Há tempos não escrevo aqui, pois deixei o Canadá há alguns anos. Aqui vai uma pequena atualização.
2012 foi um ano muito especial para mim. Foi um ano que iniciou com uma viagem à Patagônia. Nessa mesma época, eu aguardava ansioso o resultado da seleção de meu doutorado na McGill University—por essa razão, chequei meu email dezenas de vezes ao longo da viagem.
Ao voltar da Argentina, recebi a tão esperada notícia: havia sido aceito no programa de doutorado em linguística, e começaria meus estudos em agosto na bela cidade de Montreal. Eu até sabia que aquele email, que aquela notícia, seria um “divisor de águas” na minha vida. Contudo, não imaginava que o divisor seria tão imenso; que o efeito borboleta daquele aceite mudaria tanto a minha vida—para melhor.
Entre a notícia e minha saída do Brasil, defendi meu mestrado, conheci minha atual esposa, e visitei a Austrália e a Nova Zelândia na companhia de um grande amigo que hoje vive no Canadá. Tudo isso ocorreu nos primeiros 6 meses de 2012. Posso dizer, portanto, que 2012 foi um ano intenso.
O segundo semestre desse ano especial começou com minha saída definitiva do Brasil, seguido de uma viagem aos EUA a trabalho, e de visitas de minha esposa (então namorada). O ano acabou com um Natal em Québec City, uma cidade simplesmente inesquecível...
Desde 2012, muita coisa aconteceu. Virei cidadão italiano (depois de longos anos de processo); terminei meu doutorado; fiz diversas viagens a congressos; casei; virei cidadão Canadense; escrevi artigos, capítulos, tese, livro. Em 2018, imigrei aos EUA, e alguns anos mais tarde, compramos nosso apartamento. Em 2021, viramos residentes permanentes no país. Em seguida, recebi uma oferta de emprego no Reino Unido, larguei tudo, e me mudei novamente (nunca desejei passar minha vida nos EUA, honestamente).
Ter saído do Canadá em 2018 foi triste. Apesar de estar feliz em ter conseguido um bom emprego nos EUA, ter de sair do país que eu havia escolhido realmente não foi fácil.
Por tudo isso, o ano de 2022 é um ano especial; um ano comemorativo de tudo aquilo que ocorreu há 10 anos, naquele ano espetacular de 2012. Além dessa comemoração, contudo, o ano de 2022 também marcará o ano em que finalmente voltarei ao Canadá, pois acabo de aceitar um emprego permanente de professor na Université Laval, em Québec City.
É inacreditável que, após 10 anos, passaremos o Natal na mesma cidade onde estivemos juntos naquele primeiro inverno canadense. Desta vez, porém, estaremos na nossa cidade, no nosso país. Depois de 10 anos, finalmente estarei no país em que quero estar—e isso não tem preço.
Essa é uma pergunta que recebo frequentemente, então vou postar uma resposta relativamente geral aqui. Gosto muito da carreira de docência e pesquisa no ensino superior, então minhas opiniões são geralmente bastante positivas. Adoro pesquisa, e gosto muito de discutir com alunos nas disciplinas que ministro. Ir a congressos e trocar ideias também é algo bastante enriquecedor. De um modo geral, a vida dentro de um campus oferece inúmeras vantagens, a começar pela atmosfera acadêmica. Sei que tenho um bias bastante positivo, então abaixo foco apenas nos fatos, e não em minhas opiniões. E os fatos, infelizmente, não são animadores hoje em dia: não porque a profissão não é super interessante, mas porque conseguir “chegar lá” tem ficado cada vez mais difícil.
A primeira coisa é entrar em um PhD de uma boa universidade. A concorrência vai depender da área; na minha, nos lugares que conheço, é comum que haja 150-200 candidatos para 5-10 vagas em um bom PhD (“bom” é uma palavra importante aqui).
Um PhD dura, em teoria, 5 anos (aqui na América do Norte). Na prática, a coisa é bem diferente: metade das pessoas que iniciam um PhD em humanas não termina o programa em 10 anos (e, talvez, nunca terminarão—mas não há muitos dados sobre isso). Ou seja: terminar o programa já é algo desafiador (as razões são várias, e incluem suporte financeiro e acadêmico, incertezas do mercado em si etc.). Mesmo que alguém consiga terminar em 9 anos, essa pessoa certamente terá problemas para conseguir emprego (já que demorou tanto). Ou seja: não basta terminar; é preciso terminar bem, e, de preferência, em menos de 7 anos.
Quem consegue concluir o doutorado (PhD) pode, então, fazer seleções para vagas permanentes de docência em nível superior (equivalentes ao concurso público para professor universitário em uma universidade pública no Brasil). Essas vagas são chamadas de tenure-track e precisam ser anunciadas pelas universidades (algo que geralmente ocorre entre setembro e novembro para início em agosto do ano seguinte). Essas vagas são raras (bem raras), e altamente competitivas. Para cada vaga tenure-track, o número de candidatos pode variar entre 50 a 500 (ou mais, mas nunca menos do que uns 50). Ou seja: é bem comum ter 100 candidatos para uma única vaga (lembrando que dezenas desses 100 candidatos têm PhDs de universidades super renomadas). Vagas tenure-track são raras por várias razões (uma delas é o fato de que pessoas com tenure não querem se aposentar, já que o emprego tem diversas vantagens; outra é que custam caro para a universidade). Quem entra em uma tenure-track vira Assistant Professor, equivalente ao Professor Adjunto no Brasil. Essa é a primeira categoria da carreira—não confundir Assistant Professor (que é um professor) com Teaching Assistant, que é um aluno de mestrado ou doutorado que dá assistência ao professor (corrigindo provas e trabalhos, atendendo alunos, dando aulas de revisão etc.).
Por essa razão, a maioria esmagadora dos doutores (eu diria ±90% dos recém doutores) não conseguem uma vaga permanente, e acabam assumindo vagas temporárias ou contratos de aula em diferentes universidades. Alguns conseguem um estágio de pós-doc, e portanto continuam seus estudos e sua pesquisa para, depois, tentar uma vaga permanente novamente. A dura verdade é que muitos irão de vaga em vaga, com contratos curtos, sem muitos benefícios ou garantias, até que desistam da carreira acadêmica depois de ficarem anos ganhando pouco e trabalhando muito.
Ser professor temporário é geralmente ruim: o salário não é ideal, e a carga de aulas é grande, o que significa que há menos tempo para pesquisa. O resultado é simples: sem pesquisa, há pouca melhora no currículo, o que por sua vez reduz ainda mais as chances de se conseguir uma vaga permanente (que sempre exige forte pesquisa em um CV). Sem pesquisa, não há tenure-track (existem algumas vagas bem raras que só exigem ensino; são chamadas de teaching stream positions, e existem em pouquíssimos lugares). Por isso, um pós-doc é melhor (ou pode ser melhor) do que uma vaga de lecturer ou adjunct, já que tu tem mais tempo pra pesquisa (pensando em uma futura vaga tenure-track).
