SAMANTHA ANGELIE E FOX HELLSING
KANABAN, Porto Real, Antigo Dormitório da Guilda de Prontera. 500.
- Front Door, open. – Anunciou a voz de Alice Parker pelos alto falantes do dormitório quando entraram e tudo aquilo foi um choque para Fox.
As palavras que usaria para descrever tamanha emoção que lhe tomava mente e corpo, haviam fugido pelos cômodos da nostalgia em forma de lar. Cada poltrona, cada mesa, quadro. Estavam todos empoeirados, claro, mas cada pedaço daquele hall exalava gratidão e comodidade como Fox nunca teve em nenhum lugar em toda sua vida.
Samantha não conseguiu deixar de sorrir ao ver seu amigo tão bobo, andando de um lado para o outro, limpando o pó com sua própria mão.
- No que está pensando? – Perguntou Samantha mesmo que já imaginasse a resposta, mas queria ver Fox tentar responde-la.
Ele só conseguiu rir em resposta. Mas não fora uma risada simples. Era realmente uma gargalhada, feliz, alegre. O tipo de sentimento que Samantha não tinha contato fazia muito tempo, tanto em Fox Hellsing como em todos os seus companheiros que não tinha contato há quase um ano, desde que toda a comunicação entre eles foi comprometida depois dos feitos de An Liu.
- Você não tem ideia do que tudo isso significa pra mim não é mesmo? – Ele passou correndo para o outro lado do dormitório, direto pra adega – Esse aqui era o lugar preferido de Vincent Valentine antes de ele se tornar um irmão. Ficava tomando vinho aqui com Ryu! Dá pra acreditar?
Samantha riu, parecia realmente uma piada ouvir tudo daquela forma, mas o mais engraçado mesmo era ver como o sentimento de Fox vencia o tremor da palavra do inimigo, fazendo-a soar tão confortável a ponto de criar humor com ela.
O vampiro entrou mais adentro nos cômodos, rindo alto.
- Psh, Fox, não faça muito barulho. É perigoso.
- Kanaban está abandonada há muito tempo. Fica traqui... Caralho meu quarto! – disse ele escadas acima. – MINHA GUITARRA!
Samantha soltou um riso debochado, passando pelo hall e notando os quadros que existiam ali. Conhecia aqueles modelos. Eram bastante vendidos no World Shop como transfiguradores de casa. Podiam transformar um prédio inteiro em outras construções distintas com um simples toque e uma senha digital.
Era uma surpresa para ela que o prédio todo permanecia de pé, mesmo com tantos ataques em Kanaban, sem nenhum pudor, ela imaginava que demolir o prédio com mísseis e bombas, era declarar o silêncio para todo o planeta. Forçar a morte da esperança de todos que viviam ali. A Torre de Prontera. O domitório dos guildantes mais respeitados, temidos e amados em toda a galáxia.
Kanaban agora era cinza. Sem vida. Sem luzes de LED e sem hologramas saindo de todos os cantos. Os prédios que antes televisionavam as notícias e propagandas de novos equipamentos e mercadorias do World Shop, agora eram ruínas de poeira, concreto e vigas de aço que ainda se sustentavam. Haviam pedaços humanos e alienígenas espalhados na praça central de Porto Real, no bosque das cerejeiras, e nenhum navio chegava ou partia do porto havia mais de um ano.
Era inacreditável ver como cada centímetro da Guilda Pronteriana estava intacta, a não ser por algumas janelas quebradas e muita poeira impregnada. Os móveis pareciam estar todos no lugar certo. A única coisa que parecia errada alí, era Samantha.
- Caramba, eu queria tanto que Júlia e Hashirama estivessem aqui pra eu mostrar pra eles tudo isso. O quarto dela ainda tem o cheirinho dela! É docinho, mas tem algo que faz lembrar uns livros e suéteres velhos.
Fox descia as escadas galopante e sorridente.
- Pegou o que você queria? – disse ela friamente, de repente. Esperou logo em seguida que o amigo não tivesse notado.
- Peguei sim. Mas, ei... – ele foi até ela, numa velocidade sobre-humana, que Samantha já havia se acostumado. A tomou pelo braço e disse delicadamente – O que foi?
