chega a morte Ou coisa parecida E nos arrasta moço Sem ter visto a vida
Fagner e Cecília Meireles
I Confira tudo que respira conspira II Tudo é vago e muito vário meu destino não tem siso, o que eu quero não tem preço ter um preço é necessário, e nada disso é preciso III Cinco bares, dez conhaques atravesso são paulo dormindo dentro de um táxi IV isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além
Paulo Leminski
Comprei pilhas de livros, mas não li nenhum. Colei folhas de papel nas paredes, mas não desenhei. Enfiei meu violão de baixo da cama. À noite, sozinha, eu me sentava e esperava. Mas uma vez me vi contemplando o que deveria fazer se valesse a pena. Tudo o que me ocorria parecia irrelevante.
Patti Smith in Só Garotos
Diga qualquer coisa. Você não erra quando está improvisando. Mas e seu estragar tudo? E se perder o ritmo? Não dá, ele disse, é como bateria, se você erra a batida, cria outra.
Patti Smith in Só Garotos
Quando lhe contei que às vezes tinha o impulso de chutar uma vitrine, ele disse apenas: "Chuta Patti Lee. Eu pago sua fiança." Com Sam eu podia ser eu mesma. Ele entendia melhor que ninguém a sensação de estar preso na própria pele
Patti Smith in Só Garotos
Eu estava entre o caos e a frustração, cercada de canções inacabadas e poemas abandonados. Ia o máximo que podia até bater no muro, minhas próprias limitações imaginárias. Até que conheci um sujeito que me contou seu segredo, e era bem simples. Se você bater no muro, não pare.
Patti Smith in Só garotos
Estive então presente nesses momentos, mas era tão jovem e preocupada com meus próprios pensamentos que mal os reconheci como momentos.
Patti Smith in Só garotos
Aonde tudo aquilo levaria? O que seria de nós? Essas eram nossas perguntas juvenis, e respostas juvenis a elas seriam reveladas. Aquilo nos levou uma para o outro. Nós nos tornamos nós mesmos.
Patti Smith in Só Garotos
De resto, com que posso contar comigo? Uma acuidade horrível das sensações e a compreensão de estar sentindo. Uma inteligência aguda para me destruir, e um poder de sonho sôfrego de me entreter. Uma vontade morta e uma reflexão que embala, como a um filho vivo
Bernardo Soares (Fernando Pessoa) in Livro do Desassossego
se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância.
Bernardo Soares (Fernando Pessoa) in Livro do Desassossego (via alwaysvanilla)
Não se mate Carlos, sossegue, o amor é isso que você está vendo: hoje beija, amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será. Inútil você resistir ou mesmo suicidar-se. Não se mate, oh não se mate, Reserve-se todo para as bodas que ninguém sabe quando virão, se é que virão. O amor, Carlos, você telúrico, a noite passou em você, e os recalques se sublimando, lá dentro um barulho inefável, rezas, vitrolas, santos que se persignam, anúncios do melhor sabão, barulho que ninguém sabe de quê, praquê. Entretanto você caminha melancólico e vertical. Você é a palmeira, você é o grito que ninguém ouviu no teatro e as luzes todas se apagam. O amor no escuro, não, no claro, é sempre triste, meu filho, Carlos, mas não diga nada a ninguém, ninguém sabe nem saberá. Não se mate
Carlos Drummond de Andrade , Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002