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@amar-e-lindo
🙊 - a partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora. #gregorioduvivier (em Teresina)
Meta do dia ✔🚀 👑 ✨
Feliz aniversário pra irmã mais velha travestida de caçula. Pra pessoa que conhece os meus extremos e que já me mostrou os seus. E continuamos aqui mesmo depois disso. É o melhor que há na vida, não é? A certeza de nunca estar só. O melhor presente que meus pais poderiam me dar. Obrigada por sempre estar aí e aqui dentro sempre que precisamos. Somos chatas, mas não mudaria nada em nós. Apenas meus erros, é claro. Amo você o tanto que eu preciso respirar, como você disse uma vez. Queria poder cuidar pra que a vida só trouxesse o que faz bem. Te desejo uma vida linda, Rebeca. Nesse 23 de abril sou grata por esses 21 anos te tendo pertinho. Eu amo você, amo a gente 💛
"Sinto-me responsável pela explicação de tal inicialmente, mesmo sem ter tanta razão. Creio que a necessidade de falar sobre esse nome não seja a obrigação de esclarecimento, mas a ávida vontade de prosear sobre a menina que me destinou a escrever este livro e título. Então, leitor, espero que compreenda que o nome na capa não seja resultado de falta de criatividade minha e sim de esplêndida adoração. Talvez Dom Casmurro tivesse recebido Capitu como nome caso Bentinho não acreditasse amargamente em uma traição. Seguindo pela lógica, já lhe entrego o final, Natasha não me traiu e não haverá suspeitas, ela foi meu crime perfeito. Perdoe também os clichês. Quando o lápis começou a traçar esta história e se recusou a ser uma mera composição, lágrimas caíram de meus olhos. Tive certeza que eram de amor! Natasha viveu ao meu lado por exatamente trezentos dias, sem tirar nem pôr. Por que a frase está no passado? Por que os anos passam, as estações se renovam, as árvores acompanham, as aves vão junto, as pessoas também vão. Os anos voam para longe. Mas pregando o nome dela na capa desta narração, quero pregar também aquele ano. Escrevendo o nome dela com a melhor letra que tenho, quero escrever também ela própria junto de seus traços e curvas. E é por essa razão que eu quis tanto que você, leitor ou leitora, visse estampado, junto de um rosto desenhado, esse nome tão belo e sincero. Talvez eu atire a única cópia deste livro na lareira depois de tanto sofrimento, ou talvez eu entregue para divulgação, e assim ela voltará para me amar e dizer “eu avisei que você escrevia muito bem”. Mas no fundo, lá no fundo, não espero nada mais do que uma mera narração que me traga paz após o término." #natasha #flaviaandrade #voucomprarcigarrosenãovolto
Escrever é fazer faxina.
O que você faz para sentir? "É para poder sentir tudo que eu digo, falo, pinto um quadro, faço uma música..." #mauroamatuzzi #porumapsicologiahumana #psicologia #humanismo (em Parnaíba)
Não sou eu na foto. Mas poderia ser. Também poderia ter escrito esse texto. Ele fala de mim. Fala da minha mãe, talvez. Provavelmente de 10 a cada 15 mulheres que encontro na rua. Provavelmente fala de mais algumas que vão esbarrar com ele nas linhas do tempo dos nossos caminhos. #Rensta #Repost: @_carolinie via @renstapp ··· “ Tá magra. Tá gorda. Acima do peso. Todos esses rótulos. E eu como me identifico? Oscilo como minha autoestima. Como minha quantidade de líquido / sangue. Eu visto 43. O 42 não me cabe (de lojas mais tradicionais que relacionam felicidade a estar magra e só caber em mulheres de no máximo 38/40, essas já não me cabem há anos). Os 44 ficam grandes. 