Pra você passar
Eu preciso confessar, eu gostava do tapete. Gostava de olhar pra ele e imaginar um milhão de coisas; Gostava de fazer as pessoas desviarem dele pra não ferir mais meu chão. Gostava de nos ver dançando alí... Era só na minha cabeça, eu sei. Mas ainda assim, ainda que por alguns falsos minutos, éramos 'nós'. E o que pode existir além disso? 'Nós' é a palavra mais bela já inventada, quando referida à gente. Agora eu olho pro tapete alí, no chão... agora, ele pode ser pisado. O fato de não ficar olhando a cada segundo não me alivia em nada. Aliás, não era do tapete que eu gostava, gostava do que tinha por baixo. Gostava do buraco ao qual ele tapava. Depois de tanto tempo, você acredita que eu ainda me pego levantando o tapete pra ver se encontro o buraco? Mas até o buraco você levou contigo. Você costumava me fazer flutuar sobre o tapete, enquanto dançavamos. Mas de repente, você se distraiu. Ou fui eu quem o fez? Ninguém pode dizer. À medida que eu caía e você não via, eu fantasiava como poderia ser fazer de abrigo aquele buraco. Segundos antes de descobrir, o buraco sumiu. E eu me esborrachei no tapete. Alguma vez, o buraco de fato existiu? Foi você quem retirou, ou será que eu acordei?












