Acende essa porra. — falei pro amigo que me ofereceu um cigarro.
É que eu não fumava mais — não diariamente. Mas sempre que eu tomava uma cerveja, o pulmão ficava com inveja do fígado e pedia um pouco da droga que lhe convinha, a nicotina. Então Nicolas roçou seu polegar no isqueiro e, após duas baforadas, me passou o Hollywood (morrerei chamando assim, não importa o nome que ele tenha agora).
Ah, mas por que tanta força na primeira frase desse texto? É que às vezes eu teimo em parar de vez, mas sei que não é possível. Existe uma pequena curva entre o indicador e o dedo do meio que é perfeita para encaixar o cigarro— deve ser até por isso que ela existe.
Estávamos num pega bêbo ouvindo Calcinha Preta e tomando uma cerveja cujo litro custava R$ 6 reais. Essa é a vida do universitário, né? Fazer o quê?
Jovens saíam do bar para a calçada oposta, e vice-versa, numa briga com os veículos que eram obrigados a passar devagarinho devido à multidão daquela sexta-feira. Putos, os motoqueiros gritavam para que permanecessemos nas calçadas, mas elas não nos comportavam mais.
Com um pedaço de espetinho na boca, eu argumentava algo sobre a política local com tal convicção que parecia que eu realmente entendia o que estava dizendo, mas apenas tinha lido algo a respeito alguns minutos ou horas atrás. Nicolas, o meu amigo do começo dessa história, fingia que me ouvia, mas ansiava pelo término do meu monólogo, pois queria chamar “aquela preta linda” — palavras dele — para dançar antes que a música acabasse.
Foi triste o seu fim, pois a música acabara. A preta fora dançar com outro e ele parou de fingir que me ouvia. Dançamos, então, nós dois. A sola dos meus pés estavam imundas, porque eu só sei dançar descalça. O álcool escorria pelo suor que me banhava. O cabelo, colado na nuca, estava emaranhado como se nunca em sua existência tivesse notado a presença de um pente. Apesar dessa cena caótica, eu estava bem. Mais feliz do que bonita, é verdade; mas ainda gostosa. Gostosa demais,vale salientar. Porque o suor fazia meu decote brilhar e o cheiro de cerveja chamava atenção para a minha boca pintada de batom vermelho.
Notas, acredito, que não sofro de falsa modéstia. Nunca foi o propósito dessa narrativa.
Ao final do dia — ou princípio dele, visto que o sol começava a trazer seu primeiro brilho — fomos tirar o peso da cachaça na piscina. Pulamos a grade oposta à guarita da universidade e, em silêncio, mergulhamos silenciosamente. Nicolas, eu, a menina preta e o boy que dançara com ela e mais umas duas ou três pessoas que também queriam lavar a alma. Descansamos por alguns minutos. Os primeiros ônibus já começavam a passar.
Dei um mergulho e, assim que volteu à superfície, ouvi passos. E o barulho se intensificou. Todos nós saltamos para fora da piscina rindo e tremendo de frio. E, ao gritos dos seguranças, corremos todos de roupas íntimas em direção ao nascer do sol na avenida cinza.