43 seria perfeito. Não quero engordar nem emagrecer . Estou feliz aqui desse jeito. No futuro pretendo sim voltar a correr e yoga. Mas por hoje estou feliz e acolhida. Às vezes eu fico doente e volto pro 42 em duas viroses. Aí na rua as pessoas dizem que eu to mais magra, to linda, to emagrecendo... As mulheres comentando, meus amigos e eu doente? Com a Lily Allen também. Ela tinha bulimia em tava em todas as capas de revista sobre melhor corpo. Por isso essa ainda sou eu: num lançamento sobre estar acima do peso ainda procuro a calcinha com faixa de cinta pra esconder a marca da barriga na saia. Essa sou eu, no meio do caminho. No meio de meu caminho. #mejulguem #gostosaslindasesexies #cantodamulherquecanta louca pelas calças @blubetty_allsizes ”
Meu tumblr completou 6 anos hoje! <3
Sua poesia tem tom errado, não faz sentido, só é bonita como são as minhas frases pra você. Sua poesia é para os desesperados, seu canto é pra acalmá-los e eu escrevo, escrevo sem pensar alto, escrevo o que você me causa. De toda forma, tudo é verso, ainda que só pareça paisagem. De todo jeito, é sobre você e sobre mim, sobre dois esquecidos em corações nostálgicos. Se você faz estrofe e eu faço parágrafos, se a gente inverte e inova, se tudo vira livro ou folha amassada no lixo, a mensagem já nos alcançou: é amor. Um de lá e um de cá, um tem rimas e outro não, um canta as músicas conhecidas e outro canta o que ninguém nunca ouviu: somos nós nos amando. Risca todas as linhas que eu borro todas as páginas, porque frente a frente a gente não diz nada: é só isso, só o que precisamos.
Flávia Andrade (via aflaviaandrade)
As almas de Halley, Eduardo Sabino
Em junho de 86, o Halley partia. Sem deixar boas imagens. Mesmo em abril, quando esteve mais próximo da Terra, não passou de um borrão no céu.
Meu tio-avô Dêca continuava a ir ao topo da Serra da Calçada todas as manhãs. Não levava telescópio nem binóculo, apenas seus olhos místicos de longo alcance. Nem a distância nem o tempo encoberto o impediam de ver, ouvir e sentir o Halley.
“Ele disse que não vai ceder”, leio no seu diário. Difícil entender o manuscrito: um fluxo torto correndo à revelia das pautas horizontais. As crises de outros tempos retornavam com força assombrosa. Tio Dêca via em toda a matéria do universo um organismo vivo; em todo objeto, um interlocutor em potencial.
Em suas aulas espirituais sobre o cosmos, assistidas por meia dúzia de bêbados e mendigos na Praça Bernardino, Tio Dêca dizia que nenhum cometa, asteroide ou estrela se aproxima do mundo em vão. Trazem sempre almas consigo.
O Halley era um traficante sacana: distribuía os frutos podres do universo.
***
Vovó conta que seu irmão perambulou ensandecido nas ruas de Nova Lima na véspera do meu nascimento. Saiu a cavalo no início da noite e empreendeu uma via-sacra-acoólica pelos copos sujos da cidade. Fez plateia discutindo com postes e assombrações. Bebeu tanto que desmaiou em cima da sela e o cavalo, adestrado em noites de porre, o levou para casa.
Talvez suas explosões não chamassem tanto a atenção como em outros períodos. Talvez o velho Dêca fosse o único a olhar o céu e buscar um cometa por entre as bandeirinhas verdes e amarelas dos varais nas ruas. Nove de junho, fase de grupos na Copa do México. Por que perder tempo com uma bola de fogo quando o Maradona fazia o diabo com uma de futebol?
***
Data de trinta anos, o surto. Tio Dêca havia desistido do trabalho antes da aposentadoria e morava às custas dos familiares em um barraco alugado. Saía de lá por raros motivos, um deles as andanças na Mata do Jambreiro e na beira de um afluente do Rio das Velhas. Pescava piabas e, vez ou outra, encontrava uma pepita de ouro.
