pelos deuses! aquela ali passeando na praia é EURÍDICE? ah, não, é só ALEXANDRA MAI, uma BIG RIDER E INSTRUTORA DE MERGULHO LIVRE nos agraciando com sua beleza nos halls do aletheia hotel. as moiras avisaram: mesmo com os VINTE E NOVE anos nesse novo corpo, segue tão CARISMÁTICA e IMPRUDENTE quanto na antiguidade. repararam também que ela lembra muito LOLA TUNG? a maldição levou tudo, menos sua beleza. que prazer tê-la como HÓSPEDE do nosso hotel!
conexões requeridas.
𝒂𝒃𝒐𝒖𝒕:
A vida de Alexandra foi moldada pela instabilidade salgada do litoral e pela negligência de um pai que vivia como a maré: às vezes presente e violento, na maioria das vezes recuado e ausente. Sendo uma Dríade reencarnada, sua alma pedia terra firme e raízes profundas, mas a sobrevivência a obrigou a ser nômade. Cresceu em trailers enferrujados e barracos de praia, trabalhando desde os doze anos limpando peixe e consertando pranchas para garantir que não fossem despejados. Ela aprendeu a odiar a sensação de "ficar parada", pois em sua experiência, quem cria raízes acaba pobre e estagnado como o pai. O mar se tornou seu refúgio contraditório: o único lugar onde o barulho de sua mente ansiosa era abafado pelo rugido das ondas.
O ponto de ruptura veio em uma competição clandestina de surf durante uma tempestade. Alex foi engolida por uma onda maciça, presa nos corais, e experimentou a escuridão absoluta do afogamento. Por minutos, ela esteve morta. Mas ao invés de temer a água, ao acordar na areia (cuspida milagrosamente pelo mar), ela se tornou obcecada por aquela fronteira. Agora, ela é uma "Big Rider", uma caçadora de tempestades que viaja o mundo atrás das ondas que ninguém tem coragem de surfar. A maldição, cruel e irônica, atua afastando-a de sua natureza terrestre: ela sente uma coceira na pele quando fica muito tempo longe da água, como se a terra a rejeitasse, empurrando-a para o perigo líquido onde ela não pertence.
Sua ida para o Hotel Aletheia na Grécia foi motivada por rumores de uma caverna subaquática inexplorada na costa da ilha, um lugar de correntes traiçoeiras que ela queria desafiar. No entanto, a maldição da "segurança indesejada" a persegue implacavelmente. Não importa o quão fundo ela mergulhe ou quão alta seja a onda de que ela caia, o destino interfere: um jet-ski de resgate aparece do nada, uma correnteza a joga para a superfície, ou o equipamento que deveria falhar funciona perfeitamente. Ela vive em um estado de frustração constante, uma ninfa da floresta tentando se afogar para sentir algo real, mas condenada a flutuar. Ao chegar no hotel, com o sal seco na pele e o olhar selvagem de quem encara o abismo todo dia, ela sente que aquele lugar talvez seja o único que não vai tentar salvá-la, mas sim deixá-la, finalmente, afundar ou nadar por conta própria.
quem dera fosse só isso, pensou em responder, mas não conseguiu. algo nela não parecia muito confiável, mas não sabia dizer o que. talvez por parecer mais nova? muito mais nova? ou estava imaginando coisas? a ideia nem um pouco prudente fez com que quisesse se afastar dela, mas tentou ignorar o incômodo. não era comum khalid se sentir assim com alguém, tão de cara. "acho que tem razão." concordou, com um sorriso de lábios selados, breve. "acho que vou deixar o desafio para outro momento. minha cabeça não 'tá muito legal para essas coisas." comentou com um leve humor, buscando com o olhar um bartender livre. "quero me distrair, mas não é para tanto."
"sabia escolha." alex soltou uma risada curta, levando o copo aos lábios para um gole longo, como se para provar que a "gasolina" não a afetava. ela percebeu o recuo sutil dele, a hesitação no olhar. era um instinto de sobrevivência louvável, o tipo de coisa que a maioria das pessoas perdia quando estava perto dela, mas ele parecia ter o radar ligado. ela fez um sinal para o bartender, apontando para khalid com o polegar. "traz um gin tônica para ele. bastante gelo, pouco drama. e capricha no limão para disfarçar o tédio." voltando-se para ele, alex apoiou o queixo na mão, os olhos percorrendo o rosto dele com diversão. "você tem cara de quem gosta de manter o controle, e o mezcal… bom, o mezcal gosta de roubar o volante. melhor ficar no seguro mesmo." ela tamborilou os dedos no balcão, perto de onde ele havia escondido o celular, a curiosidade vencendo a apatia. "mas agora que você recusou meu veneno, eu cobro o preço em informação. o que faz um cara com essa postura de 'bom moço' desligar o telefone como se fosse uma bomba relógio? vazou nudes, xingou o presidente no twitter ou é só uma ex-namorada muito persistente?"
"não tem problema." respondeu, sentando-se na espreguiçadeira. sabrina ergueu as sobrancelhas, espantada com o teor daquilo que poderia considerar um desabafo. "olha, sendo bem honesta, acho que pode até ser que você consiga perder a consciência, mas minha moral não me permitiria assistir você se colocando em risco, então não, talvez, você não tenha tanto sucesso no seu propósito. sinto muito." definitivamente, não era a melhor em confortar, tinha a delicadeza de um equino. pigarreou, dedicada a melhorar o clima. "eu acho que eles estão meio ocupados com as pessoas enchendo de perguntas e exigindo que tomem providências. não vão se importar conosco aqui." e logo apontou para a espreguiçadeira ao seu lado, indicando que a garota se sentasse ao seu lado, com um sorrisinho. "senta aí. vamos conversar sobre qualquer coisa que não seja essa baderna."
"moral? uau. fica tranquila, docinho." alex soltou uma risada curta, seca, mas se jogou na espreguiçadeira indicada sem precisar de um segundo convite. o corpo relaxou instantaneamente ao sair da posição vertical, embora seus olhos ainda varressem o perímetro da piscina como um radar. "eu tenho o hábito irritante de sobreviver. vaso ruim não quebra, e definitivamente não se afoga em piscina de hotel cinco estrelas. seria uma morte muito... básica. e eu odeio o básico." ela ajeitou os óculos escuros no rosto, virando-se para encarar a mulher com um meio sorriso divertido. gostava daquela franqueza. gente polida demais escondia facas, gente direta, como ela, já deixava a arma na mesa. "polícia ocupada é a minha modalidade favorita de polícia. quanto menos perguntas sobre o meu passaporte carimbado em lugares duvidosos, melhor." alex apontou com o queixo para o copo colorido na mão de sabrina. "ok, pacto de silêncio sobre a baderna aceito. mas pra isso funcionar, eu vou precisar de um desses. o que estamos bebendo? e, mais importante... o que uma mulher com cara de quem cobra caro pela consultoria está fazendo escondida aqui fora? fugindo de clientes chatos ou de parentes insuportáveis?"