Ela desviou o olhar. Era tão ridículo aquela situação toda. E por pensar o quão ridícula estava sendo, foi ainda pior pois não conseguiu evitar de deixar as lágrimas de se formarem. Ela se odiava de novo, como se tivesse quinze anos.
- Samantha! – repreendeu Fox, sendo incrédulo, tolo e obviamente sem entender o que passava pela cabeça dela.
Ela odiou ainda mais o momento por ter que se explicar. Por precisar explicar uma dor que ela mesmo julgava besta. Aquilo estava virando um complô de merdas.
Desistindo de tentar se esquivar, ela deixou escapar as palavras que sempre a esmagavam.
- Eu não pertenço a este lugar, Fox. Eu não sou uma Pronteriana. Eu consigo admirar o amor que vocês sentem uns pelos outros, mas eu fui alguém que vocês salvaram, e tanto como gratidão, como por opção, continuei com vocês...
“Fox, se não fosse por você. Eu estaria morta. Por mais que tenhamos feito tudo isso antes, eu nunca dormi em um desses quartos! Eu nunca acordei de manhã e desci para me juntar a vocês para tomar um chá aqui em Porto Real. E o tempo de fazer isso ser possível, já foi. Os inimigos continuam achando que sou apenas mais uma exploradora da Tchoso Redan, e sabe... é exatamente isso que sou.”
Ele quis interrompe-la, pensou até em agredi-la para que parasse, mas por mais que ele não entendesse a dor dela.
- Olha... eu sei bem o que vai dizer... – ela continuou quando ele abriu a boca. – Em algum momento, eu...
Mas ela foi interrompida, mas não por Fox. Por Alice.
Eles não pensaram. O drama todo se dissipou. O treinamento entrou a tona. Armados. Escondidos. Esperando.
Quem será que podia ter entrado no prédio Pronteriano? Kanaban era um planeta fantasma havia muito tempo. Não haviam dúvidas para Fox e Samantha que sequestradores mais espertos ou até mesmo os caçadores de recompensa de Jenova podiam tê-los seguido ou colocado câmeras e escutas no antigo dormitório caso algum deles retornassem para buscar alguma coisa.
Esperam que a porta da adega que vem dos fundos se abra, na esperança de encontra-los, mas o que acontece é bem menos esperado. Ela explode, e a sala inteira se enche de fumaça.
O faro aguçado dos vampiros entram em ação e filtram o ar, conseguem sentir o cheiro de suor humano. Samantha é rápida, pega suas lâminas e corre na direção de onde sente o cheiro, mas sua inimiga também é veloz. Suas armas se batem com um baque de metal com metal e só pela força com a qual o inimigo rebateu o golpe, Samantha reconhece Sarah Alopay. Não veio sozinha. Naquele momento, Fox já batalhava com Jago Tlaloc.
Sarah tenta acertar um chute no abdômen da vampira, mas ela se esquiva para a direita e acerta uma cotovelada potente no músculo reto femoral na coxa de sua oponente.
A garota fica de joelhos com a dor excruciante. Sente que nunca mais vai andar de novo.
- Samantha, por favor não me mate, você sabe que não fazemos por mal. Eu tenho a minha família, e...
Ela deixa a caçadora terminar, chuta seu ombro com força brutal e sente seus ossos estalarem, os músculos se atrofiarem. Sarah cai no chão batendo sua nuca e cospe sangue para o alto. Algo em seu peito também fora fraturado.
- Escute bem Sarah, quero que entenda o motivo. Se eu não te matar agora, você vai continuar caçando eu e meus amigos. Até que mate um deles, ou até que eu te mate agora e dê um fim a isso.
- Eu entendo. – Chora Sarah.
Samantha finaliza com um movimento rápido da lâmina, sangue é espalhado pelo tapete sala.
Ao seu lado, a poltrona marrom é desintegrada com o som de um dos tiros dados por Fox, e a força do impacto faz a guildante ser arrastada para trás e bater de leve as costas contra a parede.
- Fox?! – chama ela, agora que o cheiro de Jago e Fox já estavam misturados na sala. – Alice, ligar coifas da cozinha e abrir janelas.
- Yes, ma’am, Emily – respondeu a operadora de tudo na casa. E em alguns segundos, tudo estava claro.