Segundo ele, tudo teve início ali, em um desses passeios, quando um triângulo de luz esverdeada o perseguiu mata adentro. Quando o objeto o tocou, a natureza sumiu. O cenário ao redor virou um fundo colorido de viagem psicodélica. Viveu um dia inteiro de iluminações.
Encontraram o velho recostado em um eucalipto no Rego dos Carrapatos, cheio de lanhos nas pernas. Imolava-se com um canivete e dizia que tudo no mundo – as pessoas, as montanhas, os bichos, o céu e a terra – era feito de plástico. Só existia uma consciência verdadeira no universo e ele a havia sentido por alguns instantes.
***
Atravesso o quintal tomado por mato e ferragem e entro na casa onde Dêca passou cinco anos enclausurado. O piso de cimento liso, as telhas de amianto, as janelas lascadas, um vazio de centro onde devia ficar a cama. Nas laterais as montanhas de livros. Os exemplares dispostos na vertical, sem organização alfabética ou de qualquer ordem. A bíblia sagrada ao lado de um Quixote mofado.
Um ano da morte de vovó e a poeira se assentou no cômodo. A poeira que ela adiou por tanto tempo, limpando o barraco semanalmente. Nunca deixou que o acervo fosse doado. Nas barbearias e botecos da cidade, dizem sempre o mesmo: os livros arrebentaram o juízo do velho.
De fato, muitos dos cúmplices com quem ele manteve uma relação sobrenatural nos anos seguintes estão ali. Philip Dick domina o recinto, em edições dos anos 70 caindo aos pedaços. Dick era uma das vozes na cabeça de Tio Dêca e com a qual ele conversava em 83. Um falando em inglês, o outro português e ambos se entendendo. O fato de Philip Dick estar morto àquela altura não dava o menor ruído na comunicação. Era um bate-papo sem barreiras de tempo e lugar.
***
Tenho os olhos dele, as pessoas dizem. O cabelo anelado, a cabeça grande. Talvez um jeito de se perder do momento e soltar o fio das conversas. A voz grave e a respiração nasal travada. Falam da fome por livros e a sede por bebida, mas esse tipo de coisa não se herda.
Comigo os fantasmas vieram comendo nas beiradas. Jamais tive uma teofania ou metade das experiências de Tio Dêca. Sou obrigado a pensar nele toda vez que algo de novo acontece. Nele e nos indícios de uma possível esquizofrenia hereditária. O que mais temo nesta vida: a barragem da razão um dia se romper, a insanidade me inundar por completo.
Gostaria de não ter vivido nada fora do normal. Se pudesse, varreria tudo: a infância povoada de sombras. Gente falando horrores dentro da cabeça.
Quando atravessei a fachada da igreja do Rosário no tiro, aos sete anos, um sujeito me agarrou no meio da rua e evitou um atropelamento. Mamãe veio correndo ao nosso encontro e me abraçou chorando. Ninguém entendeu a correria. Ninguém mais viu a imagem do menino Jesus me perseguindo com a faca na mão.
Ok, dou um desconto à imaginação de criança, sempre aflorada. Também ao fato de ter visto duas vezes Brinquedo Assassino em 93 e morrido de pavor em ambas. Ainda assim, a imagem do boneco é muito viva.
As assombrações estão em alta resolução na memória. Da sombra atlética pareada com o fusca na MG 30 ao homem de costas com quem deparei ao acordar de madrugada no chalé. Ele virou o rosto devagar e, ao notar que eu havia acordado, correu de encontro ao armário embutido na parede e sumiu. Foi uma alucinação com efeito sonoro: batida de madeira oca. Gritei meus pais, no quarto ao lado, e perguntei se tinham ouvido o barulho. “Sim”, disse mamãe. “O que foi isso?”.
“Nem te conto”.
***
Ao encontrar grávidas nos postos de saúde, no final de 85, tio Dêca se entusiasmava. Puxava assunto e queria logo saber o mês inicial da gestação. Explicava a cada uma a origem da alma que carregava. Desde agosto, as gestações estavam no perímetro de influência do Halley. Embriões do mundo inteiro recebiam suas encomendas: milhares de pilhas ocas se energizando. Fico imaginando o constrangimento das moças diante do falatório.
