O momento pareceu estender-se em seus nervos, o corpo de Scott ia captando cada palpitação que vinha do coração de Verônica. Havia algo de mítico no encontro dos dois, como se nem mesmo a chuva fria fosse capaz de dar fim ao calor que o aquecia quando a abraçava. Não era só uma energia sexual, não era só desejo, era inédito em sua história. Jamais estivera tão conectado a alguém de tantas formas assim. Mesmo agora, estando com os lábios separados dos dela, os olhares cruzados e inquietos sem saber exatamente o próximo passo, ele sentia que nenhuma sensação poderia ter tamanho valor quanto aquela. Estava consciente de que era ele, e não ela, quem ditaria o passo seguinte. De certo a pegara de surpresa, e seus lábios trêmulos e olhar intenso comprovavam sua teoria. Ele podia fingir que aquilo fora só uma de suas brincadeiras nada engraçadas e sair correndo na direção do carro, deixando que ela o seguisse se quisesse sair dali, fazer de conta que nada acontecera. Não era a primeira vez que se beijavam, afinal. Houveram beijos muito mais intensos, na cama, na noite em que os flertes foram substituídos por chutes. Mas agora aquele episódio já parecia tão distante que sequer corroborava a mente agora preenchida pela imagem de Verônica coberta de chuva. Soube naquele instante que não seria capaz de fugir dali, de sair de novo da presença dela, mesmo que ela o xingasse, batesse, dissesse não ser nada disso, mesmo que ela o garantisse não querer nada além de sua servidão incondicional, Scott não fugiria. E ainda diria, com todas as letras, estar disposto a servi-la como quisesse.
Ignorando todos os possíveis desfechos que incluíam se afastar, Scott seguiu pelos caminhos que mais lhe pareciam coerentes e uniu mais uma vez sua boca à dela. Beijou-a dessa vez para apreciar os detalhes que talvez lhe tivessem fugido da primeira. Naquele momento Verônica tinha gosto de chuva e morango, e um abraço tão quente quanto um verão. Saboreava seu toque, os sentidos tão frágeis que sentia como se fosse de desmanchar. Devia ser consequência do choque térmico, o calor do peito e o frio do ambiente. Mas beijá-la pela segunda vez garantiu que ficasse bem claro a vontade na qual sua alma estava submergida. Poderia morrer sem querer admitir estar apaixonado, e a simples ideia de se sentir assim por alguém o deixava nervoso, preocupado, como se sua vida precisasse ser remodelada, suas prioridades revistas. Ele não podia se apaixonar, não assim, tão completamente. Porém mesmo tão incerto e tão inquieto, era incapaz de se afastar dela. Burlando as próprias regras ele se envolvia naquele abraço, sentindo a chuva levando consigo toda a insegurança que pudesse tentar cruzar aquele momento. Com os braços em volta do dorso da garota, a ergueu um pouquinho, deixando-a na ponta dos pés, involuntariamente. Ela tinha um corpo frágil, pequeno. Quase não lembrava do quanto ela era delicada ao ser apertada entre seus músculos. Em meio à chuva, o fôlego parecia ser mais curto, a água fria o obrigando a dar fim mais uma vez ao contato. Dessa vez manteve os olhos semicerrados, sua fronte colada à dela.
Ao abrir os olhos, deixou um sorriso falar por si, incerto sobre o que dizer. Scott Cox sempre tinha algo a dizer, mesmo que uma tremenda idiotice, mas via-se sem palavras encarando o rosto de uma garota. Por um rápido segundo pensou que pegaria o belo de um resfriado por conta daquela brincadeirinha. Em seguida, automaticamente, concluiu que valeria cada vitamina que fosse se obrigar a tomar. Não era só um beijo na chuva. Era um beijo de Verônica. — Não vai soar muito romântico, mas… nós vamos virar picolé se continuarmos aqui no meio da chuva. — Riu, comprimindo seus dedos contra o corpo pequeno daquela em seus braços. Levantou a cabeça um pouco, os lábios ficando na altura da testa de Verônica e, num gesto um tanto involuntário, pressionou-os contra ela, num beijo rápido, mas significativo. Estranhou a si mesmo por um tempo, mas logo retomou a postura, procurando pela mão da loira. — Vamos pro carro, anda. — Em sua mente nada insegura, imaginava se ao entrar no carro e ligar o motor, poderiam ficar lá, tão juntinhos quanto estavam sob a chuva, aquecendo um ao outro entre novas carícias. Ao mesmo tempo, imaginou que ela possivelmente o interromperia, reclamaria pelo cabelo desfeito, o sapato estragado, as roupas geladas coladas ao corpo e exigiria que voltassem em velocidade máxima para o internato onde pudesse dar um jeito em tudo. No momento não importava. Estava segurando a mão dela, caminhando com ela, sentindo o gosto do seu beijo na boca, o que quer que viesse depois não estragaria isso.