Definitivamente, era bom ouvir, para variar, que todo seu aspecto caótico tinha algo de positivo. Claro que, em uma situação comum, ninguém diria isso, muito pelo contrário, e Alexander provavelmente internalizaria como de costume, mas como todo ser humano gosta de ouvir só o que lhe é conveniente, bem, ali estavam. Seus olhos demorando-se no rosto feminino, absorvendo o elogio não usual dela com uma sede avassaladora, mas ainda assim, contida. Feliz por ter um lembrete mínimo, ainda que raro, de que estava tudo bem ser da forma como era; do jeito como era, mesmo que isso implicasse em ser bem recebido somente em ambientes mais indóceis ou com pessoas igualmente destrutivas. Deveria haver ali, então, culpa por se sentir bem ao lado de alguém como a Mai? Provavelmente, mas não era o tipo de sentimento que Alex tinha em evidência quando estava junto da instrutora de mergulho. Definitivamente, não.
Aviso: conteúdo adulto (uso de substâncias ilícitas, nudez e menção sexual).
Principalmente quando seus olhos recaíram sobre o toque dela em si, ajudando-o a se livrar da camisa que usava. A pele arrepiando-se levemente diante do contato, a ciência de que Alexandra apreciava o que via e contemplava suas marcas sem o choque usual ou o encantamento de quem não convivia diretamente com a morte iminente ou outros riscos adicionados; nela, havia algo como um respeito silencioso na percepção de Alexander, mas também genuína atração pela história e granada ambulante que Crowther era, sem toda aquela parafernália acessória de quem o via com perspectiva de algo futuro ou um relacionamento totalmente manipulado, consertado, suturado para se fazer caber e adaptá-lo. Forçá-lo. Sua liberdade indo pelo ralo, ao contrário, novamente, do que vivenciava ao lado de Alexandra, por mais que isso quase os tivesse custado as vidas uma vez ou outra. Pensamento este que foi brutalmente interrompido quando o vestido da menor escorregou pelo corpo dela e se deixou sobre o chão, anunciando-a nua em pelo, belas pernas e curvas convidativas. — Vai na frente. Eu chego em dez minutos.
E com isso, ele queria dizer: ir até o bar do quarto, servir sua dose usual de uísque, tomá-la rapidamente, colocar uma taça do vinho que Alexandra apreciava, conectar seu celular ao sistema de som da suíte e deixá-lo baixo, com qualquer coisa entre AC/DC e Pink Floyd que caísse no aleatório. Até alcançar a mesa de cabeceira ao lado da cama e tirar de lá o pequeno pacotinho transparente ardilosamente escondido da equipe de limpeza, um espelho e uma nota de dólar previamente enrolada, mas ainda mais apertada e ajeitada antes que o conteúdo da embalagem fosse despejado sobre a superfície lisa e inalado em seguida. A batida chegando ao cérebro de forma rápida, mas um pouco mais duradoura, em breve, porque fazia mesmo algum tempo que não usava nada daquilo, por mais que não tivesse comentado isso com Alex. Quer dizer, nem a bebida, nem situações de adrenalina pura, nem drogas ou sexo desenfreado, para tentar se manter distraído ou simplesmente se divertir.
Por fim, seguiu até o banheiro, guiado pelo som da ducha. Despiu-se sem cerimônia, deixando à mostra o corpo recuperado após voltar a treinar e se alimentar direito sob a vigilância de Nicander. Manteve apenas a cueca e foi até a banheira, sentando-se na borda para despejar alguns sais antes de abrir o registro e ajustar a água para bem quente — o inverno lá fora e o ar-condicionado deixavam o quarto frio. Em silêncio, lançou olhares ocasionais ao corpo de Alex debaixo do chuveiro, a alguns metros de si, enquanto a banheira se enchia, ainda que menos do que o usual, mas porque isso era intencional: seus planos eram outros. No caso, ir até ela quando fechou a torneira, agindo como se tudo ali fosse muito natural: desde a forma como dividiam um cômodo, até a forma como adentrou o espaço do chuveiro, também fechando-o antes de pegá-la no colo, acomodando-a com as pernas ao redor de si sem tanta dificuldade apenas para guiá-la na direção da banheira, finalmente livrando-se de sua cueca com a outra mão livre. Sentando-se ali, agora com o corpo feminino por cima do seu, acomodando-a com toda a necessidade de controle que ela poderia querer demonstrar por ora.
— Bem melhor assim, não acha? — O Crowther finalmente falou, rindo baixo, as costas apoiadas na parede da banheira e o rosto se erguendo, o queixo na direção da menor ao que seu braço desenlaçava a cintura dela e seu toque descia para pegar um pouco da espuma disponível e espalhá-la pela barriga e, em seguida, a altura dos seios da Mai. Os olhos claros dele brilhando em lascívia, mas também em diversão, uma breve euforia que começaria a escalar em breve. Tanto mentalmente quanto fisicamente, já que tê-la nua, sobre si, era realmente excitante e Alex só estava mantendo parte do juízo no lugar para não queimar a largada. — Quase me faz lembrar daquele banheiro coletivo no meio do camping em Santorini. Claro, sem a parte dessa banheira ser minúscula. — Comentou com o sorriso se estendendo antes de se ajeitar um pouco apenas para que conseguisse abandonar novos beijos sobre a pele de Alex, mas agora na região do busto, alternando entre a ponta do nariz também, voltando a falar, mas sem olhá-la antes de concluir a frase que veio acompanhada da outra mão escorregando até a curva da lombar dela e descendo. — E sem a parte de estarmos bêbados, porque eu quero aproveitar cada segundo de você sentando em mim daqui a pouco.