No ano seguinte, ao trafegar nas ruas em seu antiquado cavalo, a barba branca e o cigarro de palha colado no lábio inferior, ele observava as pessoas e sorria ao ver uma gestante.
“Semente de cometa”, apontava. “Lascou-se”.
O sorriso no rosto deu lugar à tensão quando a barriga de mamãe estufou. Ficou uma semana casmurro, na dele, vendo televisão e escutando rádio.
Quando mamãe estava perto, balançava a cabeça e murmurava coisas para si mesmo – ou para alguma alma penada.
***
Não foi o mesmo após a experiência com o óvni. O triângulo entrou em sua mente, inseriu dados, escancarou os sentidos.
Não só Philip Dick esteve em sua cabeça. Outras personalidades tiveram com ele, de Santos Dumont a Galileu. Não se limitava a receber visitas. Ia, com frequência, a outras mentes e lugares. Deitava no chão, fechava os olhos, o corpo estremecia por breves segundos e ele voltava a si cheio de memórias delirantes, quase sempre bíblicas.
Sentiu-se na pele de João Batista após a decapitação. Voltou reclamando de dores na cabeça e torcicolo. Esteve na mente de um cristão perseguido durante o Império Romano. Trouxe, ao voltar de viagem, toda a insegurança do outro.
Escondia-se debaixo da cama e tremia quando passava uma viatura na rua.
***
Ver e ouvir almas: de todos os dons ativados no encontro com o triângulo de luz, seu maior tormento. As almas o atazanavam diariamente, sempre em busca de uma oração, uma vela acesa, uma psicografia.
Nunca quis ser intermediário dos vivos e mortos. Nunca salvou ninguém, alma ou vivente. Gostava de falar com as vozes na cabeça; nem respondia as vozes do exterior. Fazia discursos no banco da praça sobre as grandes questões espirituais do universo; não dava a mínima para as locais.
Se ele não cedeu às súplicas das almas, tampouco elas lhe deram sossego. Quando cavalgava na cidade de madrugada, espraiando as ideias numa corrida sem rumo, jamais esteve realmente só.
Dormia com proteção nos ouvidos.
***
Descobri uma forma de aquietar as minhas.
Um dia acordei e o menino estava sapateando no quarto. Vinha de um filme antigo: boina, macacão e sapatos lustrados. Nenhum refletor no teto e a luz amarela no seu entorno. Peguei a vassoura na área de serviço e tentei afugentá-lo, sem sucesso: o cabo da madeira atravessou-o sem danos.
Somavam força ao moleque as vozes na cabeça, meus pensamentos em linha cruzada. Um homem e uma mulher discutindo, um inferno. Então me levantei, peguei o caderno na mochila e corri ao banheiro. Cérebro e estômago queimando. Coloquei uma cadeira à frente do vaso sanitário e apoiei o caderno. O fantasma me seguiu aos pulos e ria feito o garotinho retornado de Cemitério Maldito. Atrás do box surgiu uma velha, gemendo, e me pus a escrever.
Encarnei a própria imagem da criação precoce: um garoto escrevendo enquanto caga, cagando enquanto escreve. A primeira história longa teve início à meia-noite e terminou no canto do galo. Uma história simples e batida sobre aventureiros em uma ilha misteriosa. Fui descendo as palavras na folha e imaginando as cenas. De repente eu estava lá, na ilha. De repente o menino e a velha sumiram, as vozes se calaram e o silêncio da noite me abraçou.
***
Não sei como se dá. As almas estão em uma dimensão, os vivos em outra. A ficção abre um terceiro lugar, um refúgio. Escrevo e os demônios se aquietam, como um bando de crianças prestando atenção num contador de histórias. Faço careta para os vultos no canto do quarto e durmo tranquilo.
