Joris Van de Moortel
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@venenodevenus
Joris Van de Moortel
27 / DMTudoaomesmotempo
limpeza dentro espaço/tempo, fora
eu fiquei alerta, o tempo inteiro. queria saber descrever depois. queria lembrar de tudo.
prestei atenção no meu corpo. na reação química, estômago/coração/braços/cabeça o movimento é único. se bate num lugar, bate em todos
mas antes de bater, achei que não fosse funcionar. tava tudo cinza e tons próximos, sem novidade e cheia de pensamentos. estado zero meditativo.
acho que não vai funcionar. que saudade do tunico. eita agora tá tudo laranja <3 ok. fica quieta. a primeira leva foi física. essa é a memória.
tem de tudo um pouco, organizado e misturado, e físico. tem choro. lágrima além de mim. de um lugar que eu não sei qual é. é meu, mas é de quem veio antes também.
/imperador. é macho. é sólido, sou eu, quem manda, sou eu, é quem decide, é capricórnio?, tem a ver com saturno, parece que sim, é sobre tempo, é de terra, eu sou terra, de onde vem essa água, ah sim, dos meus olhos\
[segunda leva. não vou conseguir]
parou de chorar. parou de mexer. voltou ao normal pinga colírio / “é pra melhorar as mirações” arde muito e pesa muito é sonhar acordado. consciente, saber sem entender nem enxergar, não abre os olhos, não pode abrir
/imperador é o símbolo do pai, eu não preciso mais dele, eu sou meu pai, não quero isso, mas faz parte, é bom, aceita, nenhuma história é perfeita, e se eu falasse com ela. o aparente grande amor dele? é isso? eu quero isso? q drama\
chega calma descansa, pode abrir os olhos agora
eu deveria beber água?
experiência visual. bonita. nunca vi nada assim, por mim mesma, mas não é nada novo. clichê né, ver a aura das coisas. as cores mudando. tudo isso vem de dentro de mim. que lindo.
eu acho que eu tô pensando em absolutamente todas as pessoas que eu amo. sim, é isso, me sinto plena como era mesmo? ciúme? já tá tudo bem. de verdade
olha essas cores. o vento movimenta a cortina e ela muda de cor numa paleta arco-íris. que cor é o tecido de verdade? não lembro. não importa.
preciso visitar minha avó, tenho saudade dela, espero que ela saiba. mas cansa. ter mentores que exigem mais atenção do que eu, a criança. é difícil abrir mão deles pra ser minha própria mentora, pra poder ter um pouco mais de humildade na minha caminhada e entender que ninguém sabe de nada. pelo menos eu tô tentando. é isso o imperador?
tá, entendi acho que agora passou (eu deveria ter tomado a segunda leva) mas tudo bem, não acabou realmente o tempo tá passando tão rápido, que horas são? parece que umas cinco da tarde. o que será que o tunico tá fazendo? olha o tamanho da raiz dessa árvore! que sorte ter uma árvore tão grande assim num quintal
vou voltar lá pra dentro
[terceira leva] nossa, tão pouco. acho que não vai funcionar. o gosto nem é tão ruim. quero deitar.
tá bom, funcionou que loucura, tanta energia, que lindo todo mundo celebrando. eu também tô feliz. mas quero ficar deitada. descansar a cabeça no escuro dos meus braços é bom. vou cobrir minha cabeça com minha manta. minha avó fez essa manta. a outra avó. eu pedi pra ela fazer pra mim uma manta arco-íris pra assistir TV e ela fez. que bom que eu trouxe comigo.
minha manta tá piscando e só eu consigo ver. oscila de acordo com meus batimentos cardíacos. como no útero. minha manta é o útero da minha mãe. eu vejo a sala de parto. um espaço infinito e escuro, com uma maca no meio.
quando eu nasci, minha mãe ficou dopada de anestesia e meu pai não quis acompanhar. nasci sozinha? minha mãe tava lá. mas tava com medo. nasci sozinha. (tá tudo bem, eu ainda sou especial, apesar disso, eu ainda sou especial — essa voz é minha, mas não sou eu falando. QUEM TÁ FALANDO? tá tudo bem. eu sou especial? não sei. mas obrigada por me dizer isso)
acho que eu fiz todas as posições passivas de yoga que eu conheço.