Ou seja: o objetivo ideal deve ser uma tenure-track position, da mesma forma que o objetivo principal no Brasil são vagas em universidades públicas. Mas é preciso saber que as chances de se conseguir uma vaga dessas são bem pequenas. Eu diria algo em torno de 10% de probabilidade para alguém que fez um bom PhD e tem um currículo competitivo. É importante lembrar que pessoas do mundo inteiro concorrem para vagas em PhDs e, mais tarde, para vagas tenure-track (todos querem vir para a América do Norte, seja para cursar o PhD, seja para ser professor). É comum fazer 20, 30, 50 seleções e não conseguir sequer uma entrevista. Escrevi um pouco sobre isso aqui. No link existem vários links para artigos que falam sobre esse problema: muitos doutores, pouquíssimas vagas, pessoas altamente qualificadas decepcionadas e frustradas etc. Pense só: passar 5, 7 anos estudando e descobrir que a chance de conseguir a vaga que se quer é tão baixa. Quem termina um PhD geralmente tem uns 30 anos (na melhor das hipóteses), e nessa fase geralmente não queremos incertezas financeiras.
Poucos alunos que iniciam um PhD sabem sobre isso que escrevi aqui em cima—eu mesmo não sabia em 2012, quando comecei meu PhD. Normalmente, as pessoas acham que ao terminarem o PhD terão um emprego quase que garantido (isso era verdade há muito tempo atrás). Ao fim do programa, quando começam a fazer seleções, se frustram—isso é bem comum. Eu conheço pessoalmente colegas que fizeram PhDs em lugares renomados e que continuam sem uma vaga permanente.
No Brasil também não é fácil, é claro, mas a diferença é imensa: aqui, carreira acadêmica é algo insanamente concorrido, e tem se tornado algo bastante improvável, apesar das diversas vantagens que a carreira oferece.
Quando comecei minha graduação, meu critério de análise de um Lattes era simples: quanto maior, melhor. Embora esse critério seja ingênuo e certamente inapropriado, ele reflete um pouco um sistema acadêmico que favorece quantidade à qualidade.
Se você está começando sua graduação ou seu mestrado, é útil saber avaliar a qualidade de um Lattes. Isso certamente ajudará na escolha de orientadores e professores ao longo da sua caminhada acadêmica.
Aqui vão as três coisas, em ordem de importância, que você deve olhar em um Lattes.
Antes de mais nada, saiba qual a nota Capes do programa de pós-graduação onde o pesquisador trabalha. Se for 6 ou 7, há mais expectativas sobre a qualidade da pesquisa sendo realizada naquele programa.
1. Publicações
Publicações são, sem dúvida alguma, o critério mais importante para avaliarmos um professor que faz pesquisa. Não é possível ser um bom pesquisador sem ter boas publicações. Portanto, a primeira coisa que você quer olhar são os artigos publicados. Preste atenção, é claro, na qualidade do periódico no qual o artigo foi publicado. É um periódico local? Nacional? Internacional? Quanto mais proeminente o periódico, mais valor agregado a publicação terá. As publicações estão todas em português? Há publicações em inglês? Qual o tamanho dos artigos? Como esse tamanho se compara a artigos em bons periódicos da sua área?
Também preste atenção no que foi contado como artigos em periódicos. Teoricamente, esta seção é dedicada a publicações com revisão de pares. Na prática, a coisa pode ser bem diferente. Também tente encontrar as publicações listadas. Elas estão disponíveis online? São artigos de fato, ou apenas discussões que revisam a literatura?
Uma forma simples de avaliar a qualidade da revisão de pares é a seguinte: veja a data da submissão do artigo e compare com a data de aceite. Em minha área, Linguística, periódicos de qualidade levarão muitos meses até publicarem um artigo aceito. Não é incomum ver um artigo que demorou 2 anos para ser publicado. Isso ocorre porque a revisão de pares é extremamente rigorosa, e passa por diferentes etapas.
2. Apresentações em congressos
Depois de publicações, a segunda coisa que você quer ver são os congressos em que trabalhos foram apresentados. Há apresentações em congressos internacionais? São congressos importantes na área? Em uma busca rápida no Google, você facilmente descobre quais os melhores eventos na sua área.
Naturalmente, ir a congressos á algo caro. Portanto, não utilize este critério como fator mais importante na avaliação da qualidade da pesquisa de alguém. Você pode ter uma pesquisa brilhante e não ter condições financeiras de apresentá-la em outros países. Porém, você pode publicá-la em periódicos excelentes. Por essa razão, a prioridade na análise deve ser a qualidade dos artigos publicados, número 1 aqui em cima.
3. Formação
Por fim, dê uma olhada rápida na formação do pesquisador. Isso pode ser indiretamente útil, pois um pesquisador que estudou no exterior pode ter ligações interessantes com outros departamentos, o que pode proporcionar oportunidades acadêmicas valiosas a futuros orientandos.
Um adendo
Lembre-se, é claro, de que professores precisam publicar. Há uma demanda quantitativa. Por essa razão, é difícil optar por um periódico excelente com revisão demorada quando a alternativa são periódicos simples com revisão rápida. Portanto, lembre-se de que, em um sistema que visa à quantidade, é difícil almejar qualidade sempre. Contudo, se um pesquisador de um programa nível 6 ou 7 jamais publica em periódicos internacionais, você deve se perguntar por que isso ocorre. Afinal, programas 6 ou 7 são (ou deveriam ser) o que há de melhor no Brasil.
Informações sobre processo seletivo, auxílio financeiro e o trabalho que envolve realizar um Phd / Doutorado no Canadá. Site do Guilherme Duarte Garcia: http...
Minha entrevista no canal Pós-graduação/Carreira universitária sobre Doutorado no Canadá.
Quando você é aceito para um PhD, parte do seu ego pensa que as coisas estão “resolvidas”. Afinal, passar na seleção é difícil, e você conseguiu. Com o tempo, você percebe que, na verdade, a entrada é a parte mais fácil.
Alunos que entram em um PhD raramente têm conhecimento das duas dificuldades que saliento abaixo. Ao longo do programa, contudo, todos acabam entendendo exatamente quais serão os principais desafios.
Dificuldade 1: Terminar o programa
Na América do Norte, apenas 50% dos alunos que iniciam um PhD conseguem terminá-lo. As razões são inúmeras, e geralmente vão muito além da possível “incapacidade intelectual do candidato”. Razões mais frequentes são: falta de motivação, estresse psicológico, suporte insuficiente por parte do orientador, e ausência de amparo financeiro.
