A Fotografia Marginal
1. O início
Era 2014. Eu trabalhava no distrito e, no outro turno, estudava Ciências da Computação. Mal comia, mal dormia, mal trabalhava, mal estudava… mal vivia. Adoecia tentando ser “alguém”. Minha irmã precisava vender uma câmera; eu tinha algum dinheiro e comprei para ajudá-la. Usei poucas vezes, mas ela despertou um interesse que sempre esteve adormecido em mim. Sempre gostei de artes, mas como muitos artistas, fui desencorajado a seguir esse caminho. As velhas frases sobre “ter dinheiro” e “ser alguém na vida” ecoavam, e a arte foi ficando de lado.
2. Um achado
Numa folga do trabalho, peguei a câmera, entrei em um ônibus e saí para fotografar. Perto de casa vi algumas pessoas montando um palco para bandas. Fui pesquisar e descobri que era um evento recorrente. Voltei correndo, peguei a câmera e, pela primeira vez, fotografei bandas em um palco. Aquilo foi transformador. Eu não era um artista, mas podia registrar artistas — e isso me deixou vivo.
3. Pegando as manhas
Trabalhava, estudava e nas folgas procurava eventos para arriscar alguns cliques com minha Fujifilm FinePix S3200. Eu sempre tive dificuldade de comunicação, era tímido, então ficava no zoom, longe do palco. Mas ali eu encontrava paz. A pressão da vida diminuía. Comecei a liberar fotos na internet para artistas independentes, e algumas foram parar em capas de CDs, jornais e divulgações. Com o tempo — e com ajuda de umas brejas — perdi a vergonha e fui aprendendo as manhas da fotografia.
4. Fotógrafos
Por sorte sempre temos referências. De longe, acompanhava Vivi Acácio e Will Wolf, com seus trabalhos de bandas e projetos autorais. Aos poucos criei amizade, recebi dicas e me inspirei. Eles estavam sempre na rua, fotografando artistas e cenas da cidade, fazendo um trabalho incrível.
5. Queimei o barco
Chegou um momento em que eu já não aguentava mais. Queimei o barco: saí do emprego, larguei a faculdade. Eu precisava respirar. Estava à beira de um colapso, início de uma depressão. Paguei contas, comprei minha primeira câmera — uma Canon T3 — lentes, acessórios e uma boa bolsa. Guardei um dinheiro para me manter e ajudar meu pai. Decidi sair por aí fotografando bandas e tudo que me chamasse atenção.
6. A trajetória e o hiato
Conheci artistas que me avisavam sobre shows, e eu sempre aparecia. Desde 2015 comecei a fotografar tudo o que podia — principalmente bandas autorais. Eu amava ver a performance, o novo, o inesperado. Não era por dinheiro, era por prazer e por esquecer do mundo enquanto olhava pelas lentes. Vieram 2015, 2016, 2017, 2018, 2019… e então um pedaço de 2020. Sabemos o que a pandemia fez. Quase fui eu. Meu pai se foi. Dei um tempo. Vendi o equipamento. Não sabia se um dia voltaria.
7. A luz
O pós-pandemia foi duro. Morei anos só com meu pai e, depois que ele se foi, fiquei perdido, achando que talvez a fotografia tivesse me afastado dele. Era paranoia, mas doía. Resolvi focar em outra coisa e trabalhei dois anos na escola infantil da minha irmã. Nesse período reencontrei a luz — chamada Daniela. Uma colega dos tempos de escola que se tornou minha esposa. Ela sempre foi artista, desde o ensino médio. Sempre tive uma queda por ela, mas como ela era mais alta, nunca pensei que teria chance (risos). Nos reencontramos, nos alinhamos, e sempre que eu ia em eventos, sentia a necessidade de registrar. Ela participava de feiras de artistas e eu aproveitava para fotografar. Ali a chama reacendeu.
8. O retorno
Mas faltava algo. Eu nunca estava satisfeito com meus perfis nas redes sociais. Tentava postar algo para o público, mas esquecia da luz — de apreciar a luz. Outro fotógrafo entende isso. Eu precisava recomeçar. Meu nome já estava saturado. Eu precisava mostrar meu olhar real, meu lado marginal da fotografia. Excluí tudo. Recomecei. Reaprendi. Revisitei meus próprios trabalhos.
Foi assim que nasceu VENARHAN — o Caçador da Luz, ou @venarhx: o perfil onde quero voltar, postar coisas novas e antigas, olhar a fotografia com outros olhos e mergulhar novamente nas luzes e sombras.











