Quando ervas daninha cresceram em meu jardim,
involuntariamente, desarrumei os quadros, lavei cada canto com ĂĄgua salgada, e deixei as cortinas fechadas para que o sol nĂŁo entrasse. E por muito tempo nĂŁo houve luz. Apenas deixei tudo empoeirar.
Até que em uma manhã de outono, alguém bateu na porta. Espiei pelo olho mågico, e me intriguei. Era a boba da corte. O que ela fazia em minha porta?
Abri uma pequena fresta, e ela me estendeu um livro. NĂŁo havia porquĂȘ de ler, eu ja o tinha em minha estante. Mas caramba, era um dos meus favoritos!
Tirei a poeira da estante.
Na tarde seguinte, ela voltou e deu-me um poema. Frente e Verso. Nesse momento, um raio de sol iluminou a sala.
Tirei a poeira da gaveta para que pudesse guardĂĄ-lo com cuidado.
Na manhã seguinte, ela bateu a porta novamente. Desta vez, trouxe-me café.
- Me acompanha?
Sua voz acordou o som das batidas em meu peito. Nesse momento, senti vontade de abrir mais que uma fresta.
A deixei entrar. E ela entrou sem questionar a bagunça.
A verdade Ă© que apesar dos sorrisos, danças e belos poemas, de boba nĂŁo tinha nada. Ela entretia a plateia, mas quando as cortinas se fechavam, ela estava lĂĄ. SĂł. No lugar dos aplausos, vem o silĂȘncio. Junto ao silĂȘncio, incertezas. Essas que nos fazem duvidar atĂ© de nĂłs mesmos.
Ela entendia muito bem do caos. O conhecia de perto.
Afinal, todos passamos pelo sufoco da guilhotina em algum momento. Onde ao invés do pescoço, são colocados nossos coraçÔes. Somos condenados a dor, pela corte de pessoas que deviam nos amar. E resta a tristeza em nossos olhares somente por lembrar.
E nesse momento a maré calma dentro de si, se transforma em vendaval. Desses que escorrem por seus olhos, e fortes ondas batem em seu peito. Dor. Ainda sim, ela sorri.
Após a guilhotina, precisamos nos reencontrar, reinventar, reexistir, recomeçar. Passo a passo, caminhar. Espero meu jardim, um dia à ela mostrar.
Quem sabe se ela se Ă© ncantar, haja vontade de ficar.
Talvez se eu plantar girassĂłis, quem sabe..
E quanto a minha bagunça, bom...
Nessa manhĂŁ, lavei todo canto com carinho, arrumei os quadros e enfim, abri as cortinas. Tirei a poeira, arrumei os mĂłveis, e novas cores pintam minhas paredes.
BordĂŽ, turquesa, azul, branco, uma paleta infinita. NĂŁo estou mais presa somente Ă tons escuros. A luz entrou. Os raios de sol aquecem a sala cada vez mais, e eu me sinto viva outra vez.
Ei boba! Se vĂĄ ou fique, espero que sempre ilumine. sua alma Ă© tĂŁo linda quanto vocĂȘ.
Se vå ou fique, agradeço. minha sala agora tem mais luz, poesias e café fresco.
De qualquer forma,
teu retrato sempre estarĂĄ na minha estante.
meus ouvidos a espera da tua risada (e gemidos).
e nossas xĂcaras sempre a espera da sua voz novamente.
- Me acompanha?

