Um mês sem escrita e tudo ganha atmosfera sinistra. Coisas estranhas em lugares improváveis. Lembro de quando cheguei atrasado no trabalho. A literatura engavetada no computador, os relatórios em dia. Um mês dormindo e babando no travesseiro. A máquina de ponto não aceitou a impressão digital. Estourei a tolerância de quinze minutos. Daí em vez do convencional “tempo es-go-ta-do”, ouvi um claríssimo “la-men-to pela sua dor”. Girei trezentos e sessenta graus e só encontrei as paredes da antessala do escritório. No visor da máquina, um bom-dia em caixa-alta. Lembrei que estava com saldo no banco de horas, me enfiei no trabalho e não pensei mais nisso. Agora mesmo a cena me vem como a lembrança de um sonho – talvez eu estivesse no nível automático da vida, empurrando os dias como um sonâmbulo.
De toda forma, quando eu digo que sem a literatura a cabeça já teria explodido, estou sendo apenas literal.
***
Achei as folhas dobradas em um livro de Mark Twain. Outro que está virando banquete de traças na biblioteca de Tio Dêca. Nos papéis, referências sobre várias passagens do Halley. Registros de astrônomos maias, desenhos egípcios, indícios bíblicos. Observo o recorte de jornal, o Halley no céu de Nova Iorque, calda longa e nítida. Se os pavões já são belos, imagine um pavão em chamas. Corria o ano de 1910. Tudo muito lindo não fossem os boatos de que o cometa lançaria nuvens químicas na Terra. Nunca venderam tantas máscaras de gás na Europa.
***
Uma lenda, entre as muitas lendas nova-limenses. Um cavalo que ronda a cidade nas madrugadas. Ninguém sabe de onde surge, para onde vai. Quando passa na minha rua, passa sempre às duas. Um código repetitivo na Matrix, quem sabe?
Talvez seja mesmo uma assombração. Quem sabe Tio Dêca se foi e a alma do seu cavalo ficou? Vai ver ainda não conseguiu se livrar dos antigos hábitos do dono.
Decidi registrar a imagem. Ver se sairia alguma imagem. Por muitas noites, enquanto escrevia, mantive a câmera preparada. Até ouvir os cascos em uma quarta-feira. Fui à janela, fiz os cotovelos de tripé, mirei o cavalo preto e cliquei. No exato instante, descia um táxi e, por sorte, flagrei um belo encontro: o carro branco jogando luz no bicho e o cavalo pego na contraluz dos faróis: uma sombra maravilhosa e insólita. Tirei uma foto para desmistificar a lenda e só consegui reforçar o mistério.
Não estou sozinho nos meus devaneios. Alguns amigos nova-limenses creem que fotografei um cavalo-fantasma. Será que a mineradora está despejando alucinógenos no Rio das Velhas?
***
Voltemos ao dia zero. Antes de assombrar a cidade, o cavalo teve uma vida, e ele estava lá, no dia 10 de junho, no quarto de Tio Dêca. Na noite anterior, entrou na casa pelos fundos, o homem desmaiado em seu lombo. Praticamente o colocou para dormir.
Tio Dêca acordou com o relincho: o bicho ao pé da cama, os olhos fixos, orelhas para frente, rabo abanando. Levantou-se, puxou o cavalo até o quintal, desencilhou-o e tomou um banho gelado, possivelmente com uma ressaca arrebatadora.
Na padaria do bairro, pediu o de sempre: um cafezinho e três pães de queijo. De lá, passou na banca de revistas e comprou o jornal de São Paulo, com a melhor cobertura da Copa. Fez o caminho de volta sem chamar a atenção de ninguém. Nem parecia o mesmo louco da véspera.
Quando vovó chegou em sua casa, encontrou-o chorando, trêmulo, a página dupla aberta rente ao nariz. Tinha acabado de ler a notícia do ato dos açougueiros na Rua da Consolação: uma desossa em via pública de uma carcaça de boi, simbolizando a falta de condições econômicas dos estabelecimentos.
