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@voava
Art G.Shvecova (Design graphics - Night Rainbow_1612)
eu vou pegar o brt hoje porque eu preciso prestigiar o sucesso de uma pessoa que amo. e mesmo o cansaço do meu ânimo sendo maior que meu próprio tamanho, também o é o meu amor.
às vezes eu desapareço das pessoas e das coisas e dos lugares e momentos e até de mim - eu não preciso prestigiar meu sucesso ou abraçar minhas falhas porque eu não me amo. então na maioria dos dias eu não pego o brt. eu deito no escuro e desapareço porque eu não mereço prestígio algum.
quando um corpo negro morrer, quando mais um corpo negro morrer, você vai lembrar de todas as outras mortes que o antecederam. você vai citar números e pesquisas e qualquer coisa pra dizer o quanto a gente não se importou antes mas você também não. e pior: você está dizendo agora que esse corpo negro não importa. que não é preciso que choremos que gritemos que sintamos dor e medo porque esse é só mais um corpo negro e os 184 policiais e as crianças e todos os outros você não se comove nem com os policiais nem com as crianças nem com os próximos corpos negros que comumente morrem como se fossem nada. um dia a minha mãe me disse que a única proteção que eu poderia ter era trabalhar com toda força pra que meu dinheiro me protegesse. pra que diante do meu dinheiro do meu poder da minha relevância num ambiente doentio de trabalho eu fosse tão tolerada que as pessoas não veriam que eu era um corpo negro e então assim eu me manteria a salvo mas veja bem ela me disse ontem não importa mais o lugar que ocupamos o espaço que conquistamos na marra você ainda é a porra de um corpo negro eles te aceitam enquanto não te matam eles te engolem enquanto não te caçam eles sorriem enquanto não te culpam eles te amam enquanto não te traem “você pode me balear com suas palavras. você pode me cortar com seus olhos. você pode me matar com o seu ódio. mas ainda sim, como ar, eu retornarei”* corpos negros, presente. * trecho do poema ‘Still I rise’ de Maya Angelou) (Marielle morreu porque é muito fácil culpar um corpo negro da própria sorte. é muito fácil transformar um favelado no executor do próprio fim. é muito fácil torná-la um monstro ao invés de mártir. eles nos fazem alvo e arma. alvo e arma. você não sabe se não vive)
quando um corpo negro morrer, quando mais um corpo negro morrer, você vai lembrar de todas as outras mortes que o antecederam. você vai citar números e pesquisas e qualquer coisa pra dizer o quanto a gente não se importou antes mas você também não. e pior: você está dizendo agora que esse corpo negro não importa. que não é preciso que choremos que gritemos que sintamos dor e medo porque esse é só mais um corpo negro e os 184 policiais e as crianças e todos os outros você não se comove nem com os policiais nem com as crianças nem com os próximos corpos negros que comumente morrem como se fossem nada. um dia a minha mãe me disse que a única proteção que eu poderia ter era trabalhar com toda força pra que meu dinheiro me protegesse. pra que diante do meu dinheiro do meu poder da minha relevância num ambiente doentio de trabalho eu fosse tão tolerada que as pessoas não veriam que eu era um corpo negro e então assim eu me manteria a salvo mas veja bem ela me disse ontem não importa mais o lugar que ocupamos o espaço que conquistamos na marra você ainda é a porra de um corpo negro eles te aceitam enquanto não te matam eles te engolem enquanto não te caçam eles sorriem enquanto não te culpam eles te amam enquanto não te traem “você pode me balear com suas palavras. você pode me cortar com seus olhos. você pode me matar com o seu ódio. mas ainda sim, como ar, eu retornarei”* corpos negros, presente. * trecho do poema ‘Still I rise’ de Maya Angelou) (Marielle morreu porque é muito fácil culpar um corpo negro da própria sorte. é muito fácil transformar um favelado no executor do próprio fim. é muito fácil torná-la um monstro ao invés de mártir. eles nos fazem alvo e arma. alvo e arma. você não sabe se não vive)