a água morna da banheira subiu ao redor deles, transbordando um pouco pelas bordas com o peso dos dois corpos, mas alexandra mal notou. sua atenção estava inteiramente focada na eletricidade estática que parecia emanar da pele dele agora. quando ele a tirou do chuveiro, carregando-a como se ela não pesasse nada, ela sentiu aquela familiar onda de satisfação percorrer sua espinha. não era apenas sobre força física, era sobre a facilidade com que ele assumia o controle, algo que ela raramente permitia a qualquer outra pessoa. ela se acomodou sobre o quadril dele, a água ensaboada cobrindo-os até a cintura, e seus olhos, afiados e observadores mesmo sob o vapor do banheiro, fixaram-se nas pupilas dilatadas de alexander. os dez minutos. claro. ela sabia reconhecer os sinais daquela euforia química, aquele brilho predatório que tornava o azul dos olhos dele quase incandescente. ela não julgou, pelo contrário, um sorriso lascivo curvou seus lábios. ela gostava dele assim: cru, amplificado, no limite. "santorini..." ela murmurou, a voz ecoando suavemente no azulejo frio, enquanto levava as mãos molhadas para segurar o rosto dele, os polegares traçando as maçãs do rosto com uma possessividade calma. "aquele camping era um desastre sanitário, alex. mas admito... a adrenalina de sermos pegos lá tinha um gosto especial." ela sorriu com a lembrança, se inclinando para frente, roçando os seios ensaboados contra o peito dele, provocando o atrito deliberadamente. a menção de que ele queria "aproveitar cada segundo" soou como música, ou talvez como o aviso de uma tempestade. "mas prefiro aqui." ela sussurrou contra a boca dele, antes de beijar o canto dos lábios dele devagar, provando o gosto residual do uísque. "aqui eu não preciso me preocupar com pedras nas costas, nem com quem está olhando." alexandra moveu os quadris lentamente sobre ele, um movimento circular e fluido sob a água, sentindo a dureza dele contra a sua entrada, mas parou ali, no limiar, prolongando a tortura. "agora, voltando ao presente..." ela deslizou a mão da nuca para o rosto dele, acariciando a barba por fazer, a voz ficando mais rouca e honesta antes de continuar. "e falando sério... não é só pela adrenalina. é porque é você. qualquer outro teria fugido na primeira curva, mas você acelera junto. eu gosto disso. gosto de como a gente se entende sem precisar explicar a bagunça que a gente é. então faz valer a pena... porque eu não queria estar em nenhum outro lugar agora." ela sorriu, um sorriso pequeno e cúmplice, antes de sussurrar contra a boca dele. "e eu não quero desperdiçar fôlego falando quando eu poderia estar usando ele pra sentir você." ela terminou de descer o corpo, recebendo-o por completo, soltando um suspiro trêmulo que ecoou pelo banheiro.
starter aberto ⸻ para todos os públicos (4/6).
onde: área coberta do bar no terraço, santorini.
“não é realmente importante. dormir, acordar. nunca teve uma ressaca em que acabou em outro país?” ele dispensou quase no mesmo instante em que a pergunta foi disparada, como se não valesse o esforço de organizar os fatos em ordem cronológica. deu aquele riso fácil que vinha quando queria diminuir o peso das coisas, e já pediu mais um copo de bebida para si, outro para o interlocutor. “e é algo como: se a presença aqui é incômoda, sempre existe a possibilidade de pegar um jatinho de retorno.” ou um avião comercial, para os pobres. ele então se inclinou um pouco para a frente, o foco mudando com a velocidade de seus pensamentos. “sobre o hotel, na verdade, o que sente que está faltando? em termos de instalações. talvez uma piscina coberta para dias como esse?” o olhar atento, que oscilou das janelas que recebiam a chuva intensa e então de volta para quem conversava. interessado de verdade, porque trabalho era uma das poucas coisas que conseguia levar a sério quando queria. um meio sorriso surgiu, carregado daquela permissividade perigosa que ele oferecia como convite. “não se preocupe de ser extravagante, cariño.”
alexandra soltou uma risada rouca, o som se misturando ao barulho da chuva no telhado. ela pegou o copo sem cerimônia, brindando ao ar antes de beber um gole generoso. "você fala a minha língua, bello." ela sorriu, debruçando-se sobre o balcão e invadindo o espaço pessoal dele com a facilidade de quem não conhece o conceito de limites. "acordar em outro país sem saber como chegou lá é praticamente minha rotina de terça-feira. a única diferença é que, geralmente, eu acordo com menos roupas e mais fichas de cassino no bolso." quando ele falou em "extravagância" e "piscina coberta", os olhos dela brilharam com aquela malícia infantil e perigosa. ela girou o copo na mão, fingindo pensar, mas a resposta já estava na ponta da língua. "piscina coberta? que tédio. isso é para velhinhos que têm medo de se molhar na chuva." ela piscou para ele, desafiadora. "você disse para não me preocupar em ser extravagante, certo? então anota aí: o que falta aqui é uma rota de fuga decente. um tobogã do terraço direto para o mar? ou melhor... um cassino subterrâneo. daqueles bem ilegais, sem janelas, onde a gente não precise ver essa chuva e onde o dinheiro troque de mãos sem perguntas. se você construir a mesa de poker, eu prometo trazer os jogadores. o que me diz?"
ana finalmente saiu do hotel. decidiu andar por aí e parou em frente ao mar, tirou os fones de ouvido e observou o pôr do sol e o belo oceano, juntos como em uma obra de arte. sabia que podia ficar horas a fio naquela praia, mas o universo tinha outros planos para si. por mais que já estivesse acostumada com o ódio dos animais para com ela, ao ouvir o primeiro latido olhou para o pobre do tutor, que carregava cerca de cinco cachorros de grande porte, e apressou os passos na areia fofa quando viu que os cachorros, em uma onda inexplicável de fúria, estavam mais do que prontos para correr atrás dela. “ah, puta que pariu!”, praguejou e entre passos apressados caminhou pela orla até encontrar a loja mais próxima de onde estava. com os latidos se intensificando, não pensou duas vezes em entrar ali mesmo e fechar a porta de vidro atrás de si. “oi…”, cumprimentou ofegante o trabalhador da loja e muse, que parecia ser cliente do local. “alguém pode me dizer pra qual lado fica o hotel aletheia?”, sorriu em uma tentativa de ser simpática, mas claramente deixava o nervosismo transparecer, o que só piorou quando os cachorros apoiaram as patas nos vidros e latiram raivosos, fazendo com que ela se afastasse assustada e esbarrasse de forma brusca com muse. "desculpa...", pediu imediatamente. "de verdade, me desculpa...".
alex estava apoiada no balcão, girando um isqueiro entre os dedos, quando a porta se abriu com estrondo. enquanto a maioria das pessoas se assustaria, alex soltou uma risada curta e genuína ao ver a matilha furiosa do lado de fora. "uau. cinco contra um? isso que eu chamo de fanbase dedicada." alex comentou, desencostando do balcão e dando um passo à frente, sem o menor sinal de medo. ela olhou para os cachorros rosnando no vidro e depois para a garota que pedia desculpas profusamente. "relaxa, docinho. se eles quebrarem o vidro, eu cuido do doberman, você pega o pastor alemão e o cara ali..." ela apontou para o funcionário com um sorriso torto. "...bom, ele serve de isca enquanto a gente corre." ela piscou para a outra, achando graça da palidez dela. "o aletheia? sorte a sua, eu estou indo pra lá. tenho um carro lá fora, que espero que os seus amigos peludos não tenham mijado no pneu. se você prometer não atrair lobos para o meu banco de couro, eu te dou uma carona. vamos?"
