Daqui de cima eu consigo enxergar, eu vejo os olhos de cada um olhando pra cima, tentando fortalecer a fé em algo. as vozes gritaram alto que homens de capuz e cicatrizes vermelhas tinham chegado a cidade, era hora de rezar e torcer para que o homem lá em cima ainda tivesse esperança em qualquer um de nós.
Eu limpei meus armários e trouxe comigo apenas o necessário, eles provavelmente já devem ter pego a jany e isso é o que me faz escrever essa carta, eu não sei o que move as pessoas lá em baixo, mas torço pra que seja algo raro.
Eu sinto o cheiro do medo se arrebentando contra o ódio dentro de cada um, somos nossa própria casa e isso no fim das contas é tudo o que temos, o orgulho move os homens desde o início dos tempos e desde de então nós apenas retrocedemos.
Os poetas estão mortos, o último foi visto em Roma dançando com tigres que obedeciam seu chamado, Jonas podia se mover no tempo como se o controlasse, cada poema era único e se destacava por ser tão sincero que até os os mais leigos em sentimento e literatura, refletiam. Jonas escrevia cartas para dois tipos de pessoas, depressivos suicidas e assassinos em série, ele acreditava que se pudesse mudar um dos dois ele podia mudar qualquer coisa, qualquer um e em qualquer lugar. seu último poema foi lido e reconhecido em todo mundo, mas ele já não respirava mais, então tanto faz.
Jonas com certeza é uma das pessoas mais injustiçadas dessa terra, mas nada que o homem faça será o suficiente para agrada-lo, seu espirito deve socar muros 24 horas por dia incansavelmente.
As pessoas correm e se atrapalham, nem parece que são da mesma raça, na semana passada colocaram fogo na mercearia enquanto gritavam que comida devia ser de graça, o problema é que a mercearia também era uma casa e as crianças cansadas da escola dormiam e não acordaram com o cheiro forte vindo do andar de baixo pelas escadas.
A morte te coloca para dormir e sorri, se engane quem pensa em chifres e sangue escorrendo pela boca, a morte tem o sorriso mais lindo que eu já vi e mesmo sabendo do perigo eu pego o Whisky ofereço um gole e por aí continuo vivo.
Minha cidade pega fogo e eu só consigo imaginar como chegamos até isso, daqui de cima eu sou privilegiado, me sinto um Deus, mas apenas imaginário. Se você olhar bem pra baixo, por alguns instantes sem piscar, vai sentir que está caindo, caindo e caindo sem parar. No começo pode parecer agoniante, mas depois de um tempo você passa a gostar e o medo se altera, agora o seu receio é estar lá em cima e sentir que nunca mais vai despencar.
Eu já estive lá embaixo e vivi esse momento algumas vezes, limpando o sangue dos meus olhos cansados, usei minhas ultimas energias para ficar de pé, no que seria o momento mais louvável de minha vida inútil. Me lembro de um sobretudo preto falando coisas que eu não compreendia, alguém na multidão gritou que eu estava ali por ser falho, eles brigavam por liberdade enquanto me rodeavam, O homem era velho e pálido, se tornou juiz após aceitar seus pecados e em seu corpo tatuá-los, ao final da cena e da sentença, arrumou seu capuz e se virou, pude ver em seu antebraço o retrato da jany colocando uma corda no próprio pescoço!
Depois de atear fogo em tudo uma gigantesca multidão se formou e começaram a cantar, os sinos batiam no ritmo em que os homens de capuz de aproximavam, o dia do juízo final tinha chegado, e era louvável.