eu tô cansada das cartas de amor e despedidas endereçadas a um sujeito desinteressado qualquer. eu não quero falar do que sinto pra parede, ainda que eu queira falar do que sinto por alguém que não ouve, não me lê. eu tô escrevendo pra mim: pra me colocar num lugar e num tempo e entender a experiência de estar nesse dado endereço. eu quero perguntar pra mim: o que você pode fazer com isso? o que você pode fazer com a rejeição e o cansaço e a doença e o desespero alheio? quando eles esbarram em você e te derrubam da posição confortável onde estava. o que você pode fazer com seu corpo doído da queda e assustado de surpresa de que a sua posição não era assim tão segura? o que você pode fazer com os vícios do conforto e a falta que faz a certeza do estar ali? como você levanta e segue? você constrói outro conforto em outro lugar imediatamente? ou você prefere o movimento contínuo? você consegue se colocar num momento estático sem pedestalizar o outro? sem se acomodar em demasia? sem perder a capacidade de discernir bom de ruim e quente de frio e saudável de doentio? ou você vai voltar e voltar pro mesmo lugar insalubre que te conforta e esperar o próximo esbarrão da vontade alheia na sua, pra cair e levantar como se fosse um mantra? você é capaz de se mover e mover até sentir que aprendeu a não repetir a mesmo rotina de comodismo e queda? você consegue se relacionar sem se anular em prol do sujeito ou da relação? porque o seu histórico diz que não. isso é algo que pode ser aprendido? isso é algo que você pode aprender? ou isso excede sua capacidade cognitiva?
reblog if you're gay, not gay, slightly gay, or if you just want to launch donald trump into a dying star
eu tô lavando banheiro ouvindo vance joy.
ta um dia do caralho do lado de fora mas era ver você em laranjeiras ou tomar sol na beira da piscina.
eu escolhi hoje te ver.
isso não é um ato revolucionário, eu quero dizer pra mim mesma. eu só gosto de pontos finais onde tem fim e vírgula onde tem pausas pra organização da continuidade. eu não posso deixar esse abismo vazio
que fica entre uma oração e outra toda vez que a gente parte sem falar a verdade
e isso parece interminável.
eu escolhi te ver porque acabou essa anestesia fantasiosa deu atravessando a corrêa dutra na bike sonhando acordada com a gente transando.
de repente é fato que você tem os mesmos sonhos em outras ruas do leblon ou da gavea ou de buenos aires e eu só quero poder terminar esse parágrafo sabendo que isso é parte da minha realidade. ou não.
eu não torço pelo não. eu tenho medo do sim. eu escuto vance joy cantar e penso que caralho quanto tempo faz que você se sente assim??
faz muito tempo que eu não sinto nada além de um desejo inexplicável e eu teimo em rotular como físico porque eu não consigo me permitir acessar nada que me deixe vulnerável. porque eu sei o que acontece quando eu permito.
não é sempre assim que começa a história do era uma vez um desejo físico e de repente abre a porta de todas as outras sensações possíveis? pra mim costuma ser, eu acho.
então eu tô indo hoje pra laranjeiras, é o que eu digo pra mim mesma, que é pra descobrir se esse é o prelúdio de alguma coisa a mais, com vírgulas e parágrafos. ou se acaba ali e naquela hora. no bairro onde eu nasci, o fim dessa história.
eu continuo no parágrafo seguinte
eu tenho que escrever como tô pensando pros pensamentos pararem de me tomar inteira sem ar e sem vento
eu preciso escrever pra estar fora em forma e dar espaço de mim mesma por dentro pra ventilar
é difícil porque o fim pra mim é sempre o mesmo: alguém que falhou comigo e alguém com quem eu falhei e ainda que passe o tempo e o sentido não se faça mais e mesmo quando eu sei que nunca fez eu fico no canto da sala quando as luzes apagam tentando consertar. tentando achar a paz com o que quebrou
não que eu queira
não que eu acredite na possibilidade
eu só não consigo parar
as noites em claro contando as falhas e defeitos e apontando dedos e gritando crueldades como se de fato eu quisesse ficar ali na dor pra sempre ou como se eu de fato acreditasse na possibilidade de reparo
eu sei que fico obcecada e isso me deixa doente porque cansa não dormir nunca e não parar nunca essa busca pela rachadura que teria poupado a gente
quando não existe pra onde voltar
por que é tão difícil mesmo assim olhar pra frente em paz? por que eu ainda procuro por isso cada vez que um olho pisca entre uma conversa e outra como se alguma magia oculta tivesse o poder de salvar se nem eu acredito.