Havia crescido sob a tutela de uma mulher perigosa e potencialmente sociopata? Sim, mas nos últimos tempos, levando a vida que levava envolta em tanto luxo e, principalmente segurança, Ettore havia se tornado um pouco medroso demais para alguém que crescera sem pais e batendo carteira por Veneza, ou enganando turistas de coração mole em alguma das ruas de Milão nas curtas temporadas por lá junto de sua mãe. O ponto era: desde que havia conhecido Alexandra, confiava nela para tirá-lo de novas enrascadas, mas isso não significava que não estava quase tendo um treco por aquela rodovia. Prova disso era a forma como realmente estava quase arrancando o puxador da porta, como Alex havia apontado. E estava um pouco pálido também, mas nada tão notável para alguém com aquele bronzeado estonteante de quem estava acostumado a pegar a quantidade certa de sol por dia. — Nada que não tenha rótulo? Pelo amor de Deus, Alexandra, se eu for morrer, que seja pelo menos na minha cidade! E um lugar onde meu sorriso não vale de nada não é exatamente um lugar onde eu posso te proteger. Pode me adiantar, pelo menos, que classe de gente vamos encontrar lá dentro? Se eu devo me importar em voltar com todos meus órgãos? Eu sou gato e novo demais pra morrer, Alexy!
FLASHBACK — COSTA AMALFITANA, ADEUS SANTORINI
"veneza é úmida demais para um fantasma, ettore. e eu me recuso a explicar para a polícia italiana por que o acompanhante mais bonito de mônaco despencou de um penhasco no meu turno." alex riu baixo, o som ecoando levemente na cabine do carro enquanto ela desligava o motor, mergulhando-os num silêncio quebrado apenas pelo som violento das ondas batendo nas pedras lá embaixo. ela se inclinou no banco, observando o drama dele com aquele afeto zombeteiro que só quem compartilha cicatrizes entende. alexandra sabia que, por baixo daquele bronzeado caro e do medo de morrer jovem, ainda existia o garoto que batia carteiras. ela só precisava lembrá-lo disso. "relaxa. eu sou vaso ruim, lembra? e vaso ruim não quebra." ela piscou para ele, destravando o cinto de segurança. era a primeira vez que sua estranha "imortalidade" parecia um presente, e não um fardo, porque significava que podia estender aquele escudo invisível sobre ele. "enquanto você estiver colado em mim, o universo não vai te matar. ele gosta de me ver sofrer, logo, fique em paz quanto a isso." alex abriu a porta, sentindo o vento salgado bagunçar seu cabelo, e se virou para estender a mão para ele. "e lá dentro? apenas... gente como nós éramos antes do mundo nos dar um banho de loja. contrabandistas, pescadores e gente que prefere não ser encontrada. eles não querem seu sorriso, bello, eles querem seu dinheiro no poker. então, por favor, me deixe proteger você dessa vez. eu cuido das facas, você cuida de não parecer que custa mais caro que o prédio inteiro. fechado?" sem esperar muito pela resposta dramática que sabia que viria, ela o puxou em direção à entrada escavada na rocha. não havia porteiro, apenas uma porta de ferro pesada, corroída pela maresia, e um armário humano de braços cruzados que cheirava a graxa e peixe velho, alex tomou a frente. ela trocou duas frases rápidas em um dialeto local áspero com o segurança e deslizou algumas notas amassadas para a mão dele. a porta se abriu com um gemido metálico. o interior era um ataque aos sentidos, o oposto absoluto dos salões de mármore de mônaco. o teto era baixo, com vigas de madeira escura sustentando a rocha natural, e o ar era uma mistura densa de fumaça de charuto barato, álcool forte e suor. mesas redondas estavam espalhadas pelo salão mal iluminado por luzes pendentes amareladas, onde homens com rostos curtidos pelo sol jogavam cartas com uma intensidade silenciosa. quando entraram, algumas cabeças se viraram. alex sentiu o peso dos olhares, não de admiração, como ettore recebia nos hotéis, mas de avaliação predatória. eles eram duas manchas de luz e beleza num lugar feito de sombras. alex apertou o braço de ettore, guiando-o pelo meio da fumaça como se estivessem num baile de gala, e não numa toca de lobos. "olhos baixos, postura alta." ela sussurrou perto do ouvido dele, sentindo a tensão no corpo dele. "lembra das ruas de milão, ettore. você não é a presa aqui. você é só um turista entediado procurando emoção. deixe que eu seja o perigo." ela o empurrou suavemente em direção a uma mesa vazia no canto, de onde podiam ver todo o salão, sorrindo porque, pela primeira vez em muito tempo, sua propensão ao caos era exatamente o que manteria o coração dele batendo.
a sensação de que algo faltava foi estopim para a paranoia — como na maioria das vezes — exacerbada de sabrina dar as caras. a atmosfera do hotel parecia estranha demais e suas suspeitas foram confirmadas quando se deu conta da movimentação policial no saguão, além dos olhares curiosos dos transeuntes. não os julgaria, também tinha interesse em compreender a situação e tinha quase certeza que não era por acaso. certamente, estariam num espiral de loucura coletiva e nada de bom poderia sair dali. e uma breve ponderada foi o suficiente para saber que suas suposições delirantes, além de aparentemente corretas, lhe explodiriam uma odiosa enxaqueca e, portanto, concluiu que estava indisposta para dramas tão cedo. quaisquer que fossem os motivos da aglomeração, não eram de sua conta, torcia que não.
portando um copo com drink colorido — tinha consciência que cedo para alcóol, mas as lacunas memoriais eram a desculpa que precisava para o deslize —, não hesitou em acomodar-se numa das espreguiçadeiras próximas à piscina, deleitando-se do calor solar. no entanto, antes mesmo que sua pele esquentasse, uma sombra pairou sobre si. sério?, pensou abrindo um dos olhos e se deparando com muse à sua frente. "você está cobrindo o sol!" murmurou "eu sei que as coisas estão estranhas, mas, vamos lá, olhe para onde estamos. por que nos preocuparmos?" completou, ajustando a postura na espreguiçadeira "só será um assunto relevante para mim quando pagarem minha consultoria."