Diferentemente da Europa, onde PhDs podem ser curtos (±3 anos), um Doutorado na América do Norte pode ser longo—muito longo. Dê uma olhada no gráfico abaixo: em áreas como Matemática e Física, apenas 30% dos alunos de PhD concluem o programa até o sétimo ano. Sim, sétimo. Nas Humanas, menos da metade termina ao longo de 10 anos. Não preciso salientar que isso é muito tempo.
O que fazer?
Se você quer entrar em um PhD por aqui, primeiro pesquise sobre o departamento de interesse. Qual a porcentagem de alunos que conseguem concluir o programa? Quanto tempo levam, em média? Muitas vezes essas informações são disponibilizadas no próprio site do departamento—isso já é uma boa notícia, porque nenhum departamento irá querer fazer propaganda negativa sobre si mesmo. Caso o departamento que você queira não disponibilize esse tipo de informação, entre nos currículos de ex-alunos (normalmente você consegue ver o nome de pessoas que fizeram o PhD no departamento dentro do próprio site, na seção alumni).
Também é importante conversar com alunos do programa. Pergunte como é a relação entre eles e seus respectivos orientadores; com que frequência se reunem para discutir a pesquisa do aluno; qual o suporte financeiro para viagens que o departamento oferece; etc. Descubra o máximo que conseguir antes de aplicar. Faça isso com alguns departamentos, para maximizar suas chances de ser aceito em pelo menos um.
Dificuldade 2: Arranjar um emprego acadêmico
Se você não quer um emprego acadêmico, obviamente não precisará lidar com esta dificuldade. Em várias áreas, pessoas fazem PhDs e não pretendem permanecer na academia.
Já escrevi sobre isso recentemente (aqui e aqui), então não vou me repetir muito. No Canadá, se levarmos em conta todas as áreas, somente 20% daqueles que terminam um PhD conseguirão um emprego acadêmico. Nos EUA, esse número não é muito diferente. Acredite: é muito mais difícil conseguir um emprego acadêmico do que a) entrar em um PhD e b) terminar o programa.
O principal problema é que houve um aumento considerável no número de graduate students nas últimas décadas. As vagas para professor, por outro lado, aumentaram muito menos (e normalmente dependem da aposentadoria de professores). Logo, cada vaga será disputada por 50, 100, ou até 500 candidatos, dependendo da área, especialidade, e universidade.
A verdade é que países mais desenvolvidos terão mais Doutores, o que significa mais competitividade. Se você quer permanecer na América do Norte (ou ir para a Europa/Oceania), isso certamente será um problema. Se, por outro lado, você estiver disposto a se mudar para lugares menos óbvios (e.g., China, Tailândia etc.), a situação pode ser consideravelmente melhor.
Esta semana defendi minha tese de doutorado (PhD), depois de 5 anos de muito trabalho. Com isso, encerro provavelmente o ciclo mais importante da minha vida (o mais definidor com certeza). Decidi, então, escrever um último post sobre pós-graduação enquanto aluno—talvez haverá outros, em um novo blog, sobre ensino superior... quem sabe?
Listo aqui as 9 coisas que um aluno de PhD precisa fazer. Me baseio, é claro, no meu caso como exemplo. Há variações de acordo com a área. Aqui vai um resumo das 9 coisas que fiz.
1. Cursar disciplinas
Os primeiros dois/três anos do meu PhD envolveram cursos e mais cursos. Fiz exatamente 20 disciplinas, distribuídas em três áreas: linguística, estatística, e lógica. O primeiro ano foi exclusivo para isso. A partir do segundo, tive de fazer outras coisas concomitantemente (ver abaixo).
2. Escrever, revisar, e escrever mais
Obviamente, fazer um PhD significa escrever muito. Não sei quantas páginas escrevi entre trabalhos de fim de disciplina, artigos de avaliação, artigos para publicação, revisões, relatórios, aulas preparadas... e, é claro, a tese—sem falar nas milhares de linhas de código em Python e R para análises quantitativas e scripts em geral. Algo entre 500 e 1000 páginas de texto, talvez? Revisar um artigo diversas vezes é cansativo, mas não tem como escapar disso.
3. Dar aulas
Dei uma disciplina como professor, e três como assistente de professor. Ser assistente envolveu dar uma/duas aulas semanais, ter office hours para tirar dúvidas de alunos, corrigir exercícios e provas, etc. O pacote oferecido em nosso departamento na McGill exige que cada aluno de PhD seja teaching assistant por (idealmente) 4 vezes—ser professor vale por 2.
4. Fazer seleções para bolsas
Mesmo que você tenha 5 anos garantidos de bolsa do seu departamento (meu caso), você quer concorrer a bolsas externas, que têm mais prestígio. Fazer isso significa gastar horas e horas em applications, que envolvem dezenas de páginas e revisões.
5. Ir a congressos
Fui fisicamente a aproximadamente 30 congressos ao longo de 5 anos; quase todos na América do Norte ou na Europa. Digo “fisicamente” porque, em alguns casos, seus coautores vão, e você fica. Ir a congressos é uma parte fundamental na carreira acadêmica. Para isso, você precisa de tempo: escrever resumo, fazer seleção para auxílio financeiro, preparar apresentação, reservar hotel, pagar inscrição, comprar passagens, fazer relatório de despesas após voltar... e tudo recomeça. Ao mesmo tempo, você está longe por 3-5 dias, o que significa que seu trabalho usual acumula—mesmo que você decida trabalhar ao longo do congresso, o que raramente funciona, ir a congressos sempre significa “atrasar” um pouco seu trabalho. Tudo isso por uma causa importante, é claro.
6. Defender artigos
Defendi dois “artigos de avaliação”, como são chamados. No fim do segundo ano e no fim do terceiro ano. Você precisa, basicamente, realizar dois estudos originais e que sejam publicáveis, ou apresentáveis em bons congressos. Idealmente, um desses artigos dará origem à sua tese.
7. Escrever e defender tese
Os últimos dois anos do PhD são destinados à escrita da tese. “All But Dissertation”, ou ABD, é uma expressão que causa um certo medo em algumas pessoas. É comum “empacar” no fim. Dois anos trabalhando em uma tese pode parecer bastante, mas é fácil perder o controle e a disciplina necessários para fazer a coisa acontecer de fato.
8. Fazer seleções para vagas acadêmicas
Meus últimos 15 meses foram marcados por seleções acadêmicas; muitas seleções. Essa parte é, talvez, a mais estressante de todas. Seu PhD está chegando ao fim; seu futuro é incerto; e em breve sua bolsa vai acabar. Para piorar, cada vaga no mercado acadêmico tem de 50 a 100 candidatos (em minha área). Tudo isso exige bastante do seu lado psicológico—e lembre-se que, ao mesmo tempo, você está escrevendo sua tese.
9. Aprender a lidar com o fracasso
É impossível fazer as 8 coisas anteriores se você não aprender a lidar com o fracasso. O fracasso de não entender; de não conseguir passar em uma seleção; de receber duras críticas de revisores anônimos—ou conhecidos. Tudo isso faz parte, e certamente pode exigir mais do que a própria dificuldade intelectual intrínseca de um PhD.
