Vítima de um assassinato moral - Conto disponível no Wattpad
Agora a doutrina estava enfraquecida, porque minha família já não acreditava cem por cento no que pregava. A internet realmente veio para revolucionar. O acesso a informação dessa vez foi benéfico. Ou pelo menos era para ser.
A liberdade de expressão estava no seu auge. Foi quando conheci o feminismo. A ideia de ter um mundo onde homens e mulheres tem os mesmos direitos e deveres é quase utópico, pelo menos para quem cresceu na mesma doutrina que eu.
Então agora eu tinha que escolher uma carreira para trabalhar nela o resto da minha vida. Essa frase é tão estranha hoje como era na época. Imagina você ter que decidir aos dezessete anos o que você quer fazer pelo resto da sua vida.
Essa história é um relato baseado em fatos reais. Contém reflexões sobre a vida, vivências e experiências traumáticas...
Talvez o pior momento da vida, seja se dar conta de que não está vivendo. O pior momento da morte é não saber quando está morrendo. Talvez seja por isso que temos tanto medo do desconhecido, quando deveríamos ter medo do que conhecemos e que realmente nos assombra.
Quem me acompanha sabe que curto muito casos de Serial Killer, principalmente pelo fato da questão psicológica envolvida. Já li e vi centenas de casos e quase todos tem uma coisa em comum: a exposição de uma criança em situações traumatizantes.
Independente do que você ache sobre a série em si, uma questão que as pessoas parecem nunca estarem prontas para discutir é sobre a criação de uma criança.
Sei que é o pesadelo de qualquer mãe ou um pai ouvir alguém dando pitacos na criação deles, porque como eles mesmo dizem: o filho é meu e quem manda sou eu.
Certo. Sim, o filho é seu e quem manda é você, mas isso não quer dizer que você esteja apto a ter uma criança ou muito menos criá-la. Afinal, depois de 18 anos esse ser humano será dono do próprio nariz e você não terá mais responsabilidade sobre ele.
A questão é que o que todos os casos criminais tem em comum é que o criminoso teve uma infância difícil ou traumática e muitas vezes os pais se eximem da responsabilidade que é deles no final das contas.
"Ah mas a gente cria, dá amor e ensina, não é culpa nossa que meu filho cresceu e virou um 4ss4ss1n0"
É sim. Porque nenhuma pessoa nasce ruim. Nenhuma. Todas as atitudes de uma pessoa tem um precedente, independe da sua condição mental.
Estamos acostumados a fingir que a culpa não é nossa e jogar a responsabilidade no que cometeu o crime e vimos muito bem isso na série do Dahmer.
O pai em nenhum momento quis admitir que teve culpa no comportamento do filho mesmo sendo nítido que tanto ele quanto a Joyce foram negligentes na criação do Jeff. O que ele fez ao final foi culpar seus genes, que não tiveram nada a ver.
Isso não é sobre defender o Jeff, mas mostrar o que pode acontecer com uma pessoa quando você não está pronto para ser pai.
"Ah mas o irmão do Jeff não se tornou um 4ss4ss1n0, nada a ver"
Sim, ele não se tornou pelo simples fato de não ter desenvolvido um transtorno mental.
Na série temos bem claro que Jeff sofria de transtorno de Borderline, depressão, ódio de si próprio por ser gay e não aceitar esse fato, principalmente por todos ao seu redor serem homofóbicos.
Quando falo que cada pessoa vê o mundo de um jeito diferente e sobre a responsabilidade que temos sobre o próximo é isso que estou tentando dizer.
Em casa tenho o exemplo perfeito de ter que lidar com uma pessoa deficiente mental com transtornos psicológicos e sim, pessoas assim tem uma visão distorcida do que é normal para nós. Não é simples lidar com pessoas assim e é exatamente esse o papel dos pais: identificarem comportamentos fora do normal e procurar ajuda.
Mas existem muitos pais que negligenciam suas obrigações de pais e jogam as crianças de um lado para o outro e (no contexto atual tecnológico) dão um celular ou tablet na mão da criança para ela ficar quieta e chamam isso de criação.
Eu escolhi não ter filhos justamente porque não me sinto preparada.
As pessoas deveriam parar de romantizar famílias cheias de filhos e usar o "deus mandou povoar a terra" como justificativa para terem filhos.
Todas as famílias grandes que vi nascendo nas gerações passadas tem algum tipo de transtorno e isso passa de geração para geração por meio da criação.
O ponto que quero chegar é: até onde estamos dispostos a culpar integralmente uma pessoa pelos seus atos sem levar em consideração toda a questão por trás que a tornou assim?
No final do seriado vemos o caso do Wayne Gacy e Ed Gain (Gacy tem um documentário na netflix muito bom chamado: O palhaço assassino, inclusive IT a coisa, foi inspirado nele) que foram citados brevemente por serem similares ao caso do Dahmer e ambos tiveram uma infância conturbada.
Gacy sofria abuso de seu pai. Gain sofria com a bitolagem religiosa de sua mãe.
É algo para se pensar, não é?
Onde está a raiz do problema?
Você colocou seu filho no mundo para quê?
Você tem condições psicológicas, financeiras e estruturais para criar um filho?
Considerações finais:
A série é ótima, porque trata o caso com respeito as vítimas, coisa que é muito difícil se ver hoje em dia em produções sobre esses casos.
Mostra também como a narrativa pode impactar o telespectador da forma certa sem ser insensível. Deu para notar que o Ryan Murphy teve a preocupação em repudiar o tempo todo as atitudes do Dahmer mesmo mostrando de forma clara onde que começou o problema e o que acarretou toda a negligência dos pais dele durante a série.