eu nunca quero estar numa relação, invariavelmente. meu corpo gosta de ir onde quer ir e estar onde quer estar no próprio tempo. eu sou egoísta de vida: não quero me dividir com ninguém, nem meus planos nem minhas manias. até que eu conheço alguém com quem quero estar, cujas manias e planos quero conhecer e partilhar. então eu digo que talvez por essa pessoa valha a pena me podar, me esticar ou moldar pra caber naquela outra vida, naquele outro tempo. e isso é uma faca de dois gumes porque quando a relação acaba, eu volto a estar plena em mim sozinha. eu não preciso daquela caixa pra prosseguir. mas eu invariavelmente ainda me importo e ainda quero saber daquela pessoa, daquele universo, daquela vida. numa espécie de movimento que quer dizer: a gente não funcionou nesse ritmo mas eu sempre quero achar outro porque você é essa pessoa incrível que parece valer a pena. e é a parte mais difícil de ir embora quando a relação acaba. eu não preciso da relação que me faz mal mas ainda quero muito a pessoa que me interessou no início.
quando eu tava contigo eu achava que era um problema de dificuldade de me deixar envolver. eu pensava: eu só não fico triste porque não gosto de verdade de você. então o tempo passou e eu fui embora, coisa que eu nunca soube fazer. e eu pensei: foi fácil porque eu sou cruel. mas estava completamente errada em tudo. era difícil admitir mas eu gostava muito de você e fiquei sim triste de partir, mas eu tinha a cabeça no lugar. eu vi que a gente não tinha futuro e disse: vou pra um lugar onde eu possa achar o que procuro. quando você me magoou eu pensei: eu não sou obrigada. e parti. triste e conformada de que as coisas não são como eu quero e proponho: o outro nem sempre tem a cabeça tão no lugar quanto eu. e depois disso eu me perdi nos meus caminhos, nunca mais tive essa clareza, nunca mais fui embora, só chorei no canto em silêncio. então agora eu penso: eu uma vez fui uma pessoa madura emocionalmente, e posso voltar a ser. então trabalho pra ser alguém que sabe chegar, estar e ir embora quando tiram a mesa.
é engraçado que eu sentia culpa. as pessoas diziam: cê é bem resolvida. e eu me sentia mal por não ter aqueles problemas e, especialmente, por não querer esses problemas. quando eu me afastei do mercado romântico porque eu sentia que tinha prioridades. e eu pensava: isso de fato não me faz falta. e eu deitava a noite plena, ou eu saía pra lapa a noite plena: de um jeito ou de outro eu não devia nada a ninguém. não era ausência de sentimentos. eu tinha muitos. vide os textos que saíram naquela época. mas eu tinha controle. eu dizia: eu te amo muito, mas não me machuque. e se machucasse eu ia embora. mas eu sentia culpa por não querer as correntes que amarram a maioria absoluta das pessoas em laços românticos. então eu falei: vou tentar outra vez. me encaixotar. a pior parte é o término porque ele é absurdamente egocêntrico e é quando tudo de pior se revela. então eu penso que prefiro aquela eu tranquila que aceita os fins como vírgulas numa longa oração. eu, de fato, não saberia prosseguir sem pausas. me faz falta aquela plenitude de prosseguir.