posição da criança. hoje eu tô realmente criança. mas não de um jeito infantil patológico. num sentido de resgate de memória lúdica. que bom, saudade de mim assim. quero resgatar minha doçura. foi bom aprender a brigar, mas cansei de fazer só isso.
a festa continua. acho que é o final, tá todo mundo dançando. vou continuar aqui. chorando? chorando. de novo. muito. soluçando alto. a música tá alta, ainda bem. que choro é esse? parece que é meu. lembro de ler um texto que dizia que o bebê chora tudo que a mãe cala. esse choro é da minha mãe?
esse choro é de fêmea. da minha mãe e da irmã dela. todo choro calado das mulheres da minha família. é delas. eu choro por elas. obrigada por me ensinarem, espero conseguir aliviar a dor que vocês viveram. não fujam da verdade.
[ catarse. pós catarse. imagens. vaporwave. as ~refa tudo. cabeças. 3D. fundo escuro infinito. serpente. olhares. folhas. movimento. roxo verde rosa neon. daora ]
27 / pessimista romântica
me sinto mulher
sinto o fim de uma fase de transição (e começo de outra) retorno de saturno, é você?
como se as tempestades de crise dessa idade tivessem sido antecipadas, e os 27 significassem só a celebração do aprendizado.
não sou mais menina,
minha pele não tem mais a mesma firmeza e eu comecei a enxergar as primeiras marcas de tempo no meu rosto. e no meu corpo. e gostei disso, apesar de dar um pouco de medo. sempre quis ser mulher, sempre quis ser adulta, sempre me senti jovem-velha.
aprecio minha juventude, num sentido de frescor da vida, mas gosto de envelhecer. gosto de amadurecer. e gosto, particularmente, do desafio de me manter jovem (de mente) e moderna, apesar de toda experiência (que ainda será) vivida.
ser fêmea sempre fez sentido pra mim, desde criança. lembro de me sentir sortuda por ser menina, porque era exatamente o que eu queria ser.
mesmo percebendo as desigualdades nesse assunto de gênero, eu continuava apreciando o meu próprio. isso, com certeza, favoreceu meu aprendizado feminista e fortaleceu minhas opiniões.
sem crise nesse assunto de ter uma concha, de ser uma caverna, receptora mas igualmente inabitável (a gente só é uma caverna se quiser), aprendi em torno das fragilidades que me delegaram por ser fêmea e, principalmente, como combater essa regra comportamental. (nossa mas q evoluída parabéns viu)
então, ser mulher aos 27 foi reconhecer e receber de volta um espaço lúdico que eu tinha abandonado muito antes de ser adulta.
eu tive uma infância lúdica. minha mãe me deu isso. me ensinou que fantasia é tão importante quanto realidade. que nossos pensamentos tem poder e que essa é a maior magia que alguém pode exercer. eu fui entendendo que é importante prestar atenção na frequência mental.
sendo uma jovem idosa, lembro de aos 07 anos pedir pra minha mãe comprar um disco instrumental de música indiana. chegando em casa, eu fechei as cortinas e coloquei o cd pra tocar. estendi um paninho no chão, sentei em cima, e decidi meditar (~mística né mores)
claro que eu tava copiando alguém. mas eu ainda lembro dessa sensação. e eu ainda resgato ela toda vez em que eu (acho que) medito, hoje em dia.
aos 27, eu reconheci que minha persona adolescente hippie fazia sentido. com todas as minhas bijuterias de camelô, um falso desapego material e os incensos do meu quarto, veio uma sabedoria de ouvir a natureza e respeitar isso antes de qualquer outra coisa. tipo mesmo.
a estética foi embora (por sorte) e, por muito tempo, eu recusei o ensinamento por trás dela. eu tava vivendo um outro momento, mais obscuro/auto-destrutivo/pragmático e ainda mais pessimista, “todo mundo vai morrer mesmo”
verdades intrínsecas foram ditas e eu precisei me resgatar, do jeito que dava. fiz amigues importantes (maravilhosxs, que me acompanham até hoje e espero que pra sempre)
E eu me apaixonei. aprendi o que é amor mesmo. com respeito e cumplicidade. e paixão. e tesão de verdade. e tudo junto numa pessoa só. (teamo)
27 então me ensinou que tem natureza do lado de fora e do lado de dentro de mim (spoiler: as duas são a mesma). e é importante respeitar os dois lados. de tudo.