a verdade é que alexandra nem tinha percebido que estava bloqueando o sol. ela tinha parado ali porque a visão da água, mesmo que fosse aquela água mansa e artificial, foi a única coisa que fez seus pés pararem de andar automaticamente. seu corpo estava rejeitando a terra firme, a pele ardia, e a piscina parecia um curativo temporário e insuficiente. ao ouvir a reclamação, ela piscou, saindo do transe, e olhou para baixo. uma mulher bonita, com cara de quem tinha advogados caros na discagem rápida. "foi mal." ela murmurou, sem muita convicção, movendo-se para o lado. "estava distraída tentando decidir se essa piscina é funda o suficiente pra prender a respiração até o mundo lá fora parar de girar." ela chutou uma pedrinha imaginária no chão de pedra, inquieta. "e não se preocupa. a última coisa que eu quero agora é me envolver em 'assuntos relevantes'. acabei de chegar de berlim e minha cota de caos já estourou. se a polícia vier perguntar, eu sou só a sombra que atrapalhou seu banho de sol."
o celular não parava de vibrar acima do balcão do bar, com khalid encarando sua tela sem conseguir acreditar. não deveria estar bebendo, considerando os últimos acontecimentos, mas com seu número sendo vazado e tanto a mídia quanto outros enchendo seu celular de mensagens, era difícil continuar no quarto do hotel. o conforto não viria do álcool, sabia disso, mas ao menos estava em outro ambiente com outras pessoas. respirou fundo, percebendo a presença de outra pessoa. "foi mal, acho que meu celular nunca mais vai ser o mesmo." tentou brincar, com um sorriso sem graça, decidindo finalmente desligá-lo. se alguém da sua equipe precisasse falar com ele, teria de esperar seu novo número. ou esperar ele voltar ao hotel e responder via e-mail. guardou o aparelho no bolso da jaqueta, apoiando os cotovelos no balcão em seguida. "desculpa incomodar de novo, mas... o que está bebendo? vou pedir um igual. tô sem cabeça até para decidir uma coisa dessas. loucura, né?"
o zumbido do celular sobre o balcão estava começando a competir com o barulho do mar na cabeça de alexandra. ela observou, pelo canto do olho, o rapaz lutar contra a própria tecnologia como se estivesse desarmando uma bomba. quando ele finalmente guardou o aparelho e falou, a voz dele cortou o silêncio que ela tentava cultivar desde que saiu do avião. alex girou o copo na mão, o gelo batendo contra o vidro. ela reconhecia aquele tipo de exaustão no rosto dele, não era a exaustão física de quem dançou por três dias em berlim, mas a exaustão mental de quem está sendo caçado. "loucura é deixar um pedaço de plástico e vidro ditar seu humor." ela respondeu, a voz rouca, sem se virar totalmente para ele. "mas se o seu plano é queimar os neurônios pra esquecer o que quer que esteja acontecendo nessa tela, você escolheu a companhia certa." ela empurrou o copo na direção dele para que visse o líquido âmbar escuro. "mezcal. sem sal na borda, sem frescura. tem gosto de fumaça e terra." ela finalmente o encarou, seus olhos analisando a postura dele com uma curiosidade predatória. "vai pedir um igual ou prefere algo que não pareça gasolina descendo?"
não houve o som das botas contra o mármore. não houve a entrada triunfal. houve apenas o susto de abrir os olhos e encontrar um teto com pinturas neoclássicas em vez do concreto industrial e escuro de um clube em berlim. alexandra sentou-se na cama num solavanco, o lençol emaranhado nas pernas. o relógio marcava meio-dia do dia 7 de janeiro. o local: hotel aletheia, grécia.
a última coisa de que se lembrava era o grave do techno batendo em seu peito na berghain, na noite do dia 6. ela estava no meio da pista, suada, buscando a exaustão, tentando se afogar no som já que o mar se recusava a matá-la. e então... o apagão. um corte seco.
sua cabeça não doía como numa ressaca de álcool. a dor era diferente. era uma angústia física, localizada no centro do peito, como se ela tivesse passado os últimos seis dias gritando por socorro em uma praia deserta e ninguém tivesse olhado para trás. o sonho, ou o pesadelo que sua mente deletou, deixou um gosto amargo na boca: o gosto de ser esquecida, de ser deixada para sangrar.
ela olhou para o canto do quarto. suas malas estavam lá. feitas.
alexandra levantou-se, as pernas bambas, e caminhou até a bagagem como se fosse desarmar uma bomba. abriu o zíper. o processo foi cirúrgico e confuso.
primeiro, puxou o casaco de lã pesado de nova york. a peça ainda cheirava a perfume caro e solidão estática. aquele natal tinha sido um teatro para uma plateia de uma pessoa só, trancada num airbnb com vista para o parque, comendo comida gourmet para provar ao fantasma do pai que não morreria pobre. mas ali, segurando o tecido no quarto do hotel, a vitória tinha gosto de cinza. em manhattan, ela sentiu o terror de criar raízes.
logo abaixo, amassadas, as roupas pretas de berlim. fediam a fumaça e a suor. o ano novo que deveria ter sido seu exorcismo, sua fuga do controle, tinha sido interrompido. ela não voltou para a grécia; ela foi trazida. como uma peça de xadrez movida por uma mão invisível.
"que porra é essa..." ela sussurrou, a voz falhando.
de repente, alexandra parou. a pele de seus braços começou a pinicar. uma coceira fantasma, irritante, subindo pelo pescoço, muito pior do que o habitual.
se antes era apenas uma rejeição biológica à terra firme, agora parecia uma alergia à própria existência. a sensação residual do sonho, a dor do abandono, se misturava com a natureza que odiava raízes. seu corpo ardia como se o chão do hotel estivesse queimando, como se a terra a repelisse e os deuses (aqueles pintados no teto) estivessem rindo da sua irrelevância.
ela largou as roupas no chão, ignorando a bagunça de lãs caras e vinil barato, e correu para a varanda. precisava de ar. precisava de sal.
o cheiro do egeu invadiu seus pulmões e a coceira diminuiu minimamente, mas a raiva permaneceu. lá embaixo, o mar batia nas rochas. o Gossipoli dizia que ela tinha voltado em transe, com olhos dourados, parte de uma "histeria coletiva". alexandra apertou o parapeito de metal até os dedos ficarem brancos.
ela odiava a "segurança indesejada" que a salvava das ondas. mas odiava ainda mais a força que a sequestrou de sua própria vida e a trouxe de volta para este tabuleiro. ela sobreviveu à tristeza de natal e ao caos do ano novo, apenas para acordar sentindo-se uma náufraga em terra firme.
"me trouxeram de volta," ela rosnou para o horizonte, sem saber se falava com o mar, com o hotel ou com forças maiores que nem ela conseguia compreender. "agora aguentem."
se o destino queria que ela estivesse em aletheia, ela ficaria. mas ela encontraria aquela caverna subaquática. e dessa vez, ela rezava para que a água fosse mais misericordiosa do que a terra que a aprisionava.
