(vai ser textão sim e se reclamar eu gravo um video estilo quado em branco)
TROPA DE ELITE, CLUBE DA LUTA E A CLASSE MEDIA ZOOMER
Eu nunca fui uma pessoa super popular no colegio. Vocês todos ja devem saber dos meus problemas com ansiedade, mas quando eu era pequena eu tinha muitos mais problemas de socialização do que eu tenho hoje em dia. Uma coisa que dificultava isso era que eu era visto como uma pessoa "fresca". Eu não via filme de terror, eu nunca roubei revista pornô, fui literalmente a ultima pessoa no colegio provavelmente a jogar GTA, etc. Meus pais sempre foram muito focados em censura e saber exatamente o que eu consumia (o que hoje em dia eu agradeço, mas eu vou falar muito mais pra frente) e se considerassem que eu era jovem demais pra entender as nuancias de um produto, eu não poderia consumi-lo. E um dos que eu tenho mais vivo isso é tropa de elite. Na verdade eu vi o filme pela primeira vez alguns minutos antes de começar a escrever esse essay, e o porque de eu agradecer de nao ter visto o filme quando saiu
Em uma analise fria eu achei o filme sensacional. Me perdoe nao ter termos floreados de reviewer ou estudante de cinema, mas eu achei otimo. Um filme que retrata os problemas que existem com o sistema criminal até o fundo, que é brutalmente imparcial até onde pode, que vai direto de encontro aos problemas com o pseudo-liberalismo social da classe media alta, como nao existe órgão "bom" na policia e como essencialmente pra ser policial, ou você é corrupto ou faz vista grossa. A direção retrata muito a frustração que seria lidar com isso, a edição é caotica e direta em todos os momentos certos, em poucos momentos você pega a caracterização de quase todo mundo (o que deixa muito tempo pro filme extender e apresentar as nuancias de cada personagem), com um final brutal na melhor maneira possível. E se eu tivesse visto o filme antes eu nunca teria essa análise e talvez gostaria ainda mais do filme.
Um dos meus filmes favoritos no sentido de impacto cultural é clube da luta. Alem de eu achar um filme ótimo no geral (por motivos até bem parecidos com os quais eu gostei de tropa de elite), eu acho a conversa popular sobre ele muito fascinante e, ao mesmo tempo frustrante. Muitas pessoas (boa parte homens que eram jovens quando o filme saiu em 1999) tratam um filme como um grande ideario anti-sistema, um gigantesco foda-se pra emasculação do homem moderno e como um guia de como o jovem deveria se portar diante a um mundo moderno que, segundo eles, "persegue" o verdadeiro espírito do homem (quase completamente cis, em maior parte branco e de classe media alta). "Somos uma geração de homens criados pelas mães", "você acha essa a aparência de um homem de verdade?" E varias outras frases no filme são usadas pra denotar esse real conflito entre homens modernos e o homem "de verdade", mas as pessoas acham que o tyler é o cara bom. Eles acham que o filme endorsa as atitudes destrutoras e toxicas que ele comete porque o tyler é um cara bonito, forte, carismatico, sedutor e, no plot twist, esse cara pode ser voce! O fato do texto do filme ativamente criticar isso, como o livro original foi escrito por um homem gay como uma critica a essa masculinidade toxica, como o tyler é a manifestação do lado "ruim" que se alimenta dentro dos homens, tudo isso é perdido por uma simples falta de interpretação, o que não é incomum.
Pense nos jovens da minha idade, principalmente os homens. Quantos deles tinha uma apreciação quase fetichista com o militarismo? Quantos vocês conhecem que chamavam os amigos de "tropa"? Quantos que votaram em um certo cara ai por que "bandido bom é bandido morto", ou porque "os policiais tem que ser policiais"? Aposto que nao é um numero baixo, e aposto que é bem alto se se trata da classe media/media alta como eram muitas das pessoas com quem eu convivia. Muitas que tinham 7-10 anos quando tropa de elite saiu
O capitão Nascimento é um otimo personagem. Wagner moura é um dos atores mais expressivos trabalhando hoje em dia, a narração dele é sensacional, o arco emocional dele é tragico e acreditavel. E ele não é o heroi. O filme é bem explicito em mostrar que ele é um homem emocionalmente destruído, que explode com a esposa, recusa ajuda psicológica, tem uma sindrome de justiceiro e que não é um exemplo de um "bom policial", tendo em vista que ele recorre continuamente ao "saco" e no fim do filme ameaça um cidadão, a pessoa que ele deveria proteger, de estupro. O Matias também não é um cara bom. Ele começa o filme inocente e cheio de ideais e aos poucos é quebrado pelo sistema. As ultimas cena são bem literalmente simbólicas dele virando o capitão nascimento, recorrendo aos mesmos métodos de tortura e matando o baiano. Mas sendo respectivamente o narrador e a ancora emocional do filme, nós estamos intrinsecamente dispostos a tomar com eles os mesmos objetivos. Isso não é um problema, muitos filmes de drama e crime seguem protagonistas moralmente repreensíveis. Ninguém vê scarface e acha que ele é o cara "bom". Isso não seria problema nenhum pra tropa de elite do mesmo jeito
Ou não seria se a audiência tivesse o mesmo discernimento de um adulto, e não de uma criança com 7-10 anos
A maior parte das pessoas que eu conheço que usava os bordões do filme, os "pede pra sair", os "você é um fanfarrão", mais recentemente os "vocês são um bando de burguês safado", etc. Muitas delas são jovens e assistiram o filme quando saiu. Em 11 anos você cria um apreço emocional por aquele filme que você viu na mesma idade que você jogava black no playstation 2, ainda mais se esse filme era um drama policial cheio de ação, com um heroi moralmente ascendido que fazia o sistema se dobrar ao seu favor, que trazia justiça e fazia outras pessoas abandonarem a fraqueza e inocência pra se tornar um fodão que nem ele. O problema é que esse não foi o filme que eles viriam uma decada mais velhos.
Eu acho que eu tive uma criação intelectual muito boa, e hoje em dia eu vejo que a frustração que eu sentia por não poder assistir o filme foda de polícia e ladrão era muito mais legal do que a decepção que eu daria fetishizando instituições militares sem pensamento critico nenhum.
Em suma, eu prefiro a frustração do que ser um lambe botas do capitão nascimento, o tyler durden da classe media zoomer.