Em minha tese (em breve estará em meu site), agradeço a diversas pessoas e órgãos. Principalmente, a Heather Goad (minha orientadora), Morgan Sonderegger, e Lydia White (membros de minha comissão da tese ao longo do PhD). Minha esposa, Natália B. Guzzo, também doutora em linguística, teve um papel fundamental (acadêmico e pessoal) para que eu conseguisse terminar tudo em cinco anos.
Foi um privilégio trabalhar rodeado de tantas pessoas excelentes, e tive, sem dúvida, muita sorte em ter tido todo o suporte que tive no Departamento de Linguística da McGill; do Fonds de recherche du Québec (FRQSC), da Faculty of Arts da McGill, e do Centre for Research on Brain, Language and Music (CRBLM). Conquistas complexas são sempre compartilhadas.
Comecei este blog logo que me mudei para Montreal, em 2012. Na época, embarcava no PhD em Linguística aqui da McGill. Semana passada, depois de cinco anos, submeti minha tese—que defenderei dia 2 de agosto.
Ao todo, foram 194 páginas, 35 figuras e 16 tabelas. Optei por uma paper-based thesis. Neste tipo de tese, você unifica artigos que sejam coerentes entre si, conecta esses artigos com linking bits, e adiciona introdução e conclusão gerais. Minha tese, por exemplo, tem três capítulos principais (três artigos). Cada capítulo-artigo é independente, e pode ser lido de forma individual. Leia mais neste link: Manuscript-Based (Article-Based) Theses.
Por que não escrevi uma tese tradicional?
Qualquer pessoa no mundo acadêmico sabe que o que realmente importa são artigos publicados. Poucas pessoas lerão a sua tese de 200 páginas. As duas principais vantagens de uma tese paper-based são as seguintes:
1. Todo capítulo foi ou será publicado individualmente como artigo
2. Sua tese é concisa: cada capítulo tem início, meio, e fim
Em uma tese tradicional, por outro lado, você normalmente tira um artigo (o famoso “artigo da tese”), e o publica em algum periódico. Muitas vezes, uma tese tradicional carrega dentro de si apenas um estudo. A esse estudo, você adiciona revisão de literatura—que normalmente costuma ser bastante longa em teses brasileiras na minha área. Sim, algumas teses terão diversos experimentos, é claro, mas a maioria das teses gira em torno de um ponto central. Consequentemente, o output da tese costuma ser um artigo.
Já uma tese paper-based terá necessariamente mais de um estudo—mas os estudos precisam tocar em uma hipótese geral; ou seja, precisam estar intimamente relacionados. O número de estudos neste tipo de tese é idêntico ao número de capítulos. Isso significa que cada pedaço da sua tese será aproveitado ao ser transformado em um artigo publicável e independente. Por que isso importa? Simples: o principal objetivo deve disseminar as suas ideias. De nada adianta ter uma tese boa se ninguém a lê. Além disso, uma tese paper-based é, por definição, concisa—e concisão é uma característica importantíssima na ciência.
Today’s post is about how to create your own commands in LaTeX to make your code cleaner and, crucially, more efficient. Criando seus próprios comandos Uma das grandes vantagens de utilizar LaTeX é a possibilidade de criar os seus próprios comandos (ou ajustar comandos já existentes). Vamos a três exemplos. Símbolos IPA Vamos começar com algo bem simples. Você já deve estar familiarizado com…
3 textos que você precisa ler antes de começar um PhD
Eu poderia escrever por horas sobre o lado positivo de se fazer um PhD. Meus 5 anos aqui na McGill foram, sem sombra de dúvida, os anos em que mais cresci e aprendi em minha vida—não apenas sobre minha área, mas sobre como argumentar, como escrever artigos acadêmicos, como fazer análises quantitativas, programar etc. etc.
Estar constantemente aprendendo é algo ótimo. Em um PhD você está sempre rodeado de pessoas bastante inteligentes, e isso agrega muito, dependendo de como você encara a coisa toda. Também há congressos, em que você não só tem a chance de apresentar sua pesquisa a outras pessoas, mas também acaba fazendo novos contatos e, é claro, conhecendo novos destinos.
Sempre tive uma enorme satisfação em mergulhar em um assunto e tentar não apenas aprender muito sobre esse assunto, mas, também, em contribuir com o conhecimento já estabelecido na área. Afinal, fazer um PhD significa criar algo novo; mostrar que uma análise ainda não entretida é superior ao que já foi feito. Enfim, há inúmeras vantagens, e me sinto privilegiado em ter feito tudo isso.
Quero, aqui, sugerir textos que expõem o outro lado desta história (tudo tem dois lados). Os problemas que quero salientar com esses textos estão concentrados em um tema comum: mercado de trabalho acadêmico. Há outros aspectos que outras pessoas também pontuariam como negativos, mas este é, sem dúvida, aquele que mais assombra quem está neste momento acabando um PhD. Boa leitura.
Falo da América do Norte, em particular do Canadá, mas o que listo abaixo pode servir tranquilamente para qualquer destino desenvolvido que você escolha como novo lar.
1. Colete informações
Isto pode parecer óbvio, mas recebo dezenas de emails e mensagens com perguntas básicas. Talvez seja preguiça; talvez ingenuidade. O fato é que menos de 10% das pessoas que me contatam têm perfil para imigrar. Se você precisa me perguntar algo simples sobre como fazer medicina no Canadá, você provavelmente não fará medicina no Canadá. Vamos ser sinceros.
Pesquise sobre sua área, sobre custo de vida, salários. Use fontes confiáveis: países desenvolvidos têm sites governamentais com estatísticas. Usar o “IBGE” canadense será bastante útil. Por exemplo, se você não tem noção de quanto vai ganhar, há uma grande chance de os seus planos desmoronarem rapidamente. Existem coisas que sempre serão incógnitas: afinal, não dá para saber tudo antes mesmo de pisar no destino final. Contudo, certas coisas são básicas, e você precisa ter uma noção muito boa do que está fazendo.
É inadmissível que na era da informação, com o Google à sua disposição, você não saiba a média salarial real do país onde quer morar; ou o custo médio de um imóvel; ou a taxa de juros de hipoteca. Tudo isso é encontrado em segundos no Google.
2. Converse com pessoas da sua área que já imigraram
A melhor forma de ter uma noção da realidade é conversar com pessoas que têm um perfil similar ao seu (e que fizeram o que você pretende fazer). Conversar com seus pares é sempre importante, e dá um bom senso de comparação. Leia sobre o “geral” (dica acima), e depois compare esse geral com a opinião de pessoas diferentes. Sempre lembre-se de que opiniões de indivíduos precisam ser interpretadas com cuidado. Afinal, amostras pequenas exigem que você seja conservador em suas generalizações.
