A gente se perdeu. E ponto.
Era para ela que eu desnudava minha alma todos os dias, em todos os momentos, com todas as tristezas. Era meu porto seguro, e a bússola que me dava a certeza de estar seguindo no caminho certo. Conhecia meus segredos, enfrentava comigo meus medos, e arrumava a bagunça que eu teimava em cultivar dentro de mim.
Quando ela precisava ser cuidada, era por pouco. Afinal, ela sempre trajava alegria, muito bem adornada por um sorriso de apaixonar. Era meio boba, do tipo que ri sozinha e tropeça na rua quando vê um cara bonito. Era a luz da Lua brilhando, com suas mil e uma estrelinhas acompanhando. Era a praia inteira em um único olhar, e o mundo todo em um único abraço.
Mas aí ela virou bagunça também, bagunça demais. E, meu, eu já era baguça suficiente. Não arrumava nem a mim, não conseguia arrumar ninguém. Ela ficou sozinha, eu também. Juntas, os cacos até tinham ordem, agora não mais. Era tudo um turbilhão de vários nadas.
A gente não se perdeu aos poucos, foi de primeira. Tipo tiro no peito, sem chance de sobreviver. A gente se perdeu porque sim. Sem mais, ou “mas”. Foi por falta de tentativas, desistência na certa, talvez medo ou receio, mas certamente uma boa dose de falta de vontade.
A gente se perdeu porque a monotonia do sofrimento parou na porta de ambas, e não sobrou ninguém pra fazer piada. A gente se perdeu porque o fantasma do passado pareceu vivo de novo. As histórias cabeludas vieram à tona, mas a gente se escondeu. E cada uma seguiu um caminho, desde lá.
Eu não sou muito sem ela. Ela não é muito sem mim. Mas a gente já se perdeu. E agora, vida que segue.