[Flashback] A girl who never wanted protection and the boy who gave it anyway — Arya & John
As palavras de cunho ofensivos do sonserino ainda ecoavam nas paredes de pedra enquanto ele virava a esquina no fim do corredor. Eram todos tão iguais que John jamais se surpreenderia com uma reação diferente do garoto, que o levasse a precisar tomar algum outro tipo de posição. Pelos seis anos em que atendia a escola de magia seu caminho havia cruzado com um alto número de indivíduos inseridos no mesmo estereotipo ultrajante do jovem de segundos antes, e apesar de ter se incomodado em demasia nos primeiros anos, quando se deparou com a situação pelas primeiras vezes, aprendeu a conviver “normalmente”, de forma que não atirasse qualquer um pelas janelas espalhadas pelo castelo; o que seria um problema, se lembrarmos que alguns lugares de Hogwarts se encontravam a vários palmos do chão. O exemplo do dia parecia ter vindo do mesmo molde dos outros sonserinos – em sua maioria, claro, haviam casos específicos de almas de podridão semelhantes, mas pertencentes a uma das outras Casas –, e até mesmo as palavras usadas com o objetivo de irritar mais a John e a menina ao seu lado tinham semelhanças. Tão típico que o primeiro pensamento antes de resolver inferir entre os dois foi o de não interferir. Then what the hell I’m doing here?
Poderia concluir então que sua interferência envolvia o repentino interesse pela outra parte da briga. A outra parte se encontrava a alguns palmos abaixo de seu campo de visão, tinha longos cabelos castanhos trançados desajeitosamente, olhos de mesma cor que lhe encaravam com igual curiosidade, mas eram carregados de um orgulho visto em poucos. Não eram tantas meninas em Hogwarts que chamavam a atenção de John, tampouco eram as tão mais novas que ele. Aquela em especial conseguira prender sua atenção por meros trinta segundos antes de ser interrompida pelo sonserino, e por alguma razão que ainda desconhecia, tinha o interesse em saber quem era, e como, por todas as tiaras perdidas de Rowena Ravenclaw, ela conseguia flutuar daquela forma?
A voz da mais nova irrompeu seus pensamentos de repente, mas estranhamente John sentiu, em decorrência de sua pequena análise anterior, que a resposta tomariam aquele exato rumo. "Eu sei me cuidar." É claro que sabe. Ele sabia agora também que mesmo sem sua interferência ela resolveria o episódio com o sonserino sem muitos problemas, a diferença de tamanho e idade não pareciam ser um problema para a garota. Limitou-se a sorrir com o agradecimento, acenando positivamente com a cabeça para que ela soubesse que ele a ouvira. — Não foi nada. — Respondeu ao encarar a grifana com seu semblante sério, eliminando o sorriso enviesado que estampava no rosto. — Não tenho dúvidas que sabe se cuidar. — Deu alguns passos para longe da mais baixa, indicando com os olhos turquesa as escadarias em movimento que tremiam em suas costas. Ele jamais esqueceria aquela cena. — Alguém que salta nas escadas em movimento pode ser considerado alguém que sabe se cuidar? — Seus olhos pousaram na garota mais uma vez, ansiosos por uma resposta. O questionamento tinha elevada ironia no tom, e falsamente dando de ombros, John encaixou ambas as mãos nos bolsos da calça preta. Ora lá, não é todo dia que sua atenção era tão prazerosamente aguçada.
Pelas barbas de Godric Gryffindor, Arya descobriu-se intrigada. O rapaz estava sorrindo, nada além disso, e por algum motivo que a sextanista jamais ousaria proferir, seus olhos não piscaram até que ele voltasse à seriedade. Nunca antes algo tão simples quanto um meio sorriso a deixara carente de reação ou próxima daquele estado de paralisia, como se imersa em uma fenda no espaço-tempo. Ele não devia ter mantido a curva nos lábios por mais de cinco segundos talvez, e maldito o fosse, por tê-la deixado naquela condição com tão pouco. Oh, não estava gostando disso. Ela não era dada ao emocionalismo como grande parte de suas amigas ou como qualquer uma moldada à sensibilidade. For Merlin’s sake, Arya Wardlaw não era uma garota qualquer, ela não se abalava. Pois que esquecesse o que aconteceu então e se recusasse a admitir que havia algo de diferente naquele ravino, algo que nunca encontrara antes. Aquele seria seu segredo.
— Eu sei. — Ela reiterou sua sentença anterior, insistindo para que ele não voltasse a duvidar de sua capacidade. Teria resolvido o problema com o sonserino sem precisar de intervenção ou ajuda de ninguém, o ravenclaw fora apenas uma surpresa em seus planos. E para demonstrar parte do orgulho que sentia por sua independência, a escocesa ergueu o queixo, preferindo respondê-lo com um olhar teimoso a dizer novamente que sim, sabia se cuidar. Por que era tão difícil para o mais velho deixá-la em paz? Se, por um acaso, tivesse em busca de alguma menina indefesa, que fosse procurar em outro lugar, pois ali não havia nenhuma. Que o estranho fosse bancar o príncipe em um cavalo branco com quem acreditasse em contos de fadas. Arya poderia listar vários nomes que ficariam contentes em satisfazer a fantasia de herói do desconhecido. Vários nomes que, igualmente, ficariam encantados com o sorriso dele. Isto é, se tivessem a oportunidade de vê-lo.
Então suas íris castanhas acompanharam o movimento do rapaz e repousaram sobre as escadas, as mesmas sobre as quais saltara momentos antes. Céus, ele a tinha visto. Devia achá-la insana. Mas, não era como se isso fizesse a menor diferença. Arya acrescentara uma diretriz pessoal aos preceitos dos espadachins: um Dançarino da Água não se importa com o que podem pensar dele. — Por que não seria? — Respondeu com outra pergunta, olhando para ele de volta. Tinha um quê de insegurança e uma exclamação de curiosidade em sua voz. A primeira por não saber em que ponto o ravino queria chegar e a última por descobrir-se a fim de saber o que achava disso, para sua própria surpresa. Para tanto, sequer deu atenção ao tom de ironia nas palavras alheias. — Até onde sei, eu saltei e não tenho um arranhão. Isso deve dizer alguma coisa. — Era seu contra-argumento, e ao final dele, a gryffindor cruzou os braços na altura do peito. Não como uma atitude negativa em resposta ao diálogo ou uma maneira de defrontar-se com o jovem. E sim como um meio de demonstrar que cresciam suas expectativas quanto à conversa, um meio de dizer “me surpreenda”.