fui fazendo uma auto psicanálise (não tentem isso em casa). perdi a referência quase fiquei louca. (ou tentem)
decidi estudar astrologia e enfrentar meus medos; ouvir (e falar) as verdades que eu tanto queria saber, mas tinha parado de escutar
comecei a investigar o sagrado feminino. e o meu ambiente lúdico foi se refazendo numa velocidade louca e com ainda mais frescor do que o da infância (ou não na real, não importa).
eu ainda não acredito em nada. e eu também acredito em tudo que eu acho, naquele espaço entre meu coração e meu estômago, que faz sentido.
e eu, que sempre tive a cabeça e o olhar atentos, to permitindo o despertar do resto do meu corpo. com verdade na realidade e no sonho.
27 / 02 de muitos
minha cabeça é minha nave
hoje começa meu último mês de 27 anos de idade
sinto urgência em registrar tudo o que eu aprendi no 27, como se meu tempo estivesse acabando (eu sei que não, tá tudo dentro de mim)
eu sempre fui aquela pessimista com todo aquele negócio de aceitar que a vida é prática e real e dura mesmo, e que todo mundo vai morrer na mesma merda, MAS 27 confirmou que existe um caldo invisível louco unindo tudo, unindo as energias (~o segredo ALOKA)
e pra perceber esse caldo, tem que prestar atenção nas nuances. meio que calar a boca e aguçar os sentidos. sentir/processar/entender. daí, abrir a boca de novo pra falar tudo o que precisa ser dito.
aos 27, eu criei coragem de ser eu mesma e realmente apoiar as ideias em que eu acredito, mesmo sendo minoria. aprendi a resistir, apenas pra aprender que eu posso desistir se eu quiser ou precisar. resistência é difícil, dolorida de conseguir. é tipo um esporte: requer treino e esforço para que a resistência seja forte e representativa. realmente requer coragem para continuar pisando firme nos momentos em que tudo em volta só quer que vc se adeque. aprender a resistir é criar calo e flexibilidade ao mesmo tempo. pra acontecer, tem que doer. mas depois que dói uma vez, passa a doer cada vez menos. depois que parou de doer, eu entendi que resistir, como tudo que é político, tá em todas escolhas (ou falta delas). e isso me deixou mais livre.
resistindo aos 27, acho que comecei a me permitir a ser artista. não num sentido de criação artística, num sentido de escolha de vida. de ter criatividade no meu viver, com consciência, respeitando meu pensamento, meu tempo, minha representatividade. aprendi a resistir fazendo festa, criando ambientes lúdicos etéreos efêmeros de dança e música, suor, liberdade e psicodelia, quando dá. criando uma atmosfera feita pra acabar na realidade prática E sempre resistir no universo subjetivo (pra sempre?). são crias artísticas, triviais e únicas ao mesmo tempo. isso é arte? foda-se
sinto minha intuição aguçada. conversando comigo, cuidando de mim. minha intuição é meu corpo.
aos 27, eu voltei a ouvir essa camada interna, essa pele emocional submersa em mim, que é a coisa que eu conheço há mais tempo. sou eu. eu consigo escutar melhor.
quando me permito, eu enxergo cores vibrando no ritmo dos batimentos do meu corpo. às vezes eu consigo enxergar melhor, às vezes não. o caldo é invisível, o controle de enxergar é meu, mas isso eu ainda tô aprendendo.
minha nave é meu corpo
sinto minha sorte/me sinto forte
ta, então foi assim
rolou 2015 que foi quando as pessoas perceberam que tava dando merda
depois de todo fervo de 2013 e o calaboca que a copa deu em 2014, as intenções realmente começaram a ficar claras.