3. Não ache que você ganhará o salário médio do país: via de regra, imigrantes estão abaixo da média em quase tudo
Isto pode parecer piada, mas é sério: eu já conheci brasileiros que achavam que iriam pisar no Canadá e comprar um Porsche; que ganhariam 150 mil dólares ao ano. Isso não é raro: a pessoa vai passear em Miami, vê muitas Mercedes AMG, e conclui que, portanto, ter uma vida de “rico” é fácil. Isso é uma completa ilusão. Eu diria duas coisas. A primeira é um fato: quem pensa assim está simplesmente equivocado e não conhece a realidade. A segunda é minha opinião: não imigre porque quer ficar rico. Imigre porque você quer uma vida melhor—e não é preciso ser rico para isso, principalmente em países desenvolvidos.
Saiba disto: o salário médio no Canadá é de C$28 mil ao ano por indivíduo (leia mais aqui). Mas lembre-se: você não é um canadense médio, você é um imigrante vindo do Brasil. “Ah, mas eu vi na internet que engenheiros ganham C$70 mil por ano”. Sim, mas você ainda não é um engenheiro no Canadá. Quando conseguir validar o seu diploma, aí você talvez consiga um emprego como engenheiro e, então, ganhe isso. Até lá, prepare-se para estudar muito, tenha muita paciência, e entenda que você passará alguns anos ganhando salários bem mais baixos do que C$70 mil ao ano.
Um salário de C$30 mil ao ano não é ruim. Se você ganhar isso no seu primeiro ano, sinta-se bastante feliz. É possível ter uma vida bastante confortável com um salário dessa faixa. Se você tiver um cônjuge que também ganha isso, a vida será bastante confortável (mesmo tendo um ou dois filhos). Evidentemente, “conforto” é algo relativo. Se você tinha dois carros e duas empregadas no Brasil, você terá que se adaptar a um estilo diferente de vida.
4. Sua educação vale menos
Ninguém aqui conhece a UFRJ, ou a UFMG, ou a UFRGS. Portanto, não ache que sua educação será valorizada como é no Brasil—mesmo que você tenha estudado nas melhores universidades do Brasil. O Canadá tem o maior número de pessoas com diploma de ensino superior do mundo. Portanto, ter uma graduação, aqui, significa apenas que você é uma pessoa normal.
Lembre-se, também, de que você competirá não apenas com canadenses. Há gente de tudo quanto é lugar do mundo por aqui—inclusive dos Estados Unidos. A América do Norte é, sem dúvida, o lugar mais desejado por imigrantes do mundo todo (e também o lugar mais competitivo profissionalmente).
5. Não tenha expectativas ou pressa: seja humilde
Para tudo há exceções. Existem pessoas que imigram e, em alguns meses, estão com o mesmo tipo de emprego que tinham no Brasil (TI é um bom exemplo, por não envolver validação de diploma etc.). Há quem pule níveis, e passe de engenheiro júnior a sênior ao imigrar; há quem termine seu primeiro ano de Canadá já com um salário alto (digamos, C$50 mil/ano). Sim, tudo é possível. Mas não presuma que você esteja nessa minoria ínfima. Mesmo pessoas altamente qualificadas passam por dificuldades. Um exemplo de que já falei é o mercado acadêmico.
A maioria esmagadora de brasileiros que conheci em Montreal tem profissões com salários "normais”; coisas temporárias, muitas vezes. Posso contar em poucos dedos o número de pessoas que conheço que realmente imigraram e são, hoje, bem-sucedidas profissionalmente (o que, afinal, é ser bem-sucedido para você...?). Lembre-se: imigrar traz imensos benefícios, mas o preço a pagar é alto, principalmente no campo profissional. Não ter expectativas altas nos seus primeiros anos é essencial. Não pense que você é especial porque no Brasil ganhava R$8 mil ao mês. Aqui, você talvez seja apenas mais um imigrante tentando uma vida melhor.
Um exemplo pessoal: em minha área, conheço bons professores universitários no Brasil que certamente perderiam empregos para alunos recém formados do Doutorado aqui. Por que a sua área seria diferente...?
Volto à minha opinião acima: não imigre ao Canadá porque você quer um salário alto; ou status profissional necessariamente. Imigre porque quer segurança e qualidade de vida; uma sociedade mais justa, e uma vida confortável. E não se esqueça: ser ambicioso é bacana, mas custa caro.
Há cinco anos, em 2012, ficava sabendo que havia sido aceito para o programa de PhD em Linguística da McGill. Fiquei absurdamente feliz, porque sabia que seria difícil de ser aceito (~150 candidatos para 3-5 vagas). Aquele foi, sem dúvida, o acontecimento que mais afetou (positivamente) minha vida. Quando soube da ótima notícia, pensei que tudo estava resolvido: minha ida ao Canadá e minha vida profissional lá estão garantidas. Hoje, terminando meu PhD, posso dizer que há cinco anos eu não fazia a menor ideia das dificuldades envolvidas. Vendo novos alunos de Doutorado chegando a cada ano, percebo que a minha ingenuidade não era privilégio meu: grande parte dos alunos não pensa sobre o mercado de trabalho para PhDs.
A maior parte das perguntas que recebo aqui no blog são sobre a seleção para o PhD. Às vezes, contudo, também recebo perguntas sobre o mercado de trabalho para quem faz o seu PhD no exterior. Ou seja, o "depois". Essa pergunta é essencial, principalmente porque quando procuramos fazer um PhD raramente pensamos no depois. Afinal, são geralmente cinco anos de duração, e nosso planejamento geralmente não leva em conta o que acontecerá depois desse “tempo todo”. Este post será dedicado ao que acontece quando você termina seu PhD. Ele será um pouco longo porque não pretendo escrever outros posts sobre o assunto. Não vou focar em pós-doutorado; focarei em vagas permanentes para professores/pesquisadores universitários, o “Santo Graal” da academia.
No Brasil
Antes de escrever sobre o que acontece aqui na América do Norte, quero rapidamente visitar o sistema brasileiro. No Brasil, você faz um Mestrado, um Doutorado, e aí espera abrir um concurso público. Sim, você também pode dar aulas em universidades privadas (em alguns casos, elas oferecerão vantagens interessantes), mas a maioria esmagadora dos doutores querem um emprego público, preferencialmente em um universidade federal (a menos que você esteja em São Paulo). Ser professor em uma federal oferece diversos confortos: estabilidade, bons salários e uma boa progressão de carreira. Além disso, você tem mais tempo para pesquisa, já que dá menos aulas (comparado a universidades particulares). O problema disso tudo é que você precisa aguardar o concurso, que pode abrir... ou não.
