Não se mate. Encha a cara, escreva um poema e vá dormir. Amanhã é outro dia.
Diego Moraes
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Não se mate. Encha a cara, escreva um poema e vá dormir. Amanhã é outro dia.
Diego Moraes
Domingo é shopenhauer de sunga.
Diego Moraes
Conheço um sujeito aqui em Manaus que escreve muito mal, mas toda vez que o encontro ele pede para ler um poema e no final grita quase gozando: "Diz aí! Fala! Ainda vou virar nome de avenida! De viaduto! Que poema foda, né. Eu sou foda, né?" aí concordo na maior falsidade, abro um sorriso e penso comigo: "Olha a viagem desse cara, bicho. Que merda. Eu quero virar nome de bar ou motel. Acontece muita morte e acidentes em viadutos e avenidas".
Diego Moraes
Eu morava em São Paulo nessa época. Ano de 2003. Andava tão fodido que chorava por qualquer coisa. Só queria voltar pra casa e rever minha mãe. Aí caminhei com alguns moradores de rua para o metrô São Bento. Parece que iam distribuir comida por lá. Aí lembro que comi uns sanduíches com suco de caju e liguei de um orelhão para minha família perguntando se já tinham arrumado minha passagem aérea e sentei num banquinho afastado. Aí um senhor aparentemente com seus sessenta anos se aproxima dançando: "Chora, não. Irmão. Dança. Engano a morte e as porradas da vida dançando break". Durante um tempo tentei dançar, mas desisti. Meu corpo é duro. Mas comecei a escrever muito desde aquela época. Acho que um conto ou poema por dia. Até hoje escrevo bastante quando a garganta trava e penso em chorar. Acho que a literatura é minha forma de dançar break. De enganar a morte e trocar socos com a vida.
Diego Moraes
Uma vez o médico Drauzio Varella apareceu lá no Extinto Bar Castelinho. Comprou uma garrafinha d 'água e se escorou no balcão. Aí eu e mais alguns amigos estávamos duro. Na fissura de encher a cara. Aí eu falei para o Leonardo Bocão pedir uma garrafa de vodca dele. Aí o Drauzio falou mais ou menos assim: "Alcoolismo é doença e mata" aí o bocão ficou puto pra caralho. Queria até xingar ele, mas fui diplomático e sugeri um refrigerante de dois litros. Aí o Drauzio riu e mandou essa: "Vou comprar a vodca. Refrigerante faz mais mal que Alcoolismo".
Diego Moraes
Eu tinha uma dívida com um cara
Não era mixaria
Não era qualquer dívida
Eu prometi que escreveria um poema para filha dele
Uma garotinha doente presa numa cama
Ele disse que o poema era pra ser lido no aniversário de cinco anos
Os dias se passavam e a cobrança aumentava
Até que numa bebedeira com ele resolvi que precisava conhecê-la
Algumas bençãos surgem apenas do susto
Então ele abriu a porta do quarto e vi a menina vestida de rosa
Parecia um buquê estirado na cama
Lagrimei e disse que não conseguia
Que ela era um poema feito e nada escrito ou falado iria substituir aquele rosa estirado na cama
Alguns segundos se passaram e a menina sorriu
Ele bateu no meu ombro e disse: "Tá pago. Tá pago. Sua dívida está paga. Você fez minha menina sorrir".
Saímos de lá para um bar e prometi que nunca mais prometeria um poema
Algumas dívidas doem muito.
Diego Moraes
Me identifico com um pombo que frequenta a pracinha da minha rua
Ele pousa devagar entre os famintos no gramado e não procura grãos de arroz ou milho
Procura bitucas de cigarro e depois voa para a fachada do bar ou cúpula da igrejinha enquanto os outros voam em bando em busca de mais grãos de arroz ou milho doados pela vizinhança
Me identifico com esse pombo
Poetas de verdade procuram primeiro as sobras
As migalhas
As bitucas
Depois o brilho
O horizonte
As nuvens
Um poeta de verdade sempre se fode sozinho
Voa sozinho
Nunca se mistura
Vira bituca.