pra mim, na minha vida de pessoa física, eu tava simplesmente apavorada. não tinha ideia do que tava acontecendo na minha percepção emocional, com medo de perder tudo o que eu tinha na vida, totalmente perdida
2015 trouxe uma carga elétrica forte, negativa, arrastando todo o submundo que as emoções e os desejos podem trazer. foi merda no ventilador
apesar do pavor todo, as pessoas voltaram a se movimentar, depois de ficarem entorpecidas de ressaca da copa (o gigante tava só descansando)
mas com toda dúvida que tava rolando em 2015, foi só em 2016 que todo mundo reparou mesmo, BELEZA AGORA FUDEU
desde 2016, a política no brasil (e no mundo né) só piora. alguns direitos civis, que foram tão difíceis de conquistar, correm risco de serem revogados. é uma nova onda elétrica, ainda mais conservadora e autoritária. esse tipo de tendência política não é novidade nessa nossa ~históriadahumanidade, o que só mostra como nossa existência é insignificante (será que é uma simulação mesmo)
mesmo assim, 2016 deu e ainda ta dando medo. mas pelo menos agora eu sei do que eu tenho medo de perder.
ENFIM 2016 também me trouxe os ~27 anos de idade, que se pa era a idade que eu mais esperei chegar (depois dos 17 adolescent rebelde)
eaí bicho, apesar de 2016, pude extrair lições bem fortes, quebrando paradigminhas da minha vidinha individual e também resgatando um senso de coletividade ~energética e social~ bem… místico
[realmente se isso aqui for uma simulação, cês tão de parabéns, porque eu to caindo direitinho nesses sinais]
27 / puta símbolo pop / quase cabalístico / abrindo os trabalhos do retorno de saturno (aguardando ansiosa por esse conceito religioso num mundo pós apocalíptico) depois de ~fugir tanto dos rótulos RISOS~ é bem daora perceber que eu sinto mais confiança em mim e nas pessoas da bolha da minha vida. é gratificante pisar firme no caminho que eu (acho que) escolhi, abraçando as diferenças que eu vivo, sempre alerta aos meus privilégios.
mudar é legal. entender que autoconhecimento é reconhecer a mudança é um alívio <3
São Paulo, setembro de 2009
Raíssa Negromonte
Comida, diversão e arte
Não há uma data exata que estabeleça um simples início para o cinema. Como declara Arlindo Machado (2002), o que há é uma reunião de datas de eventos cinematográficos, que fizeram o caminho tecnológico até que o cinema de fato existisse.
Tais histórias traçam a trajetória técnico-científica do cinema, mas raramente atribuem também o imaginário e a “necessidade” de trabalhar com ele. Assim, o autor continua: “a história da produtividade industrial [do cinema] pouco tem a oferecer a uma compreensão ampla de seu nascimento e desenvolvimento” (MACHADO, 2002, p. 15). Deveriam também fazer parte da história aqueles como Bernard Palissy, que, “possuído pela imaginação”, chegou a incendiar a própria casa somente para assistir alguns momentos de chamas “tremeluzentes”, conforme menciona Machado (2002), ao citar André Bazin.
Com a evolução da História e da ciência, grande parte dos mitos nos quais a humanidade havia se baseado até então foi sendo derrubada. Tal busca pelo “desvelamento”, “pela consciência analítica” e pela “transgressão do real” (MACHADO, 2002, p. 24) existe, pelo menos, desde Platão, que, através da Alegoria da Caverna, produzia o imaginário, seduzindo a imaginação para desmascará-la e revelar sua essência enganadora.
Assim, utilizando-se da projeção de sombras contra a parede de uma caverna, Platão tinha a intenção de criar uma dicotomia entre a realidade e a imagem. A partir disso, o filósofo agia de forma a tornar a sombra da imagem projetada o mais fiel e crível possível, para que, após os prisioneiros da caverna fossem absorvidos completamente pelo conteúdo projetado – diegese, por assim dizer –, pudesse apontar o mecanismo ilusionista. Seus métodos eram muito semelhantes ao do espetáculo cinematográfico: desde o escuro da caverna até o dispositivo de projeção, que era mantido secreto diante dos prisioneiros, de forma a manter a credibilidade até a hora certa de desmascará-la.