Ivy 📲 to Alex: Foi tão bem feito que aguentou ele dormindo atrás de mim, não apertou meu juízo e ainda estava no mesmo lugar quando eu acordei.
Ivy 📲 to Alex: Sim, é, tudo vai ficar claro com uma transa. Vai que ele é ruim de cama? Ele não parece ser. Tipo, ele consegue me carregar. Lembra as histórias que eu já te contei de caras que se negaram a me carregar simplesmente porque eu sou grande? Ele me carregou como se eu mão pesasse nada, ou seja, no mínimo, ele tem força o suficiente pra foder bem.
Ivy 📲 to Alex: Ele já tá arruinando minha paz. É no nível que eu queria ter tirado uma foto da bunda dele quando ele se virou de costas, e que eu fiquei com ódio por ter ficado bêbada e melancólica porque eu poderia ter passado a minha noite olhando pra esse homem sem camisa.
Ivy 📲 to Alex: Ok, isso vai soar estranho, mas eu juro por tudo que é mais sagrado que esse homem cheira a pão que acabou de sair do forno e a livro novo.
Alex 📲 to Ivy: amiga pelo amor de deus
Alex 📲 to Ivy: pão quente e livro novo??? você tá saindo com um personagem escrito por mulher ou o quê?
Alex 📲 to Ivy: isso é golpe baixo!!!! esse cheiro é literalmente a definição de "conforto perigoso", é cheiro de casa, ivy. foge (mentira, não foge não)
Alex 📲 to Ivy: olha, homem que tem força pra te manusear bêbada, habilidade manual pra fazer coque E cheiro de padaria chique... a estatística diz que é cilada. ninguém é perfeito assim
Alex 📲 to Ivy: mas a minha intuição diz: SENTA NELE
Alex 📲 to Ivy: sério, vai tirar a teima. se ele for ruim de cama, o encanto do "homem perfeito" passa na hora e você volta a ser a ivy racional
Alex 📲 to Ivy: se ele for bom... bom, aí a gente vê se interna você ou se eu pego o próximo voo pra avaliar o sujeito pessoalmente. vai lá e me conta os detalhes sórdidos depois, please
Má gestão de riscos. Alex acabou por rir baixo novamente, divertindo-se com o termo, porque isso parecia definir bem a vida que levara até ali: espaçoso e grande demais ao longo de seus trinta e sete anos para se fazer caber em ambientes onde esperavam que ele se comportasse ou fosse capaz de se adequar para agradar — ainda que tivesse feito isso algumas poucas vezes, normalmente para ver as esposas ou amigos mais próximos, confortáveis em alguma situação mais pública e que deveria ser usualmente mais contida. O ponto era: como sempre acreditara que não tinha muito a perder, um novo dia sob alguma situação desnecessariamente estressante ou perigosa lhe servia como um lembrete poderoso do que era feito, do motivo pelo qual continuava existindo e perambulando por aí. Por isso, novamente, era tão interessante que sua trilha tivesse se cruzado com a de Alex: alguém igualmente destemida, igualmente despreocupada, ou talvez igualmente desacreditada do que valia à pena e agora em busca de qualquer coisa que a motivasse a continuar também, ainda que essa coisa não fosse exatamente Alexander, mas os batimentos cardíacos e a sensação avassaladora de adrenalina que poderia proporcionar à ela no final das contas com alguma garantia de que, se tudo desse errado, tendo sido treinado para isso, o Crowther estaria na linha de frente por ela, fazendo o possível para garantir sua segurança. — Você não anda conhecendo muitos homens decentes, então, porque qualquer um que se preze deve sobreviver a tudo e ainda rir no final. — Brincou ao que apertava um pouco mais os dedos na altura da nuca feminina, a respiração se prendendo por breves instantes. O sangue correndo um pouco mais rápido pelas veias, em outro lembrete frequente na presença de Alexandra: se não se contivesse, seus impulsos tendiam a ser desastrosos e explicitamente impudicos, ainda mais com o toque dela contra sua fivela e os lábios femininos contra seu maxilar, perigosamente instigantes. E poderia ter acatado a sugestão da mais nova imediatamente, mas precisou agir como o bom Crowther que sabia ser, avançando rapidamente e tomando os lábios dela contra os seus, atestando novamente o gosto do rum e de outras bebidas partilhadas entre eles ao decorrer da noite, mas interrompidas conforme precisavam estar realmente sóbrios para empreenderem aquela fuga. — Pronto. Agora, sim, estamos a caminho. Se ajeita aí.
[...]
O hotel em questão era bonito e tinha seus traços majestosos, mas Alexander realmente se afeiçoara ao Aletheia, então quando passaram pela porta, foi fácil ignorar os detalhes do ambiente espaçoso e automaticamente se aproximar de onde sua cama estava, jogando sobre ela a jaqueta que usava e chutando os sapatos também para baixo dela. Uma falsa postura distraída antes que começasse a desabotoar a própria camisa dourada, a passos consideravelmente lentos, já que seus olhos estavam focados na companhia da amiga. Num mundo ideal, se ainda ouvisse as recomendações de seu psiquiatra, saberia que não deveria dividir um quarto justamente com Alexandra, mas não era como se estivesse se preocupando muito com as consequências em geral daquela viagem específica. Na verdade, enxergava-a mais como um prêmio dado tudo que havia passado nos últimos tempos. — Esta é a parte em que você para de me torturar ou eu ainda serei submetido a cenas perigosas de Alexandra Mai no chuveiro ou se trocando na minha frente? — Brincou, aproximando-se do corpo feminino apenas para abandonar alguns beijos na altura do ombro dela, posicionando-se atrás de Alex exatamente quando terminava de abrir o último botão de sua camisa. Talvez ele próprio aceitasse um banho, mas não recusaria também o conforto da cama colossal que os aguardava agora que os músculos pareciam relaxar depois de toda a situação que acabaram de vivenciar. De qualquer forma, foi sua vez de pescar proximidade com a lateral do rosto de Alex, abandonando ali um beijo antes de roçar levemente a barba por fazer. — Seja como for... Você foi foda pra caralho hoje.
alexandra caminhou até a penteadeira do quarto, jogando a bolsa de qualquer jeito sobre o tampo de mármore. o espelho devolvia a imagem de alguém que tinha acabado de sair de uma zona de guerra de luxo: o cabelo revolto pelo vento da fuga, o batom vermelho levemente borrado e os olhos brilhando com aquela eletricidade que só o risco de morte trazia. ela começou a retirar os brincos pesados, respirando fundo e soltando em seguida, observando pelo reflexo a aproximação lenta de alexander, o predador saindo da sombra.