Cada área é diferente. Leve isso em conta sempre que eu disser qualquer coisa. Em Linguística, algumas vagas em concursos no Brasil têm menos de 10 candidatos; outras são bem concorridas. O concurso tem uma sequência de etapas (muitas das quais nunca fizeram sentido para mim). Seus pontos são somados de acordo com uma série de critérios, e quantidade, muitas vezes, é melhor do que qualidade. Por exemplo, se você tem um artigo publicado em um periódico excelente no exterior, mas seu concorrente tem dez artigos publicados em periódicos que ninguém fora do Brasil conhece, você terá menos pontos neste quesito. Qual o resultado desse sistema? Você focará em quantidade, já que "mais = melhor", e suas chances de passar em um concurso serão melhores. (Em breve escreverei um post sobre o Qualis Capes, que merece um texto próprio...).
Em minha área, já soube de casos em que pessoas passaram para vagas na subárea X mesmo sendo especialistas na subárea Y. Por quê? Simplesmente porque eram as melhores em X dentre os candidatos; sorte delas. Outras áreas têm menos concursos; e/ou são mais competitivas. O fato é: você precisa aguardar o bendito concurso. É assim que funciona. A verdade é que poucos, muito poucos, serão de fato professores em universidades públicas. Não há lugar para todo mundo, e aqueles com os melhores currículos (de acordo com os critérios de cada concurso) conseguirão a tão sonhada vaga permanente.
Aqui na América do Norte
Repito: falarei de minha área, Linguística. Por aqui, a vaga mais desejada também é a permanente, chamada de tenure-track position. Depois de contratado, você tem um período probatório de 4-6 anos, em que você precisa “provar a que veio”. Sendo bem-sucedido, você recebe sua tenure, e ficará na vaga até se aposentar (é basicamente como o concurso no Brasil, mas espera-se um pouco mais de você após o período probatório; isso também depende muito da universidade e do departamento).
As condições de trabalho para quem consegue uma tenure-track são bastante boas, mas a triste realidade é que (muito) poucos conseguem essas vagas: cada uma dessas vagas tem, geralmente, de 50 a 150 candidatos em minha área. Em outras áreas, esse número pode chegar a 600. Pense: você disputará 1 vaga com outros 70 doutores, muitos dos quais vêm de universidades renomadas e têm currículos de altíssima qualidade. Candidatos da América do Norte, Europa, Ásia, Oceania... todos querendo um lugar ao sol. A competição é insana, e você precisa saber disso no momento em que decide fazer um PhD. Há outros tipos de vagas, não permanentes, mas não falarei destas aqui. A grande verdade é que se você quer ter alguma chance real, seu PhD precisa ser feito em uma universidade de renome; caso contrário, a dificuldade será imensa. Alguns sites interessante para consultar são este ou este. Há dezenas e dezenas de artigos sobre o assunto, basta usar o Google.
Tudo que você fizer ao longo do seu PhD contará. Em muitas subáreas, candidatos que não têm um pós-doutorado não são nem considerados. Esses dias vi um anúncio para um pós-doutorado na Europa que exigia como requisito mínimo já ter feito um pós-doutorado (!). Basicamente, você precisa das seguintes coisas:
- Publicações
- Congressos
- Tema de pesquisa (atual e futuro) relevante
- "Sorte"
De nada adianta ter 10 artigos sem importância publicados. O que você precisa é ter artigos excelentes, em periódicos renomados. Qualidade acima de tudo. Ir aos melhores congressos também será importante, principalmente se esses congressos tiverem uma baixa taxa de aceite. Em minha área, os dois congressos mais competitivos aceitam menos de 20% dos trabalhos para comunicação oral.
O seu tema de pesquisa também importa, é claro. De nada adianta você ser excelente no que faz se o que você faz não atrai a atenção de ninguém na sua área; ou é algo datado que não ocupa mais os círculos de discussão ou pesquisa. É preciso saber onde depositar a sua energia, e não simplesmente depositá-la na primeira coisa que aparecer.
Por fim, mencionei "sorte" por uma razão muito simples: considerando a qualidade dos candidatos, e o número de pessoas por vaga, você precisará, sim, de um pouco de "sorte". O que quero dizer é que há fatores randômicos sobre os quais você não tem nenhum controle. Esses fatores podem ser a diferença entre o fracasso e o sucesso, infelizmente. Isso tudo porque, como você verá abaixo, as seleções aqui são mais detalhadas e menos objetivas do que um concurso típico no Brasil.
Como funciona uma seleção típica?
Primeiro, a vaga é publicamente anunciada. Geralmente, você terá um deadline para enviar documentos e tudo que for exigido. Em média, você terá de 1 a 2 meses para preparar os documentos. Não subestime esse tempo: fazer seleções aqui exige experiência, e você levará dezenas de horas para preparar um bom dossiê. A lista de documentos exigidos varia (alguns empregos focam mais em pesquisa; outros, mais em ensino; outros, 50-50), mas costuma ser mais ou menos esta:
- Carta de apresentação (1-2 páginas; "cover letter")
- Currículo
- Programa de pesquisa (3-5 páginas; "research statement")
- Programa de ensino (2-3 páginas; "teaching statement")
- Avaliações de alunos sobre seu papel como professor
- Amostra de publicações (1-3 artigos)
- Referências (geralmente 2 ou 3 professores ou pesquisadores)
Ou seja, ao longo dos cinco anos do seu PhD, você precisa adquirir experiência de pesquisa e ensino, idealmente sendo teaching assistant ou dando alguma disciplina. Isso já pode ser um problema, já que em muitos lugares você não terá a oportunidade de ter esse tipo de experiência. Por exemplo, em alguns departamentos, teaching assistants apenas corrigem provas; em outros departamentos, você nunca poderá ser o professor de uma disciplina inteira antes de terminar o seu PhD. Isso tudo reduz drasticamente suas chances de conseguir uma tenure-track (que valorize ensino) ao sair do seu PhD. Nestes casos, você talvez tenha de ser professor adjunto ou substituto por alguns anos até ter a experiência necessária para ser competitivo em uma nova seleção para vaga permanente.
ETAPA 1: envio de documentos
Você envia os documentos listados acima através do site da instituição ou via email.
ETAPA 2: Longlist
Normalmente, o comitê de seleção fará uma “lista longa” (longlist) de aproximadamente 15-20 candidatos (novamente: estou falando de minha área). Ou seja, neste primeira etapa, a grande maioria já é eliminada. Os candidatos na longlist serão contatados para uma entrevista por Skype ou algo similar.
Se você não for um dos escolhidos para a longlist, talvez você seja avisado que não conseguiu. Mas é possível que você nunca receba nenhum aviso, e precise deduzir a derrota. Depois de um ou dois meses, você conclui que não deu certo. É isso: sem nenhum email, sem nada. Alguns lugares são mais profissionais e avisam os candidatos eliminados, mas não espere que esta seja a regra, pois não é.
Conheço alguém que foi avisada depois de meses que seria entrevistada via Skype. Ela já havia esquecido completamente da vaga... sim, isso também pode acontecer.