o meu corpo conhece os caminhos. as idas e as voltas de você, do que você é e teme e escreve e balbucia quando as palavras somem. o apoio da tua perna e como seu corpo cheira no final das coisas: do dia, do sexo, da coragem. são caminhos sempre seguros porque eu os abri, eu os tracei, eu os trilhava como o caminho da cama ao banheiro na madrugada quando os olhos recusam se abrir. mas não eram sempre caminhos certos. muitas vezes eram cantos escuros do que é se relacionar: competição, insegurança, incerteza, infâmia. mas eu nunca disse isso em voz alta porque eu não queria pecar contra a sua santidade ou a santidade da nossa relação. eu não diria: isso dói ou isso cansa. eu diria: vai passar, depois eu vejo. porque eu precisava viver todas as coisas boas e amar todas as coisas boas e adorar como a um deus grego esse relacionamento porque eu não mereço nada tão bom quanto isso foi. eu precisava preservar num pedestal a imagem que eu tinha de que agora era certo, que agora não era como da última vez, que você não era como as outras pessoas. mas eu ainda sou uma pessoa. e você também. e os erros e as fraquezas de pessoas nós tínhamos e temos. eu nunca disse isso: se eu dissesse talvez virasse verdade e de repente tudo desmoronaria nos meus pés. o falso pedestal sucumbindo sob o peso da realidade: o destino fatídico de toda paixão. quero me ver ingênua diante de tudo isso mas eu nem sei se tem outro jeito de ver quando se ama além dos óculos cor de rosa que ignoram as bandeiras vermelhas de aviso. eu me perdi na fantasia do que era amar alguém e amar as construções frágeis que sustentam uma relação. e agora nas bordas dos escombros eu tenho um corpo viciado em ir aí e viver essa coisa que não funciona. e eu digo: vamo pra lá. meu corpo quer voltar pra cá porque é o que ele sabe e conhece e acredita que é bom. cada uma das moléculas de ansiedade e exaustão que eu sentia no final de cada dia como se fosse um prêmio. o hábito é muito poderoso. como uma corrente marítima me puxando pra onde eu não quero ir. eu bato o pé: ir embora às vezes é um ato de carinho também. é difícil crer nesse tipo de coisa porque parece paradoxal e não é. não é. o casal mais bonito do mundo é aquele que sabe reconhecer quando não funciona e decide virar dois. eu diria pra mim mesma se eu me ouvisse: perdoar não precisa ser uma atitude burra. dá pra perdoar e seguir em frente. então sigo.
eu te amo tanto, garota. tanto tanto.
*
tu apareceu na porta da minha casa meio bêbado meio abandonado pela própria paz. eu não te vejo há seis meses e tava até acreditando que morreu. o suor mentolado eu lembro bem o que me causava nos dias que te amei. hoje mais nada. tu é qualquer homem e mais nada. ri. você procurou por cigarros, mas parei de fumar. caçou o conhaque, mas parei de beber. os vícios foram todos substituídos por outros que não me matarão tão cedo. tu foi embora porque teve medo de me amar. durante 45 dias eu chorei. hoje sou dura demais pra te engolir. cê me beijou atrás da orelha esquerda e disse “sei”. você não sabe. cê cabe aqui nesse sofá e amanhã na rua assim que der. tu disse que tinha aprendido a ser meu. mas tu voltou pra outra mulher. porque eu não sou quem tu deixou, o que lambeu, mordeu, gozou. cê me matou quando partiu. se eu tô inteira agora não foi porque cê voltou, cara. tu só me fez bem ao ir embora.
o quarto imaculado pelo incenso a lua sorriso do gato de Alice a calcinha de renda cor de carne: eu tinha alguma coisa pra te oferecer, mas não me lembro. fui aos dezenove anos uma avenida de experimentos e se qualquer pelo da sua barba chegasse a qualquer cm da minha pele eu já me eriçaria inteira. eu tinha uma coisa felina ao me aproximar, hoje eu ouço tigresa no ônibus lotado. toco no teu corpo quase me esquivando, não disseco sua boca na minha derme por mais que eu pense. pecado, me grito e ajoelho. não te chupo, mal te tenho. e te consumo só em sonho. sei que envergonho minha versão de anos atrás. porque eu te deixaria me foder na escada de incêndio, no banheiro da firma, onde tu pedisse: faz. quando tu quisesse mais. aos dezenove eu te deixaria comer até os meus medos. hoje eu nem te olho, sequer te conheço e o que me sobra em modos me tensiona os músculos. são meus dedos ágeis que me trazem paz.
eu sei que tudo passa, mas esse corredor parece não ter um fim, e é tão escuro. venho batendo em obstáculos a tanto tempo que o meu corpo deve estar coberto por hematomas. tenho medo das minhas pernas cederem a qualquer momento e eu não conseguir mais ir em frente. tenho medo de desistir.
kgs
Ashish Spring 2017