Como lembra Arlindo Machado (2002), apesar de negar a razão dos sentidos, as funções do prazer e as construções do imaginário, Platão criou uma arte que se alimentava, paradoxalmente, justamente de tais “substâncias” (MACHADO, 2002, p. 24).
O curso da História comprovou, entretanto, o contrário do que Platão ensinava: a arte e expressão artística também faziam parte da realidade do Homem, sendo tão reais quanto suas necessidades mais básicas.
Aristóteles acreditava que a representação (“imitação”) é natural ao homem desde a infância. Assim, além de discordar de Platão quanto a seus efeitos negativos, via a imitação como uma útil substituição dos objetos reais, quando não disponíveis.
Tal aplicação “científica” é compartilhada pelos “homens de ciência” que contribuíram para o desenvolvimento tecnológico do cinema, mas não para o cinema em si, por não enxergarem objetivo na representação imagética de algo já existente, conforme relembra Arlindo Machado (2002):
Etienne Jules-Marey, por exemplo, fisiologista francês cujas pesquisas sobre o movimento animal o acabaram conduzindo de forma inesperada ao cinema, nunca entendeu exatamente para que poderia servir a síntese do movimento por meio do aparelho projetor. O inventor do cronógrafo e do fuzil fotográfico, dois ancestrais da câmera cinematográfica, estava interessado apenas na análise dos movimentos dos seres vivos e para isso necessitava decompô-los, congelá-los numa seqüência de registros. Uma vez decompostos os movimentos dos animais, era possível estudá-los em detalhe, mas recompô-los novamente numa tela, para fazer a imagem do animal “se mover”, era para ele uma total idiotice (MACHADO, 2002, p. 15).
No entanto, Aristóteles vai adiante ao acreditar que, com a imitação, o homem não só adquire os primeiros conhecimentos, como experimenta o prazer: “se acontece alguém não ter visto ainda o original, não é a imitação que produz o prazer, mas a perfeita execução, ou a cor ou outra causa do mesmo gênero” (ARISTÓTELES, 2005, p. 244).
Pode-se entender, portanto, que, segundo Aristóteles, o prazer gerado pela arte está, antes da contemplação da obra em si, na contemplação do trabalho do artista, em sua abordagem e forma de recriar o tema. Ou seja, sua forma de criar. Tal idéia é muito semelhante a de Fernando Pessoa, que diz que “o essencial da arte é exprimir; o que se exprime não interessa”.
Tão natural ao homem quanto a imitação, é também, segundo Aristóteles, o “gosto da harmonia e do ritmo” (ARISTÓTELES, 2005, p. 244), os quais originaram a poesia, através de suas improvisações.
Dessa forma, o filósofo enxergava que “a missão do poeta consiste mais em fabricar fábulas do que versos, visto que ele é poeta pela imitação e porque imita as ações” (ARISTÓTELES, 2005, p. 252).
Portanto, a função do poeta não está em narrar o que aconteceu, mas o que “poderia ter acontecido”. Por isso, a poesia é “mais filosófica e de caráter mais elevado que a História, porque permanece no universal”, enquanto a História aborda somente o particular.
Aristóteles entendia, no entanto, as perigosas dimensões que a imitação podia atingir e defende também sua crítica – Platão, por exemplo, via na imitação do real, a ilusão e nela, a desonestidade –, se tal “se trata do absurdo e da pura malvadez” (ARISTÓTELES, 2005, p. 284), quando a imitação foge da racionalidade com intenção enganosa de má-fé.
O que Aristóteles estabelecia era uma de muitas definições de “arte”.
Segundo o dicionário Michaelis, há no mínimo 16 definições diferentes do verbete. Dentre elas, há descrições desde “4. Execução prática de uma idéia”, até “12. Habilidade calculada (...) implicando a dissimulação e hipocrisia; artimanha, astúcia, engano”. De todas, no entanto, talvez a que descreva melhor seja: “16. Objetivação social, isto é, coisa que, como os outros fenômenos culturais, é determinada, em forma e conteúdo, pela estrutura social”.
Dessa forma, diferentes teorias e conceitos foram criados para suprir o significado real de arte.