Fox tinha o rosto muito vermelho, de tantos socos e chutes que recebera de Jago. Suas mãos estavam deformadas, com os dedos todos quebrados, alguns em fraturas expostas. Os falanges rasgavam pele e carne de Fox, deixando exposto para fora de sua mão.
Jago rodopiou no ar e deu um chute certeiro no diafragma de Fox, fazendo seu corpo ser arremessado pela sala vários pés, atingindo um espelho próximo do elevador. Os estilhaços refletores voaram para todas as direções.
Samantha não achou que em tão pouco tempo, o amigo pudesse ficar numa situação tão lastimável. Estaria morto se ela não estivesse ali.
A vampira se atirou entra Jago e Fox, recebendo o próximo soco do caçador, ao invés de Fox. E para a surpresa, de todos, até mesmo de Samantha. Ela não fora arremessada para trás de encontro com Fox e nem sequer caíra. Estava de pé. Firme.
Seria ridículo fingir que o soco não doera. Jago era incrivelmente forte. Tão forte como um vampiro mas não tão ágil.
Ela bateu em seu braço com força para se livrar da incrível energia que a jogava para trás no peito, aonde ele atingira ela, e sentiu doer como nunca sentira na vida, mas mesmo assim continuou, chutando-o no queixo.
Jago sentiu o maxilar virar ao contrário e a carne que fazia liga em sua mandíbula ceder enquanto era jogado para trás, ao mesmo tempo que caia no chão, a mesma lâmina que matara Sarah Alopay tirava a vida de Jago Tlaloc.
- Caramba! Que socão. – riu Samantha sentindo a dor horrível no peito.
- Como sempre você me deixou com o mais forte... – caçoou Fox vendo a regeneração rápida dos vampiros colocar todos seus dedos em ordem.
Samantha virou os olhos. Nunca ia se acostumar a ver aquilo acontecer.
- Hehe, você é bem fresquinha. Parece humana.
- Eu só tenho só três anos sendo uma vampira, me dá uma trégua. E não sou fresquinha.
Só então Fox reparava no estado de Sarah e Jago.
- É, tenho que admitir que você não é assim tããão fresca. – ele se levantou e falou para as paredes: - Alice...
- Quero um vinho, por favor.
Uma taça de vinho escorregou da adega, andou por uma esteira lateral que ficava em um corrimão plano e parou na frente do balcão da sala.
Samantha se juntou a Fox, e ajeitou a franja do amigo que estava quase em cima dos olhos. Ele fitava ela por trás dos fios de cabelo branco enquanto sorria. Impediu que continuasse segurando sua mão, mas não deixou de olhar para ela com ternura.
- E então. – Sorriu ele, sacana. – Estamos quites hein, você me salvou.
Fox tomou um gole da taça cheia e então disse.
- Sabe, Sam. Quando eu cheguei aqui, era um fedelho. Eu nunca tinha enfrentado alguém na vida antes. Alguém que fosse realmente mais forte ou tão forte quanto sou. Mas sabe, quando cheguei aqui, todos eram mais fortes do que eu. Até mesmo Júlia que tinha só quatorze anos de idade.
Samantha não conseguiu deixar de rir.
- O que? É verdade, Sam! Aquela pirralha colocava todo mundo no chinelo com as engenhocas dela. Você quer saber do que mais?
Ela esvaziou a garrafa dela, como se tomasse em um copinho com tequila.
- Essa casa que você está agora foi construída com memórias de cada integrante. Somos um só.
Ele gentilmente arregaçou a manga da blusa de Samantha até que a tatuagem do P de Prontera ficasse visível.
- Você tem alguma dúvida do que você representa para nós e do que você é desse segundo até o último dia da sua vida? Seu lugar é conosco.
O corpo de Sarah e Jago estavam lamentáveis no chão, cobertos por poças de sangue.
- Eu sou uma Pronteriana.
Fox sorriu, com toda sua malicia.
- Vamos dar o fora daqui.
(ESCUTE ATÉ O FIM DA FAIXA 3)
Para Beatriz Ribeiro Munhoz, obrigado por estar conosco até hoje. Você será SEMPRE uma de nós <3