Se você estiver na longlist, você já conseguiu algo bastante bom: a maioria esmagadora dos candidatos sequer é entrevistado por Skype.
ETAPA 3: Shortlist
Dos 15-20 candidatos entrevistados por Skype, sairão 3-5 candidatos. Eles farão parte da tão sonhada shortlist, e serão convidados para uma campus visit. Cada um desses poucos candidatos irá individualmente até o campus para a etapa final (na Europa, campus visits tendem a ter todos os candidatos simultaneamente...). Uma visita ao campus pode variar bastante, mas pode incluir:
- Reuniões e mais reuniões (com o comitê de seleção; com alunos de pós-graduação; com outros professores)
- Uma job talk, em que você apresenta sua pesquisa
- Uma demonstração de ensino (em alguns casos)
- Almoços e jantas com membros do departamento
- Tour pelo campus
- Tour pela cidade
- ...
Nesta altura do campeonato, o comitê precisa convencer os candidatos de que o campus e a cidade são lugares legais. Afinal, o processo de seleção é caro e cansativo, e eles querem contratar alguém que queira ficar, é claro. Dos itens acima, de longe o mais importante é a job talk (quase sempre; exceto em vagas exclusivas de ensino, em que a job talk normalmente não existe). É nela que você vai mostrar a qualidade da sua pesquisa, e o quão bem você responde perguntas etc. A visita (passagens, hotel etc.) é paga pela universidade, não se preocupe. A grande verdade é que o processo de seleção é, de certa forma, uma caixa-preta. Diferentemente do Brasil, você não sabe exatamente o que será feito nos bastidores. Afinal, o departamento tem autonomia para definir suas próprias regras (até certo ponto), algo bem diferente do que acontece em concursos públicos no Brasil.
ETAPA 4: Oferta de emprego
Depois de algumas semanas, os candidatos que estavam na shortlist terão visitado o campus, e o comitê precisará decidir quem é o escolhido. Assim que a decisão for tomada, uma oferta é feita ao candidato preferido. Começam as negociações: você pode negociar salário, bolsas de pesquisa, etc. Cada lugar poderá oferecer mais ou menos, dependendo do poder de compra da universidade. Enquanto isso, os outros 2-4 candidatos que também fizeram uma visita ao campus estão aguardando, sem saber se uma oferta já foi feita. Se o candidato escolhido aceitar a oferta, os outros geralmente serão avisados que não conseguiram. Se ele negar a oferta, o emprego será oferecido ao próximo da shortlist.
A menos que o candidato tenha conseguido mais de uma oferta de emprego, é praticamente impossível recusar uma oferta permanente. Considerando que há dezenas e dezenas de candidatos por vaga, se você receber uma oferta... você vai acabar aceitando, é claro.
Então...
Vida acadêmica é algo gratificante, sem dúvida. Você pesquisa os assuntos que quer, tem diversos confortos, e está rodeado de pessoas interessantes. Mas lembre-se que vagas permanentes são absurdamente difíceis de conseguir, e que há, cada vez mais, pessoas com PhDs sem emprego ou em empregos temporários por aqui, que oferecem praticamente zero em termos de benefícios, e onde não apenas o salário é ruim, mas a carga de ensino é alta. Consequentemente, você tem pouco tempo para pesquisa, o que enfraquece o seu currículo para conseguir uma vaga permanente mais tarde. Em suma, vida acadêmica é legal, mas é, infelizmente, para poucos. Pense bastante se você deseja investir cinco anos da sua vida em um PhD para ser professor universitário. Poucos PhDs realmente serão professores; a grande maioria precisará buscar alternativas não acadêmicas. Isso pode ser fácil em áreas mais atraentes para a indústria, mas é algo extremamente complicado em áreas humanas, por exemplo.
Estas são, na minha opinião, as cinco principais diferenças entre um Mestrado (acadêmico) e um Doutorado (ou PhD).
1. Aluno vs. pesquisador
Em um Mestrado, você está no meio do caminho entre um aluno de graduação e um aluno pesquisador. Na Graduação, você raramente faz pesquisa (exceto seu TCC, projetos de algumas disciplinas, ou thesis, como chamam aqui). Ou seja, você basicamente lê o que já escreveram, e faz provas e trabalhos (muitos deles em grupo).
No Mestrado, a coisa começa a mudar. Você precisa fazer disciplinas, mas muitas delas não terão exames necessariamente. Em vez disso, é preciso pensar em soluções para problemas que ainda não têm uma única explicação. Aqui você começa a pensar em problemas e questões que você pode explorar na sua dissertação (ou Master’s Thesis).
No PhD, contudo, você precisa ir além—muito além. Normalmente, os primeiros 20 meses do PhD são quase idênticos a um Mestrado. Veja bem: estou tomando como parâmetro um PhD de 5 anos na América do Norte, especificamente de alguma área que envolva pesquisa. O problema começa a partir do segundo ano: congressos, busca por funding, publicações etc. etc.
Quando você está nos últimos dois anos de um PhD, você precisa começar a pensar como um pesquisador, e não mais como um aluno. Precisa buscar suas próprias pesquisas, trilhar seu próprio rumo; adquirir autonomia e confiança para que, em breve, você seja visto como um… professor por alguma universidade que queira contratá-lo.
2. Mercado acadêmico
Se você apenas faz um Mestrado, não pretende seguir carreira acadêmica, provavelmente. Para seguir essa carreira, é preciso ter um PhD. Por essa razão, alunos de Mestrado raramente se preocupam em conseguir um emprego em alguma universidade. Alunos de PhD, por outro lado, passam a pensar nisso a partir do terceiro ano, por exemplo. Pense assim: se para conseguir um bom emprego é preciso ter publicações, e se publicações de alto nível levam um ano para acontecer, você precisa planejar muito bem como criar o currículo ideal para maximizar suas chances de conseguir um emprego.
Não se iluda: terminar um PhD não garante o emprego dos sonhos (um emprego permanente de professor-pesquisador em alguma universidade). Em minha área, cada vaga tem, em média, 70 candidatos—todos eles com um PhD. Ou seja: você tem 5 anos de PhD para chegar ao final com um currículo bom o suficiente para ser “melhor” do que todos esses concorrentes. O resultado dessa competição absurda é que cada vez mais alunos de PhD decidem fazer um Pós-Doutorado (é, a coisa não é fácil).
O ponto é: um aluno de PhD não se preocupa apenas em estudar e ter um excelente currículo. Ele se preocupa com o emprego que deseja ter depois de seu PhD.
3. Paciência e disciplina
PhDs são longos, árduos, e podem ser frustrantes para muitos. Me sinto privilegiado por fazer algo que realmente gosto e por estar rodeado de pessoas excepcionais que me dão todo suporte que preciso. Mas isso nem sempre é assim. Ao longo de um PhD, você precisa aprender a lidar com a frustração de perceber que você sabe muito pouco. Lembre de duas frases que sempre uso nestes contextos: a) Se você é o melhor aluno da turma, está na turma errada; e b) Se você nunca se sente burro em um PhD, está na universidade errada.
