eu nunca soube dizer eu te amo. é por isso que entendo as cafonices de certos filmes. um personagem principal que nunca se apaixonou na vida, aí encontra outro protagonista e começa a ver sua vida de ponta cabeça, perdido, sem saber o que fazer. é porque é desse jeito mesmo. a gente que não tem esse costume do envolvimento, acaba se sentindo melhor sozinho na maior parte das vezes. o problema é que a maior parte das vezes não quer dizer sempre. e não saber dizer eu te amo não quer dizer que você não ama. é só uma dificuldade de expressão como se você não soubesse falar e se transformasse num perfeito idiota quando chega a oportunidade, isso quando você deixa ela chegar. o mau de pessoas assim é que a gente vive numa constante fuga. não sei explicar direito o porquê. talvez por alguns traumas que foram se instalando ou sei lá. mas o bizarro é que a gente raramente sente falta de alguém do lado, sabe? bom, pelo menos é o que eu percebo. eu me analiso e sei que se sinto falta de alguém, automaticamente sei quem é e sei bem por quê. não tem como ser outra coisa. sim, porque eu sou do tipo de gosta das pessoas de longe, até as pessoas mais queridas. se quero alguém por perto, sei que é porque tem alguma coisa diferente me preenchendo e geralmente, ou no caso, sempre.. eu nunca sei o que fazer. não sei mesmo. eu quero me esconder porque eu tenho um medo danado de assumir essas coisas. de chegar pra outra pessoa e começar a dizer o que se passa por dentro e de repente não parar de falar. de assustar esse alguém com todas as mais malucas metáforas que eu considero ter a ver com o que eu sinto. eu tenho esse hábito. eu quero transformar tudo numa recordação pra ler tempos depois, e por isso, eu sempre acho que preciso ser intensa demais. as pessoas nem sempre estão acostumadas com isso. elas não estão acostumadas a relação de sentimento com as palavras mais bonitas que a gente puder falar. e desde pequena, desde que me entendo por gente, eu sempre adorei brincar com isso. lá pelos meus 9, peguei uma mania esquisita de passar horas folheando o dicionário só pra tentar reproduzir as palavras que eu achasse mais difíceis ou bonitas no meu dia a dia. as difíceis, a vida me ensinou que elas nem sempre são verdadeiras. melhor é usar as fáceis com sinceridade. mas as bonitas.. ah, eu sempre amei. e quando mais velha, ter aprendido poesia me fez uma insuportável na convivência. coitado dos meus amores... porque ficaram sabendo tantas vezes das coisas bobas que eu transformava em verso, que só eram coisas banais do cotidiano. essa era a minha forma de dizer eu te amo. e tudo teria sido tão mais simples se eu soubesse simplesmente dizer. porque além de tudo, também me economizaria tempo. eu diria, a resposta viria, e aí numa condição ou outra, tocaria minha vida pra frente. eu só quis prolongar sofrimentos. eu me apaixonei por estar apaixonada, essa é a verdade. aprendi a me amar enquanto estava amando. chegou uma parte da vida em que juro, as vezes eu já nem lembrava quem era a pessoa pra quem dedicava tanto amor, eu só queria falar sobre amor. só queria contar sensações que na verdade, eu nem estava sentindo tanto assim por alguém. eu forjei tristezas que nem cheguei a experimentar porque nem cheguei a dizer o que sentia. e me sabotei pela ansiedade de saber como teria sido se eu tivesse sido... outra pessoa. uma que resolvesse tido isso de forma simples e rápida. duas coisas que nunca vou poder prometer simplesmente porque não tenho nada disso pra entregar a ninguém. eu não sei dizer eu te amo. eu só sei sentir essa porção de coisas que fazem a gente achar que ama. e vai sentindo, sentindo, até amar de verdade e se perder.