Suas bochechas coravam. Mesmo que fosse difícil de perceber, visto que o quarto não tinha a melhor das iluminações (eram dispensadas luzes para alguém que conseguia enxergar no escuro), ela sabia que ele já teria percebido. Ele a conhecia muito, mais do que permitia que qualquer pessoa soubesse. Ele e Laksh eram os únicos que sabiam de suas condições, e aquilo, no lugar de os afastar, sempre acabou trazendo para mais próximo, até que tiveram de seguir seus caminhos. Ela se afastara de Laksh pelo que desenvolvera, e o mesmo poderia ser aplicado à Nik. “Claro que você sabe. Hm, desculpe.” pediu, certa de que qualquer desconforto instalado era sua culpa, visto que fora ela quem decidira não usar uma lingerie, como de praxe. Via pouquíssima necessidade em usar-se uma lingerie quando estava com vestidos cobrindo o corpo, e ainda era um meio dela nunca estar marcando a peça. Parecia extremamente lógico, mas algo que se arrependia naquele momento. Já fora mais útil no passado, e hoje era causador de desconforto. Os tempos tinham realmente mudado. Ela cruzou os braços abaixo dos seios, numa forma indireta de abraçar o corpo enquanto ele procurava pelo livro, sorrindo uma vez que ele conseguiu. Despediu-se com um aceno de cabeça, muito provavelmente compartilhando da ideia de que um beijo seria inadequado, mas não conseguia deixar de pensar que queria um motivo para pedir que ele ficasse. Algo que os fizesse sentar e conversar como nos velhos tempos, ou que pelo menos não fizesse com que ele fosse embora naquele exato momento. Nada vinha em sua cabeça, por outro lado. Até entreabriu os lábios algumas vezes, mas descartou qualquer sentença, pensando ter se atrapalhado quando ouviu algum som.
Vinha da boca dele. E foi como levar um soco, de uma certa forma. Ela franziu o cenho, entreabrindo os lábios mais uma vez, mas seguindo sem falar nada. Ouvira suas outras frases, com um franzir de cenho ainda mais intenso, e deu alguns passos para próximo do rapaz. “Namorado?” o tom de suas bochechas deveria certamente estar absurdo, intoxicado com um vermelho forte. A única pessoa com quem tivera uma aproximação intensa o suficiente para que pudesse ter se imaginado alguma espécie de relacionamento era Richard. Teria ele visto algo? Ela prendeu o lábio inferior por alguns instantes, pensando em como iria colocar aquilo. “Você está falando da festa?” perguntou, não procurando citar quaisquer nomes para não entregar-se. Tinha algumas outras opções, de rapazes que constantemente flertavam e tentavam se aproximar, mas aquele era o único que vinha em sua cabeça. “Eu não estou namorando ninguém, Niklaus. Eu… Beijei umas pessoas, sim. E um pouco mais, mas, acho que você não precisava saber disso. Eu digo… É esperado. Mesmo de mim.” as frases perderam-se na confusão da garota nervosa, que raramente se apresentava daquela forma. Era tão raro ver uma Wiktorja que o próprio Bendek deu alguns passos para trás, agitando o rabo violentamente em sinal de estresse. “A-acho que o ponto não é esse.” completou, parando para pensar um pouco no que seguir dizendo.
O olhar pairou sobre ele, e ela deu mais alguns passos em sua direção, espanando o pouco de pó que acumulara-se nos ombros da veste dele, enquanto procurava respirar fundo para saber como colocar as palavras. “Não tem nada em conexão. Eu só… Eu sinto sua falta. E eu tenho de me acostumar a sentir sua falta, porque não podemos ficar juntos. Se nossas famílias descobrem que continuamos amigos, será mais uma confusão. E… Eu senti sua falta em muitos aspectos. Acho que estava tentando me habituar a não sentir. Matar um pouco disso tudo. Porque eu não quero acabar me afastando de você porque nossa amizade ficou esquisita. Eu quero estar pronta para ser só sua amiga. E enquanto eu continuar sentindo sua falta, não vai dar certo. E eu sei que estamos separados faz quase um ano, mas é só no papel. Você e eu sabemos disso.” mencionou as outras vezes em que sabia que os seus olhares tinham trazido significado, por mais que as palavras fossem contidas. Eles tinham deixado aquilo crescer por aquele ano, mesmo tendo terminado.
Niklaus esperou até que obtivesse uma resposta da polonesa. Ele não via motivos para ela lhe dar qualquer tipo de satisfação, por isso não insistiria caso a princesa não quisesse conversar sobre o assunto. Entretanto, agradecera mentalmente quando Wiktorja decidiu começar a falar, escutando-a atentamente. O russo apenas assentiu com a cabeça para ambos os questionamentos da ex-noiva. Sim, ele estava falando da festa onde a vira com um dos príncipes da Inglaterra. Conhecia muitos herdeiros, fossem eles o primeiro, segundo ou sétimo filho. Era uma necessidade colocando em vista que um dia assumiria o trono da Rússia e, por mais que tentasse afastar aquele pensamento de sua cabeça, Niklaus começou a achar que a polonesa também estava começando a conhecer demais os outros príncipes. Ele apenas respirou fundo ao ter tal suposição esclarecida pela própria boca da loira, tentando não começar uma confusão alimentada pelo simples e puro ciúmes, afinal, ela que estava certa de seguir em frente. Por outro lado, por mais que o próprio russo tivesse tido alguns affairs desde que se separara da polonesa, nenhuma tinha sido capaz de tirá-la de sua cabeça. "Não é?" Indagou na esperança de que ela continuasse a falar, mas seus olhos estavam mais atentos em Bendek, notando a mudança repentina de seu humor.
Já estava a ponto de encerrar a conversa quando Wiktorja declarou que sentia a sua falta, em muitos aspectos. Ele fechou os olhos assentindo com a cabeça, pensava em como era ridículo suas famílias proibirem até mesmo a amizade entre os dois. Parecia infantil demais para adultos que comandavam países inteiros e isso irritava profundamente Niklaus. Essa incoerência com os interesses de sua própria família muitas vezes despertava uma certa raiva e violência no russo que Wiktorja nunca conheceu, era algo de seu passado e que agora se mantinha hibernando dentro de si, mas estava lá e a qualquer momento poderia explodir. O príncipe se aproximou ainda mais de Tor, não era como se estivesse agindo racionalmente e Kira sabia disso, tentando de todas as maneiras impedi-lo de cometer qualquer loucura. “Isso nunca vai dar certo.” Niklaus envolveu a cintura da polonesa, a trazendo para mais perto de seu corpo, por mais que tentasse manter uma certa distância. Afinal não sabia como ela reagiria àquilo, por mais que quisesse beijá-la, a aproximação estava sendo utilizada mais como uma forma de se expor à princesa. “E eu não deveria mais sentir ciúmes, mas não é algo que eu controle. Eu apenas não aguento te ver com qualquer um que não seja eu.” Até poderia parecer egoísta da parte do russo, mas em sua mente era como se nunca tivessem se separado, a própria princesa tinha acabado de explanar isso. Até podiam não sentir o toque quente do outro, mas isso não significava que seus olhares e conversas não tinham a profundidade necessária para se manter um relacionamento funcionando. Niklaus ainda estava apaixonado por Wiktorja e odiava as consequências que isto lhe trazia.