December 1978 | Pra você guardei o amor que sempre quis mostrar | Sumnebolt
Aquela palavra árabe significava “já estava escrito” ou “tinha que acontecer”. Era como se fosse o destino, algo que estava destinado a ocorrer. E era esse o significado que Alaric Sumner tinha em sua vida. Aquele homem apareceu em sua vida no momento em que mais precisava, de algum amigo ou confidente, alguém que iria a libertar de um futuro obscuro e sem amor. Quando era mais jovem e vivia em Fez, Marrocos, tinha uma grande influência de sua cultura e religião em sua vida, de forma que aceitava as tradições sem questionar e achava atraente a ideia de um casamento arranjado, Aysha sonhava em se casar com um homem rico que a pudesse a encher de ouro e lindas roupas. Contudo, a mudança para a Inglaterra veio com um grande choque cultural, e na medida em que crescia questionava a si mesma sobre o que queria e sobre os seus ideais, de forma que a possibilidade de um casamento arranjado passou cada vez mais a ser menos atraente, não queria se casar com alguém escolhido por seus pais, ela queria ter a oportunidade de viver um grande amor; um amor que a fizesse cometer loucuras; um amor para recordar; um amor que a fizesse se sentir viva; um amor que a consumisse por inteiro. Como poderia ter aquilo com um pretendente que seus pais estavam escolhendo? Poderia acabar desenvolvendo uma amizade ou um carinho por seu futuro marido, mas nunca chegaria a ser uma paixão avassaladora ou um grande amor. A possibilidade de um futuro como esse a deprimia ao ponto em que decidiu fugir de sua casa, e foi nesse momento em que o senhor Sumner foi mais do que essencial em sua vida. Mesmo sendo apenas seu professor na época, o homem enfrentou todos os riscos possíveis a ajudando com sua fuga e lhe dando abrigo.
Nem com todas as palavras Aysha seria capaz de descrever toda a gratidão que sentia por Rick, emocionava só de pensar como estaria sua vida se não fosse por ele. Era grata por tudo que ele tinha feito e vinha fazendo para lhe ajudar, ainda mais desconfiando que não deveria ter sido nada fácil para o homem largar o emprego de professor que tanto gostava. Era difícil imaginar outra pessoa se sacrificando tanto para ajudar alguém que mal conhecia, ou que não tinha uma grande importância em sua vida. Por esses motivos, entre outros, a jovem Shacklebolt vivia dizendo para todo que Alaric Sumner era um homem com um verdadeiro coração de ouro, uma pessoa tão boa e que já havia sofrido tanto… se tinha alguém que merecia coisas boas em sua vida essa pessoa era Rick. E nos últimos meses isso parecia estar se concretizado, para começar as vendas na loja estavam decolando a todo vapor, os lucros não paravam de subir, mas o mais importante de tudo fora o reencontro do Sumner com seu filho Liam. Há anos atrás acreditava-se que o garoto havia morrido junto da mãe em um ataque, mas quando as primeiras suspeitas apareceram de que o garoto ainda estava vivo trataram de investigar ao máximo todas as informações que tinham e quando foi confirmado que Liam estava vivo não mediram esforços para o resgatar.
Podia ver nos olhos de Rick a alegria que era estar junto de seu filho novamente. Aysha já presenciado o homem sofrer e se lamentar pela perda do filho ainda criança, de modo que era uma grande alegria para ela assistir o reencontro entre pai e filho. Era uma história emocionante, mas para quem convivia de perto a emoção acabara sendo ainda maior. E com a chegada de Liam, algumas coisas tiveram de ser adaptadas na vida que Aysha e Rick levavam, mas nada muito complicado e o que mais importava no momento era que a jovem criança se sentisse em casa e ficasse confortável. Para deixar que pai e filho tivessem um maior contato a morena não se importou em trabalhar na loja durante o turno de Rick, sabia como as coisas funcionavam por lá e estava disposta a ajudar com o que conseguisse e com o que fosse preciso. Em alguns momentos sentia como se às vezes despenhasse um papel de mãe para o garoto, apesar de que não era sua intenção substituir a mãe de ninguém. Liam era uma criança fácil de lidar, e o momento que mais adorava passar com o garoto era quando contava algumas histórias para ele durante à hora de dormir. A maioria das histórias que conhecia da sua infância, sua maioria sobre o folclore árabe e também sobre algumas histórias sobre o profeta Mohamed, essa era forma que ainda encontrava para ficar próxima de sua cultura, de sua religião e de sua terra natal. Havia crescido escutado aquilo, e era bom ter alguém com quem pudesse compartilhar.
Era noite de Ano Novo e por mais que tivessem motivos suficientes para comemorarem, fazerem uma grande festa, mas mesmo assim tanto ela quanto Rick acharam prudente que só comemorassem entre eles, afinal de contas aos poucos Liam estava se acostumando com a nova vida e rotina. Para alguém tão jovem ele havia passado por situações difíceis e complicadas, era mais do que compreensível que o garoto precisasse de um tempo para se adaptar. Pensando em todos esses fatores os três decidiram por comemorar a chegada do Ano Novo somente entre eles, cada um havia um motivo específico para comemorar sobre as boas coisas que haviam acontecido naquele ano de 1978. Em seu caso, Aysha agradecia por finalmente ter tomado coragem para viver sua vida do modo que queria, e não de acordo com as expectativas que seus pais haviam planejado cuidadosamente para ela. E para o ano de 1979 a jovem esperava que fosse um ano melhor ainda e, de preferência, com menos problemas.
Fizeram um simples jantar e depois que comeram se reuniram para ficarem conversando no sofá, os assuntos eram o que não faltavam, ainda mais diante de uma criança que adorava conversar como Liam. Mas a medida que se aproximava de meia noite foi notando que aos poucos o garoto ia demonstrando certo sinal de cansaço, até que por fim acabou adormecendo aninhado nos braços de seu pai. — Até que ele aguentou bem, não sei se outra criança iria conseguir ficar acordada por tanto tempo assim — comentou, enquanto observava a cena entre pai e filho. Mesmo dormindo a tranqüilidade estampada no rosto de Liam era contagiante, e pelo brilho nos olhos de Rick era notável que desde a chegada do filho ele estava mais feliz do que nunca.