Um Mestrado passa rápido: em menos de dois anos, você termina tudo. É intenso, estressante, mas você tem pouco tempo para parar e pensar na vida. Um PhD, por outro lado, causa um desgaste mental de longo prazo, e isso dá vazão a momentos de reflexão sobre a vida de um modo geral.
4. Carga de trabalho
Não é possível passar 10 (ou mais) horas por dia fazendo algo se você não gosta da coisa. Eu não aguentaria passar estudando, lendo, analisando dados e criando scripts se realmente não adorasse isso. Muitos alunos desistem de um PhD não necessariamente pela dificuldade envolvida, mas pelo cansaço e pela duração do processo todo. Pense em uma corrida: correr é fácil: basta coordenar as suas pernas e pronto. Mas isso não significa que todo mundo que consegue correr possa correr 45km sem parar. Todo maratonista adora correr, eu suponho; e todo estudante que pretende seguir carreira acadêmica precisa gostar muito de estudar, pesquisar, questionar.
Estou chegando perto dos 30 anos, e com base nas coisas que fiz nestes últimos 10 anos acho que posso dar algumas dicas úteis—não por causa da idade, que não necessariamente significa experiência ou “conhecimento de causa”, mas pelo trajeto que percorri até o momento.
O que vou dizer é óbvio para muitos, mas não para todos. Há 15 anos, quando eu tinha 15 anos, muitas destas coisas que listo abaixo não eram tão possíveis/acessíveis como hoje. Portanto, minhas dicas são baseadas em coisas que fiz (e que deram certo) e coisas que não fiz (e que tive de fazer mais tarde).
1. Aprenda bem inglês antes de entrar na universidade. Não é nenhum segredo que aprender um idioma mais tarde é algo mais difícil. Além do componente cognitivo, há a falta de tempo. Você basicamente não tem compromisso algum antes de entrar na universidade, e, portanto, tempo é algo mais abundante. Durante a universidade, seu rendimento será reduzido porque haverá mais o que fazer, e você perceberá que não consegue “dar conta” de tudo e ainda aprender bem uma segunda língua. Menciono inglês aqui porque essa é a língua que você precisa saber. Grande parte da informação disponível está em inglês. Dominar bem essa língua sempre será uma vantagem. Faça isso cedo.
2. Faça um ou dois semestres da sua graduação no exterior. Conhecer outro país enquanto você é bem jovem faz diferença. Uma viagem longa pode mudar nossas perspectivas, e isso é ideal ao longo da juventude, enquanto ainda não definimos nada de muito concreto e ainda podemos mudar de ideia. Depois que você tiver um emprego, um lar etc., tudo ficará mais difícil, e passar um ano fora talvez seja algo que você nunca mais fará. Isso significa que há um mundo de coisas que poderiam ter acontecido na sua vida e que você agora nunca ficará sabendo. De preferência, faça uma viagem que tenha um significado pessoal e profissional. OK, passar um ano fora lavando pratos será divertido quando você é jovem. Mas melhor do que isso será poder ter algo que acrescente ao seu currículo. Lembre-se: as expectativas para alguém com 25 anos hoje são bem diferentes de como eram antigamente. É possível curtir a vida e ter um certo planejamento ao mesmo tempo. Conhecer outros países o quanto antes é importante para que você tenha uma melhor noção do que existe no mundo. Assim, suas decisões futuras são mais informadas.
3. Aprenda a tocar algum instrumento musical. É um hobby saudável e, segundo pesquisas, seu intelecto também se beneficia—além de ser algo bom para desestressar. Quando você tiver 30 anos, um emprego e diversos compromissos, dificilmente você terá tempo para aprender a tocar bem algum instrumento. Além disso, você talvez tenha outras prioridades. Se você já toca, contudo, poderá tocar com frequência e melhorar suas técnicas.
4. Aprenda alguma linguagem de programação. Saber programar será uma vantagem absurda, e as pessoas ainda não percebem o quanto isso faz diferença em um profissional. Mesmo que você não pense em trabalhar com computação, programar facilita diversos aspectos da sua vida, pois você se torna mais autônomo com relação a diversos tipos de tarefas. Além disso, o mercado de trabalho sempre valoriza esse tipo de habilidade—mesmo para vagas que não estão diretamente relacionadas à programação. Lembre-se, também, que há pouquíssimas pessoas que sabem programar fora da computação. Ou seja: um diferencial óbvio para você.
5. Seja ambicioso, mas tenha noção dos seus próprios limites. Pense em objetivos em “estágios”: o estágio final pode ser bastante ambicioso, mas ele precisa ser antecedido por objetivos mais realistas. Se você quer fazer bacharelado em física, antes você precisa ser um aluno excelente. Se você é um aluno medíocre, você está iludido.
6. Não limite seus planos geograficamente. No Brasil, temos a cultura de permanecer nas redondezas de onde nascemos. Talvez mudamos de estado—mas isso é relativamente incomum. Não defina seus objetivos com base na sua localização: defina sua localização com base nos seus objetivos.
7. Peça a opinião de pessoas que sabem o que fazem. Ser mais velho não significa ter uma opinião mais informada: informação não está necessariamente ligada à idade. Saiba escolher as pessoas certas e tente aprender com elas.
8. Use a internet de forma produtiva. Hoje, você pode aprender o básico de literalmente qualquer coisa simplesmente acessando canais com vídeos ou cursos. Sites como Coursera, Udemy, EdX, CodeAcademy, Duolingo etc. são excelentes, e certamente oferecem algo que até pouco tempo atrás não existia.
9. Não ache que ser popular é algo necessariamente bom. A maioria das pessoas populares em minha época de ensino médio era feita de alunos sem opinião própria. No fim, boa parte dos populares do ensino médio acaba sendo uma maioria fracassada na vida adulta. É difícil ter opinião própria e ser super popular. A realidade é que quanto mais senso crítico você tiver, menos popular você será em boa parte dos círculos sociais.
10. Faça sacrifícios agora. Quando você tiver 35-40 anos, é hora de aproveitar. Tente planejar (dentro do possível) para que você construa uma base boa ao longo dos próximos anos para que depois você fique tranquilo. Não vá atrás da filosofia “você ainda é novo demais” ou “Bill Gates não fez faculdade”. Você não é o Bill Gates—e não, com vinte e poucos anos você não é novo demais para certas coisas. Curtir a vida não significa ser completamente desprovido de noção ou planejamento. Por fim, lembre-se que todo objetivo complexo requer um processo: nada acontece da noite para o dia, e conquistas ou decepções são geralmente o resultado de um longo caminho que você mesmo precisa planejar e tornar realidade.