A “Arte poética” de Aristóteles é base para a “teoria da arte como imitação” , a qual acredita que uma obra é de arte somente se produzida pelo homem, imitando algo. Com isso em mente, Platão rejeitava a arte justamente por imitar objetos naturais, gerando “imagens imperfeitas de seus originais”. Já Aristóteles acreditava que tais objetos, por mais que tivessem sido imitados, não eram cópias de nada.
Durante o século XIX, no entanto, insatisfeitos com tal teoria da imitação, artistas românticos estabeleceram uma nova definição, que consistia na “teoria de arte como expressão”. Sua premissa inicial é a de que uma obra é de arte somente se “exprime sentimentos e emoções do artista”.
Ambas as teorias discutem pontos consideráveis, mas estão igualmente equivocadas na intenção de definir a arte sob um só aspecto.
No entanto, o maior trunfo da “teoria de arte como expressão” está na luta que tais artistas mobilizaram a favor de suas individualidades criativas, de acordo com suas sensações mais pessoais.
Tal postura foi, com certeza, inspiradora para os artistas impressionistas/impressionismo, que quebraram qualquer parâmetro artístico existente até então, com suas rápidas pinceladas, instaurando a mobilidade de realidade, já que suas obras podiam ser contempladas de formas diferentes, de acordo com o ponto-de-vista de cada um.
O surgimento do Impressionismo ilustrou literalmente o rompimento “do regime clássico de visualidade”, que, de acordo com Jonathan Crary, fundamentou a “verdade da visão”.
Assim, em meados do século XIX, a ciência, filosofia, psicologia e arte entraram numa certa forma de consenso, estabelecendo que nem a visão, nem qualquer outro sentido poderia “reivindicar uma objetividade ou certeza essenciais” (CRARY, 2007, p. 67).
Com isso, estabeleceu-se o conceito de visão subjetiva, que compreende que as sensações humanas dependem “mais da constituição e funcionamento do aparelho sensorial”, do que da “natureza do estímulo” (CRARY, 2007, p. 67). Ou seja, a leitura e expressão sensorial é particular de cada um e seu próprio aparelho sensorial, acarretando, dessa forma, na idéia de multiplicidade de verdades, uma vez que pode existir uma verdade diferente para cada tipo de recepção sensorial.
A partir disso, foram desenvolvidas “técnicas externas de manipulação e estimulação” sensorial. Dessa forma, a visão se compatibilizou com o resto dos processos da modernização.
Como inúmeras outras áreas, o impressionismo marcou a interferência da crescente velocidade do século XIX – segundo Jonathan Crary, a “lógica cultural do capitalismo” está em aceitar como natural as rápidas e freqüentes mudanças – também na arte.
A principal característica do impressionismo está no registro da realidade de maneira objetiva, em seu próprio tempo e em seu próprio ambiente. Sem rascunho, as obras impressionistas eram realizadas sem preocupação em capturar os detalhes e contornos do que se pintava, postura evidente nas pincelas “grosseiras”. A proposta dos artistas impressionistas era capturar as cores do momento – eram muitas ao longo do dia –, e assim, seguindo esse caráter imediato, as tintas não eram misturadas na paleta do artista, o registro acontece com pinceladas singulares de cores puras; à distância, os olhos de quem contempla a obra dão a uniformidade da imagem e suas cores.
Assim, além de representar a chamada primeira impressão do artista (ou talvez por isso), as obras impressionistas eram marcadas por imagens descentralizadas. As linhas e posicionamentos de suas imagens fazem com que o olhar do observador divague pela tela, até ser conduzido para fora do quadro.
Tal mobilidade do olhar provocava, com certa rebeldia, um problema que os padrões da época já encaravam: a falta de atenção por conta do excesso de estímulos visuais, por todo lado.
Edouard Manet marcou a transição do realismo para o impressionismo das artes plásticas. Sua técnica quanto forma de lidar com a tinta e o menor detalhamento dos objetos pintados – ponto essencialmente contrário à pintura realista – foram alguns dos traços adotados pela geração impressionista.
Em sua obra rápida, sem perfeccionismo, os rostos e corpos não são caracterizados com todos os seus detalhes. Além disso, seu posicionamento está, quase sempre, voltado para fora do quadro. Os olhares “perdidos” tanto desintegram, ao levar o observador para fora do quadro, como também marcam o registro espontâneo do momento, do efêmero.
