Faz algum tempo que penso sobre o significado da palavra “ningen” (“ser humano”) em japonês. Sempre achei sua etimologia muito curiosa. “人” quer dizer “pessoa”, e “間”, significa “espaço”, “intervalo”.
Ontem pesquisei na internet e li que, para o filósofo japonês Tetsuro Watsuji, o segundo kanji conota a interdependência (“betweenness”) entre os homens. Este ideograma, portanto, faria referência ao espaço que liga os homens à comunidade na qual eles vivem.
Achei a ideia bastante interessante, mas gostaria de ampliá-la. Esta semana estava lendo o diálogo de Platão “Górgias”, onde Sócrates tenta convencer seu auditório da necessidade de ser virtuoso. Em uma passagem, afirma:
“Ao que afirmam estes sábios, o céu e a terra, os Deuses e os homens são ligados entre eles por uma comunidade, feita de amizade e bom arranjamento, de sabedoria e espírito de justiça, e é por esta razão que a este universo, eles dão o nome o nome de “cosmos”.”
Os sábios a que o texto se refere são os discípulos de Pitágoras, filósofo grego que nasceu por volta do ano 570 a.C.. Em grego, a palavra “cosmos” queria dizer “boa ordem”, ou “ordem do universo”. Para Pitágoras e seus discípulos, o universo era harmonioso. O universo, por ser harmonioso, era matemático e geométrico. Os discípulos de Pitágoras procuraram, portanto, fórmulas matemáticas que explicassem o universo. Muitos anos antes de Cristo, afirmaram que a Terra era redonda, pois a esfera era a forma perfeita e portanto os corpos celestes só poderiam possuir esta forma. A relação entre a harmonia, a matemática e a geometria levou-os, além disso, à ideia de que o universo era musical. A música se torna, portanto, expressão da harmonia da natureza. Mas estes filósofos foram mais longe: não só a natureza que nos envolve, mas todo o universo seria regido por estas leis. Daí surgiu, por exemplo, a ideia da “música das esferas”, de que o movimento esférico dos planetas é musical, gera sua melodia.
Segundo esta ideia, portanto, cada elemento do universo participa desta harmonia, de onde se pode concluir que o homem, ao ser virtuoso e justo, contribui para a harmonia cósmica. Como pode ser interpretado na palavra japonesa “人間”, o ser humano ocupa um espaço que o liga não só a sua comunidade mas a todo o universo.