Diego Moraes
Sempre digo que quase todo morador de rua é um livro não lido. Um Dostoiévski disfarçado. Esse catador de latinhas colou em mim lá no mercadinho onde bebo umas doses e me pediu um cigarro. A gente acabou engatando uma conversa sobre alienação religiosa, controle de massa e concordamos que batidas musicais como o gênero "sofrência" afetam mais a gente que obra de feitiçaria. Aí ele bebeu um copo cheio de vodka e mandou essa: "Eu gostava de fumar crack e foder com uma velha que morava nos fundos de uma vila na zona leste. Aí ela começou a traficar também e os vizinhos a denunciavam com frequência. A casa dela era invadida toda semana por policiais corruptos pedindo arrego ou roubando dinheiro ou drogas. Certa vez apareci por lá e ela estava amassando um lance estranho num pote. Disse que era banha de cobra com terra de cemitério. Que bastava fazer uma reza e jogar no pé de alguém que a pessoa nunca mais iria andar. Aí fodemos, fumamos algumas pedras e tomei vergonha na cara e voltei com a mãe dos meus filhos. Fiquei quase 3 anos sem usar droga. Aí numa recaída baixei lá na vila atrás da velha. Um cara de trinta poucos anos da casa ao lado sai numa cadeira de rodas dizendo que ela tinha falecido. Aí depois a tia desse cara também sai da cozinha de muletas dizendo que ninguém vendia mais drogas na vila. Aí a mãe da família surgiu com uma ferida enorme no pé. Exalava até mau cheiro. Disse que a desgraçada merecia morrer por ter aleijado muita gente". Aí o catador de latinhas bateu no meu ombro, agradeceu pelas doses de vodka e sumiu no chuvisco. Aí olhei para o meu pé com tristeza e disse baixinho: "Graças a Deus que não fumo mais pedra. Vai aleijar o caralho" .
Diego Moraes
Tenho um amigo que está trabalhando num frigorífico em várzea grande e sempre se queixa que o trabalho é pesado e o salário uma merda. Que mal dá para pagar o aluguel. Aí ontem ele chorou via vídeo. Disse que estava comemorando sozinho o aniversário de sobriedade. "Sabe o que faço na folga? Vou até o rio e fico sentado esperando ele falar comigo" bateu um lance estranho em mim. Não sabia o que dizer. Já estava emocionado com a situação e resolvi responder: "Ele fala contigo, irmão. Só que tu não percebes. Sabe essas lágrimas que estão escorrendo dos teus olhos? Ele está correndo dentro de ti. Tu é o rio". Ele chorou mais um pouco e desligou o telefone. A sensação estranha continuou em mim, abri a janela do meu quarto, acendi um cigarro e falei baixinho: "Minha vida tá foda. Pareço um deserto de desesperança. Preciso achar meu rio".
Diego Moraes
Matheus Peleteiro e Tábata Morelo, dois amigos e leitores, organizaram meus textos e aforismos sobre o ofício ingrato e sagrado de ser poeta.
Pensaram no diário da Carolina Maria de Jesus como inspiração, e o resultado é esse livro aqui. Uma edição primorosa, feita com zelo, com raiva e com amor. Uma edição limitada. Um suspiro no meio do caos.
Custa R$ 70,00 com frete incluso. Dá pra adquirir direto comigo.
Quem quiser, chama no direct.
Pix: 77679458200
A vizinha que passou o ano inteiro sem notar a minha existência resolveu parar na minha frente e desejar "Feliz Natal". Não respondi. Ando no limite e continuei na fila do supermercado segurando meu pacote de miojo e algumas salsichas. Então ela saiu da fila, passou a mão num minúsculo pote de Nutella e disse abrindo um sorriso: "Tô desejando feliz natal agora porque estou indo para Salvador. Volto só em janeiro". Bateu uma vontade do caralho de mandar tomar no cu, mas segurei a onda e me afastei de forma elegante: "Aproveita, vizinha. Muito axé! Não vai abusar do acarajé". aí o silêncio majestoso e constrangedor da falsidade pairou no ar, passei meus últimos dez reais no caixa, virei a minha cara escrota e disse: "Sou muito fã do Jacaré do grupo É o tchan! Adoro o jeito que ele dança". A sonsa abriu um sorriso enorme, do tamanho do rabo dela e respondeu: "Não vai dar vizinho, ele não mora mais na Bahia. Foi para o Canadá. Segue o insta dele?". Então cheguei em casa, fiz meu desejum, liguei a tevê, adoeci um pouco com as notícias e falei baixinho: "essa vida é uma merda. Estamos todos fodidos, mas o segredo é saber ralar na boquinha da garrafa".