Assim, Jonathan Crary relata:
Segundo diversos críticos, uma das realizações formais cruciais da obra de Manet, no contexto do início do modernismo, foram suas experiências de separação entres os fatos próprios da figuração e da representação, de um lado, e fatos da substância pictórica autônoma, de outro, e sua aproximação a um ponto de ruptura de “informidade” nas telas de sua fase final (CRARY, 2007, p. 73).
Tal descrição do olhar de Manet está muito ligada ao conceito de “visão autônoma”, que, baseada também na visão subjetiva, de acordo com Crary (2007), consiste na “separação (ou liberação) da experiência perceptiva de sua relação necessária e determinada com um mundo exterior” (CRARY, 2007, p. 68).
Em sua obra Na estufa, no entanto, Manet abandona, de certa forma, os sinais de distração e desintegração que tanto usou em suas outras obras e que, apesar de fazer pleno sentido com a tendência universal da época, eram tão criticados.
Na estufa é, portanto, mais coesa, com composição imagética construída para “conter coisas” (CRARY, 2007, p.76), como declarou Crary. Na obra há não só a reintegração da imagem como um todo, como uma delimitação, prendendo a atenção de seu observador naquele momento apreendido. O próprio nome original da obra (La serre) pode também sugerir esse proposta incomum de Manet: “serre” pode significar tanto estufa de plantas, como também uma certa forma de contenção.
Pode-se traçar um paralelo entre a forma de registro da primeira impressão, descentralizada e de olhar móvel de Manet e a imagem de Lumière, também centrífuga e testemunha de instante.
Embora tenha sido considerado mais um técnico que, visando o sucesso comercial através da invenção de uma máquina revolucionária, não enxergou “futuro no cinema(tógrafo)”, Lumière acabou por ser chamado de “último pintor impressionista” (AUMONT, 2004, p. 27).
De acordo com Paulo Ricardo de Almeida, o surgimento do cinema resolveu o “paradoxo entre o perene [da fotografia] e o movente [do impressionismo]”. No caso, o autor toma como exemplo um filme realizado pela Edison Company, mas, por usar parâmetros muito semelhantes, pode ser aplicado também ao cinema de Lumière, que, segundo Aumont (2004), é superior ao “equivalente” americano, por seu pioneirismo na linguagem cinematográfica.
Isso, porque as imagens de Lumière não são apenas recriações da realidade. Minuciosas, carregam tal detalhismo que ultrapassam a própria realidade.
Além disso, os enquadramentos de Lumière carregam, como nas obras de Manet, o olhar do espectador para fora do quadro. É o caso de L’arriveé d’un train en gare, em que o trem vem do ponto de fuga rumo à borda do quadro. Uma vez fora do quadro, o espectador fica também fora do campo, lugar do futuro e do presente.
Assim, Jacques Aumont declara que “Lumière descende do impressionismo mais ou menos como o homem descende do macaco” (AUMONT, 2004, p. 44).
Quem identifica Lumière como o “último pintor impressionista” é Godard, que, ao relacioná-lo como artista e compará-lo a Méliès, declarou que “o que interessava a Méliès era o ordinário no extraordinário, e a Lumière o extraordinário no ordinário” (AUMONT, 2004, p. 27).
Lumière é, por isso, o último pintor impressionista, porque, apesar de não ter sido um pintor de fato, não houve nenhum outro impressionista depois dele.
A beleza do retrato da realidade é contestada, no entanto, por Luis Buñuel (1958). Em Cinema: instrumento de poesia, o cineasta espanhol critica a tendência neo-realista do cinema. Para ele, as ”fatias da vida real” do neo-realismo não ressaltam o principal do cinema, ou seja, “o mistério e o fantástico”. Por isso, a realidade neo-realista acaba por ser “incompleta, oficial, sobretudo racional, (...) desprovida (...) de tudo o que completa e amplia a realidade tangível”. Buñuel completa seu pensamento citando André Breton, que disse: “o mais admirável no fantástico é que o fantástico não existe; tudo é real” (BUÑUEL apud BRETON, 2008, p. 337).