“O que você tem?”
Ele ergueu a fotografia da página.
“Sou um boi desossado, mana”.
***
Passou a tarde inteira no boteco do Joaquim. A bolsa de mamãe estourou e ele não quis se juntar ao resto da família no banco de espera do hospital. Catou moedas e cruzados nas gavetas e cantos da casa e se mandou.
Joaquim ainda está vivo, e seu boteco, em funcionamento, na Praça do Mineiro. Um homem de meia idade, rosto enrugado e expressivo. Os cabelos ainda não de todo brancos. Devia ser muito jovem naquele tempo.
Ele me conta que meu tio-avô estava tenso e desconcentrado. Cachaça a cachaça, cigarro a cigarro, ia ficando louco.
Participou do truco e, na primeira rodada, jogou o zap e queimou o espadilha. Perderam o tento e seu parceiro ficou indignado. Tio Dêca socou a mesa, revidou os insultos e foi tomar outra no balcão. Já chegou afugentando um possível fantasma.
No rádio, o jogo da Argentina. Maradona entortando a zaga búlgara. “Dieguito hoje está com o diabo nas pernas”, Joaquim comentou. Tio Dêca virou mais uma branquinha e disse a ele que ter o diabo nas pernas devia ser uma maravilha.
“O problema é quando ele sobe pra cabeça, Joaquim. Aí é que fode tudo”.
***
Fim de jogo. Dois a zero para a Argentina, líder absoluta do grupo A. Dêca se levanta, ajeita a calça e fica imóvel. O laudo apontou um infarto fulminante, Joaquim aponta outras coisas. Ele narra a cena com desenvoltura. Não está mais atrás do balcão e gesticula bastante. Um malabarista sem malabares. Noto pelo entusiasmo e as pausas calculadas, “vai escutando, vai escutando”, que ele já contou a história muitas vezes.
Vez ou outra, parece se lembrar que está fazendo um relato de morte a um parente do morto. Nessas horas, força no tom de tristeza com artificialismo hilário.
A narração prossegue. Antes de ir ao chão, Tio Dêca se indispôs do estômago. Uma rajada do balcão ao banheiro, Joaquim ilustrou, mostrando o longo corredor estreito até o ponto final do vômito, na certa exagerando. Contou detalhes ainda da coloração: um jato dourado e borbulhante, saindo fumaça.
Depois que vomitou, Dêca olhou para o teto do boteco, sorriu e tombou. “Já bateu mortinho no chão”, disse Joaquim, e depois consertou: “Foi logo levado por Deus”.
Me pergunto se eu já havia nascido. Se chegamos a dividir a Terra, por segundos que sejam, e para onde Deus ou o cometa o levaram depois.
Eduardo Sabino nasceu em Nova Lima-MG no dia 10 de junho de 1986. É escritor e jornalista, autor do livro de contos “Ideias noturnas sobre a grandeza dos dias” (Editora Novo Século, 2009). Venceu, com o conto “Sombras”, o concurso literário Brasil em Prosa 2015.
Descompasso
Ela era assim, brisa fresca
Por de sol calmo, tranqüilo e efemeridade permanente
Nós éramos assim, respirações compassadas
Paixão morna, sorvete de maracujá derretido
Somos agora uma ilusão, aquela ilusão que nunca deixou de ser o que é
Éramos o que éramos, éramos o que sempre fomos e o que nunca deixamos de ser
Éramos simplesmente um quase, um eterno vir a ser
Éramos de fato uma criação minha, uma necessidade enrustida
Que desgraça
Éramos sim um desejo viciante
Uma vivencia almejada
Éramos isso e por pouco teríamos sido mais
Se, e despretensiosamente se, fosse um delírio recíproco poderíamos ter sido um algo além desse anseio
Poderíamos ter sido uma ilusão compartilhada, um desejo sobremaneira satisfeito, uma vida sim experimentada, gota por gota.
Mr. Tumnus invites Lucy for tea :)