Diego Moraes
Acho que muita gente pensa que escritor só transcreve as coisas. Saca, faz serviço de digitação ou algo assim. Não fazem ideia de que escritor tem cérebro, imaginação, estilo etc. Ontem a atendente da Lan house onde frequento balançou os peitões dentro do decote numa alegria contagiante e mandou essa segurando a porta do recinto: "O dono da Lan disse que te conhece." " Sim, há algum problema? estou devendo alguma hora?" "Não, tu é escritor, né. É que eu tenho uma estória pra te contar. Acho que vai te fazer vender muitos livros!" aí não tive como não olhar mais uma vez para os peitões dela e perguntei: "É mesmo?" "Sim, é a estória de como fiz para conseguir uma selfie com o Ximbinha lá em Belém do Pará". Aí minha depressão virou as costas e senti uma profunda vontade de derreter no asfalto tipo chorume que escapa do carro de lixo. Ainda escutei por último. Parecia os peitões dela falando: "Sabe quem é, né? O Ximbinha é o ex da Joelma da banda Calypso".
Diego Moraes
Às vezes a gente esquece do monstro que habita dentro da gente
Que do nada ele pode emergir das trevas e causar estragos
É por isso que valorizo minha serenidade diante de maremotos
Sábado passado conheci um senhor que me levou para almoçar e lá na sua sala de estar estavam estampados momentos nebulosos em quadros sem retoque:
fotografias de olhos roxos, braços quebrados e sorrisos falsos abraçados com agiotas e traficantes
Então conversamos mais um pouco sobre desequilíbrio e caos e fui embora olhando bitucas de cigarro e latinhas de cerveja na rua
Às vezes a gente esquece do monstro que habita dentro da gente
É por isso que valorizo minha serenidade diante de maremotos.
Diego Moraes
(...) Cada um deveria estar ocupado em sua solidão, mas cada um vigia a dos outros.
— Emil Cioran, no livro “Breviário de Decomposição”
Faz uns dez anos. Eu tava passando uns dias em São Paulo e marquei encontro com uma mulher de vinte e poucos anos que interagia comigo no Facebook. Fiquei horas esperando sentado num barzinho cheio de mesas de sinuca lá pelo meio da Rua Augusta. Aí juro que ela apareceu suada estampando um sorriso patético que me brochou total. Também parecia um pouco chapada de maconha. Aí uma hora ela cansou de bancar a falsona e puxou um livro do Bukowski da bolsa e disse assim: "Autografa aí para o meu ex-namorado. Ele ama o Bukowski! só que ele já morreu e tu é a cópia dele, né? Autografa aí 'Bukowski do Amazonas'. Sei que ele vai curtir muito!". Vida de escritor brasileiro é muito humilhante.
Diego Moraes
A rua está uma merda. Só estão falando merda. Só falam de Malafaia, Trump, Bolsonaro, pastor de calcinha, maduro, Venezuela e apocalipse. Aí me queixei para o dono do mercadinho: "Tô estressado. precisando ler um Shakespeare" aí ele respondeu: "Tenho cerveja Schincariol. Tenho litrão e latinha". Ninguém entende nada. É melhor ficar calado. O silêncio é uma puta gentileza com o mundo.
Diego Moraes
“Nenhuma poesia matou a fome ou remediou uma injustiça social, porém sua beleza pode ajudar a sobreviver a todas as misérias.”
Danill Jarms