o toque dele, firme e possessivo na nuca, fez ela fechar os olhos por um segundo, absorvendo a tensão. ele era o único que conseguia tocar nela assim: como se ela fosse algo precioso, mas que pudesse quebrar, ou explodir, a qualquer momento. o contato da barba dele contra a pele sensível do pescoço enviou uma corrente elétrica direta para o baixo ventre de alexandra, um reflexo involuntário que misturava desejo e o resquício da adrenalina da fuga. ela não se afastou, ao contrário, inclinou a cabeça para o lado, expondo mais a jugular, num gesto de submissão enganosa que durou pouco. com um movimento fluido, ela girou dentro do abraço dele, ficando de frente para o peito agora exposto, as mãos subindo devagar pelo abdômen definido de alexander, sentindo a temperatura da pele dele sob as pontas dos dedos frios. ela deslizou as mãos até os ombros dele, empurrando o tecido restante da camisa para fora, querendo ver as cicatrizes, a história violenta gravada na pele dele que combinava tanto com a bagunça interna dela. o elogio sobre a performance dela no cassino pairou no ar, o melhor afrodisíaco possível. "eu só segui o seu ritmo." respondeu ela, a voz rouca e o tom mais suave agora. "você tem um talento natural para transformar o caos em algo elegante. é difícil não entrar na dança quando é você quem está guiando." sem desviar o olhar, ela levou as mãos às alças finas do vestido esmeralda. com um movimento simples, o tecido de seda deslizou pelo corpo dela como água, amontoando-se no chão do hotel em uma poça verde luxuosa. como prometido no carro, não havia nada por baixo. ela estava ali, nua, vulnerável apenas fisicamente, mas com a postura de quem ainda estava no comando da mesa de poker. ela deu um passo para trás, em direção ao banheiro, mas manteve o olhar preso ao dele, um convite que soava mais como um desafio. "eu vou tirar o cheiro de charuto russo e pólvora da minha pele. a porta não tem tranca." ela disse, um sorriso divertido e um olhar . "a escolha entre ser um voyeur torturado ou um participante ativo... é toda sua. mas eu não demoraria muito se fosse você."
Ivy 📲 to Alex: Hi gorgeous.
Ivy 📲 to Alex: Babes, eu vim para Santorini com uma missão, não poderia abandonar meu posto, mas no futuro, sim, iremos, eu conheço lugares ótimos por lá.
Ivy 📲 to Alex: Hum... sabe a Lucille? Girl... o drama está aumentando a cada segundo, mas tudo que eu espero disso meu próximo sobrinho.
Ivy 📲 to Alex: E por mim? So... I met a guy. Era para só ser sexo, sabe? Um cara alto daquele deve foder tão bem que iria ajudar inha saúde mental.
Ivy 📲 to Alex: Ai... ele foi um cara descente e cuidou de mim bêbada. No nível de sair me carregando como se eu não pesasse nada e fazer coque no meu cabelo e... foi bom, estranho para um caralho, mas bom.
Ivy 📲 to Alex: Now, I'm conflicted.
Ivy 📲 to Alex: Tipo, eu ainda quero transar com ele, mas agora eu estou me importando com como ele está?
Ivy 📲 to Alex: Eu não sou o tipo de pessoa que se importa com o estado emocional de macho.
Alex 📲 to Ivy: vegas foi insano, quase fui presa (na próxima seremos nós ok??), mas o que importa é a fofoca de santorini
Alex 📲 to Ivy: ele fez um COQUE no seu cabelo??? bêbada???
Alex 📲 to Ivy: ivy que tipo de homem sabe fazer um coque decente???
Alex 📲 to Ivy: sério, ponto pra ele por ter cuidado de você. a maioria teria sido escroto ou aproveitador. se ele te carregou e fez seu cabelo, ele no mínimo teve uma boa mãe ou muitas irmãs
Alex 📲 to Ivy: eu voto em você transar com ele e resolver esse conflito interno na cama! às vezes pode ser só tesão acumulado, talvez?
Alex 📲 to Ivy: mas se ele for bom de cama E gente boa, a gente se preocupa. se for só um dos dois, você tira de letra
Alex 📲 to Ivy: mas vem cá... o quão gato ele é de 0 a 10? nível "bonitinho" ou nível "vai arruinar minha vida"?
Alex 📲 to Ivy: e o mais importante: ele cheira bem? homem que faz coque geralmente cheira a perigo e couro
— Descanse em paz, vestido. Mas... Eu posso saber se, pelo menos, tem alguma coisa debaixo dele me esperando assim que voltarmos ao hotel? — Indagou sob um tom divertido enquanto com a mão livre segurava o pulso dela, mas não para pará-la; apenas para afagá-la enquanto terminava de conduzir o carro. Se Alexander estivesse pensando um pouquinho que fosse, teria noção de como estava se enfiando em um velho e perigoso espiral, sobretudo porque Alexandra simbolizara, nos últimos tempos, a parte de si sedenta por um nível de adrenalina que conseguia deixá-lo praticamente cego, incapaz de analisar pesos e medidas. Deste modo, ela não deveria estar fazendo parte de seu projeto de sobriedade, mas daí a conseguir resistir ao vestido que ela usava e à forma como deixava-o em alerta durante todo o tempo que estavam juntos? Era demais. Continuava sendo potencialmente periogoso, mas depois de tanto tempo tentando se manter neutro e controlado, aquela noite em Las Vegas lhe soava como um bálsamo. Destrutivo, mas ainda assim, um bálsamo. Ainda mais quando tinha uma mulher como ela validando o que ele fazia, fosse arrancar de maneira totalmente não planejada com um carro de aceleração fatal ou correr o risco de ser esfaqueado por meia dúzias de caras que, no tempo em que ele e Alex estavam indo até a saída, estavam prontos para acertá-los com lâminas ou tiros, certamente. E aí residia o qualificador daquilo tudo: estar com alguém que não tentava reduzi-lo, moldá-lo e encaixá-lo... Isso era absolutamente maravilhoso, ainda que intoxicante. Novamente: destrutivo. Mas brutal e eficiente. — Uau. Essa é a coisa mais romântica que você já me disse até hoje. — Suspirou mantendo o tom de brincadeira antes de abrir um novo sorriso, despretensioso, mesmo que, temporariamente, sua atenção estivesse naquela última curva antes de estacionar, também às pressas, meio de qualquer jeito. Apenas para que pudesse dar alguma atenção digna à Alexandra, finalmente, antes de levar a mão dela, a contra seu peito, até seus lábios, beijando e mordiscando a região em seguida. O dinheiro não importava para ele, então ficaria todo com a amiga, claramente. Ainda assim, a sensação gelada contra seu calor usual, provocou-lhe alguns arrepios enquanto, agora, regularizava mais sua respiração, recostando a cabeça no banco e levando o outro braço até o apoio do de Alexandra, facilitando o acesso dela à si enquanto sua outra mão ia até a nuca feminina, enroscando-se ali com considerável firmeza mesmo que fosse para uma carícia atenciosa, até. — Como fizemos depois de ondas assassinas, cavernas não mapeadas, trilhas com equipamentos velhos e agora que jogamos com russos... — O sorriso dele aumentou, antes de estreitar um pouco mais os olhos na direção de Alexandra. Era tentador se ver refletido naquele brilho instigante, quase psicótico. — Acho que a pior parte é saber que eu posso terminar morto indo na sua onda, mas, ainda assim... — Um riso baixo, mas calculado. Não eram palavras deslumbradas ou apaixonadas, apenas assumidamente confiantes e duvidosamente sinceras. — Continua valendo à pena pra mim quando vejo esse sorriso.
