A ideia do começar a escrever, contar minhas experiências com o pós-operatório e, inclusive, a minha própria história, tem muito a ver com esta foto. Na verdade, surgiu nesta ida ao shopping.
Estava muito feliz por poder sair de casa, ir ao shopping parecia o melhor programa do mundo. Esta foi a primeira vez que saí para passear em um lugar público. Minha mãe já tinha averiguado antes e confirmado que eles tinham uma scooter que eu poderia usar. Seria perfeito! Veria gente, comeria em algum ligar legal, daria uma olhada nas vitrines, sem ter que me preocupar com o fato de que ainda não podia andar...
O passeio realmente foi bom, consegui distrair, ver coisas diferentes, por mais comuns que fossem.
No entanto, acabei me espantando com a falta de educação, cortesia e gentileza das pessoas em relação a quem apresenta qualquer limitação de locomoção. Aqui, não me refiro à equipe do shopping Morumbi ou aos atendentes das lojas e restaurantes. Todos que me atenderam foram excepcionais, realmente queriam ajudar. Falo dos frequentadores do shopping, consumidores que se acham classe A em São Paulo e que não têm o mínimo cuidado com quem está ao redor, olham apenas para o próprio umbigo, somente para o seu bem-estar.
Ouvi as seguintes pérolas:
Por que entrou nesta loja? É ruim para você acessar qualquer coisa, deveria esperar lá fora. Alê: Eu não reclamei de nenhuma dificuldade rsrs
Ai desculpa!! Não vi você aí. Alê: Uma mãe, com o carrinho cheio de sacolas de compras, ao socar o carrinho no meu pé – com o robofoot, enquanto a babá segurava se filho. Vale lembrar que eu estava na scooter!
Que pena! Você não conseguiu descer no andar que queria (porque as pessoas não deram licença para que eu descesse do elevador). Da próxima vez, deixe todos entrarem no elevador para que você fique por último e consiga sair onde quer. Alê: De verdade, experimente fazer isso no Morumbi. Depois de umas 3 horas, talvez consiga entrar no elevador.
Mas nada me assustou mais foram as pessoas que trombavam em mim, mesmo que sem querer, e me olhavam com cara estranha, como se não devesse estar ali. E que nem se davam ao trabalho de pedir desculpas.
Cheguei em casa inconformada!! E não foi com o que aconteceu comigo. Fiquei 2 meses sem poder caminhar, passei mais alguns meses usando a scooter em shoppings porque não podia fazer muito esforço físico (é... shopping cansa J), mas sempre soube que aquela era uma situação passageira, que minha vida voltaria ao normal dali a um tempo. Comecei a pensar em quem vive isso diariamente e de forma permanente. Não é justo!! Você não pode ser tratado como um ET. Cadê a gentileza??
Desta indignação, veio a vontade de escrever. Tinha decidido que contaria as aventuras de alguém que estava experimentando os desafios de uma vida com mobilidade bem reduzida. Porém, as chances disso se tornar um mundo de lamúrias e lamentações era enorme, e não iria mudar a realidade que todos nós estamos cansados de conhecer.
Em vez disso, resolvi falar sobre o meu tratamento, a forma como encaro tudo o que é necessário, como ir além da dor, do cansaço, da exaustão... achei que isso seria mais útil, para mim e para qualquer outra pessoa que estivesse em tratamento. Apontar os problemas já conhecidos, não muda nada. Tentar superar desafios pessoais com a saúde e o corpo de forma alegre, ativa e persistente dá esperança, perseverança. Isso, sim, faz diferença.
Achei que seria mais a minha cara :)
E assim saí na foto: feliz e sorridente! Dar um passeio no shopping era tudo o que eu precisava naquele momento.
Passeando devidamente motorizada