Platão obviamente discordaria de Buñuel e de qualquer aplicabilidade da fantasia na vida real. No entanto, o entendimento do cineasta quanto ao neo-realismo é um tanto platônico, já que não aceita o movimento por sua proposta enganadora de falsa realidade.
Ainda assim, Luis Buñuel cita Man Ray ao discorrer sobre o cinema em geral e seus bons e maus filmes e concordar que num mau filme sempre haverá cinco minutos maravilhosos – os mesmos únicos cinco minutos que valerão de um bom filme inteiro.
A partir disso, o espanhol declara que o cinema “é o melhor instrumento para exprimir o mundo dos sonhos, das emoções e do instinto” e que, por isso, é o mecanismo que “mais se aproxima do funcionamento da mente em estado de sonho, (...) onde o tempo e o espaço se tornam flexíveis” (BUÑUEL, 2008, p. 336).
Tal relação do cinema com a cognição humana foi publicada por Hugo Münstenberg, que considerava que o mundo exterior fosse moldado pela e para a atenção ou as idéias da memória humanas.
Dessa forma, Münstenberg declarou que o cinema poderia agir de forma análoga à imaginação, por possuir “mobilidade das idéias, não subordinadas às exigências concretas dos acontecimentos externos, mas às leis psicológicas da associação de idéias”.
Por isso, Münstenberg acreditava que, por “projetar a imaginação na tela” (MÜNSTENBERG, 2008, p. 38), o cinema obedecia às leis da mente, não as do mundo exterior.
Indo mais adiante, Hugo entendia a mobilidade da mente e seus diferentes formatos e, da mesma forma, acreditava que o cinema era o único capaz de acompanhar tais mudanças, como, por exemplo, a divisão da mente – capaz de estar em locais diferentes num mesmo ato mental. Apesar de tudo, dos diferentes significados apreendidos pelo homem e suas atenções – voluntárias e involuntárias, esta última, muito estudada e explorada durante o século XIX, através de estímulos visuais, cada vez mais excessivos –, Münstenberg declarou que somente o cinema podia construir tais “divisões internas”, gerando “este intercâmbio de experiências divergentes do espírito” (MÜNSTENBERG, 2008, p. 43), incluindo as percepções psicológicas.
Hugo Münstenberg usava da comparação do teatro para exemplificar a ampla área de atuação do cinema sobre o entendimento humano. Mais evoluído do que o teatro, o cinema lida com a mente de igual para igual, enquanto o teatro sempre “deixa a desejar”. A partir disso, compreendendo o imaginário humano de forma tão ampla quanto os recursos cinematográficos, Münstenberg entende as fantasias e criações da mente como algo intrínseco do homem, da mesma forma como Aristóteles um dia defendeu.
Assim, expôs: “as lembranças e as fantasias são, portanto, vivenciadas como suplementos subjetivos [das impressões externas e pontos de partida]: não acreditamos na realidade objetiva” (MÜNSTENBERG, 2008, p. 43).
A linguagem cinematográfica carrega, portanto, não a posição de primeira expressão artística, mas a de mais completa.
Considerando o acúmulo sensações que o ser humano carrega através de suas emoções e percepções sensoriais, não foi sem motivo que ele buscou, desenvolveu e refinou formas de se expressar. Seja por imitação ou pura obra da imaginação, a imagem criada pelo homem existe desde antes de haver qualquer registro escrito. Tal criação imagética sempre brincou, desde os primórdios, com o movimento – as pinturas nas cavernas, por exemplo, não eram apenas desenhos primitivos: seus detalhes de composição e contemplação tinham efeitos muito próximos ao da experiência cinematográfica, ao utilizar jogo de luz sobre imagens com relevo, ordenadas em série, gerando continuidade e movimento conforme o observador se movia.
Portanto, não se pode dizer ao certo a origem da linguagem cinematográfica, porém, é seguro afirmar que a fantasia, o imaginário humano e o cinema nasceram no mesmo dia.
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Margaret Durow - Untitled (2013)
by Diane Arbus
Louis Stettner
Odd Man in - 1958
From Penn Station Series
Asako Narahashi, half awake half asleep in water