o toque firme na nuca não a fez recuar, pelo contrário, o corpo de alexandra arqueou-se instintivamente em direção à mão dele, como um felino buscando o atrito. havia algo na aspereza daquela palma, calejada por anos de faixas e luvas de boxe, que acalmava a tempestade elétrica na mente dela de uma forma que ela tinha certeza que nenhuma droga conseguia. ela sustentou o olhar dele, as pupilas dilatadas engolindo a íris enquanto ele listava o currículo de quase-mortes que compartilhavam. ouvir aquilo soou melhor do que qualquer declaração de amor convencional. era a prova de que ele não apenas sobrevivia ao caos dela, mas o memorizava com o mesmo carinho distorcido, logo, parecia inevitável não sorrir com a lembrança que ele havia trazido e que vinha em flashes na memória de alexandra. ela deslizou a mão que estava no peito de alexander para baixo, até alcançar a fivela do cinto, sem abri-la, apenas uma promessa do que viria. "isso é o que eu chamo de má gestão de riscos, alexander. apostar a sua vida contra a minha diversão..." ela sussurrou, um sorriso torto curvando os lábios ao encarar as cicatrizes dele. "você é o único homem maluco o suficiente para sobreviver ao meu caos e ainda rir no final. é um talento raro." ela se inclinou mais, aproveitando que o carro finalmente estava imóvel para roçar o nariz na linha do maxilar dele, sentindo o cheiro de perigo e vitória. "sobre a sua pergunta técnica... você sabe que eu odeio estragar surpresas." ela murmurou, a voz rouca, os lábios roçando o queixo dele. "mas digamos que, com a pressa do convite... algumas peças de roupa foram consideradas opcionais." alex moveu as pernas no espaço apertado do aston martin, o vestido esmeralda deslizando o suficiente para que a pele nua e quente da coxa tocasse o tecido da calça dele, confirmando a insinuação. "então eu sugiro que você seja rápido agora. o motor desligou, mas eu não." o sorriso dela se alargou, voraz, enquanto ela apertava levemente o metal da fivela dele, desafiando o autocontrole dele, ao passo em que seu olhar quase que predatório alternava entre os olhos e a boca de alexander. "vamos sair daqui, antes que eu perca a paciência e a gente acabe sendo preso por atentado ao pudor aqui mesmo no banco da frente."
five times smiled: ( five times the sender made the receiver smile ) [ ORFEU ]
1. o sorriso da descoberta (quando ele tocou só para ela): não foi quando ele tocou para os reis ou quando fez as pedras chorarem. foi quando eles estavam sozinhos, sentados na grama alta, e orfeu, o grande músico, parecia nervoso. as mãos dele tremiam antes de tocar as cordas da lira. ele improvisou uma melodia torta, imperfeita, que tentava imitar o som da risada dela. eurídice sorriu não pela perfeição técnica, que ele tinha de sobra, mas pela vulnerabilidade de vê-lo tentar, desesperadamente, ser humano o suficiente para merecê-la.
2. o sorriso da manhã (a composição na pele): orfeu tinha o hábito de compor dormindo ou no limiar do sono. eurídice acordou com ele murmurando melodias contra a curva do pescoço dela, os dedos dedilhando a coluna vertebral dela como se fosse o braço do instrumento. quando ela se mexeu, ele resmungou que ela havia "arruinado o crescendo". o sorriso dela foi sonolento, preguiçoso e cheio de uma intimidade doméstica que valia mais do que qualquer ode épica.
3. o sorriso da natureza: eles estavam tentando ter uma conversa séria, bastante reflexiva, mas um rouxinol começou a cantar alto demais, competindo com a voz de orfeu. em vez de se irritar, orfeu entrou na brincadeira, duelando musicalmente com o pássaro até o animal pousar no ombro dele, vencido. eurídice riu abertamente, um sorriso largo e divertido, balançando a cabeça diante do absurdo que era amar um homem que o próprio mundo natural se recusava a ignorar.
4. o sorriso na escuridão (no submundo): o lugar era frio, silencioso e desprovido de cor. eurídice já estava se esquecendo do calor do sol, tornando-se uma sombra entre sombras. mas então, o som chegou. a melodia de orfeu rompeu a barreira da morte, ecoando pelas paredes de pedra do hades. antes mesmo de vê-lo, antes mesmo de saber se ele conseguiria tirá-la de lá, ela sorriu. foi um sorriso fraco, pálido, mas cheio de uma esperança dolorosa: ele tinha vindo. ele não tinha aceitado o fim.
5. o sorriso do adeus (o olhar para trás): é a tragédia que os tornou conhecidos. no momento exato em que orfeu duvidou e olhou para trás, quebrando a única regra, ele viu eurídice. ela não estava chorando. ela não estava com raiva. enquanto seu corpo começava a desvanecer e ser puxado de volta para as sombras eternas, eurídice sorriu uma última vez. um sorriso triste, de perdão e de amor absoluto, como quem dizia silenciosamente: "eu sabia que você olharia. porque você me ama demais para confiar no escuro."
como para a maioria das pessoas, para a alex, a música sempre um refúgio muito feliz. ela podia ouvir outras pessoas cantando sobre o que sentia e não se sentir sozinha com aquele sentimento, sem a necessidade de compartilhar necessariamente com alguém. vivendo a realidade que viveu, a música foi seu único lugar de conforto por muito tempo, e não à toa, ela leva consigo esse escape até hoje. sua conta no spotify não é bem um segredo, mas também não é exatamente pública, onde muitas das suas playlists são secretas. além disso, ela adora fazer playlists para pessoas, situações e tudo mais o que conseguir. se você recebeu uma playlist dela, sorte a sua, alex deve gostar de você.