ㅤㅤ ◜ ៹ : @asvisoesdaabbadon. ·、 *
Les viscéral, entrailles.
A citação soa não mais que um sussurro. O visor do notebook revela a linha incompleta e as palavras permanecem imóveis, inexpressivas, como se a máquina as tivesse escrito ao acaso. Uma taça preenchida pelo líquido púrpura se aproxima dos lábios secos, o contato com a substância é vivido, mas não o necessário para recobrar os sentidos. Suspiro pesadamente. A exaustão se faz presente no momento em que encaro a disposição dos números: 4:30am. Retorno para duelar com as palavras, os dedos sob as teclas sem qualquer pretensão de escolha. Não há rumo, derrotada, não posso escrever uma sílaba se quer. Um minuto se passa seguido de vários outros. Ainda encontro-me presa ao estado catatônico do bloqueio, cercada pelo nada, narrando a desconexão da história sem poupá-la do ridículo. Mencionam a normalidade do ocorrido: “Grandes escritores sempre são amaldiçoados pela infertilidade, Vivienne.” Papai me dissera mais cedo, a voz rouca entrecortada na ligação. “E, na maioria das vezes há apenas duas soluções: sexo sujo ou suicídio.” Nenhuma das opções parecia-me razoável e por esse motivo, caminhei pela chuva quando Forest encerrou nossa breve conversa. Comprei o vinho na volta.
Quando o bloqueio me acometeu pela primeira vez, Julliard pedia da herdeira Etóile um roteiro impecável e incendiário. Isso enquanto cartões de natais eram o Inferno para mim e mensagens de textos impossíveis. Pediam por um enredo quando havia apenas uma dedicatória me auto declarando um insulto, cordialmente falando. Naquela altura, suspeitava que o primeiro livro seria o último. A ideia de que o exemplar se manteria como segredo, uma incógnita até mesmo para seus leitores mais íntimos, me atraiu e atraí o suficiente para sustentá-lo no anonimato. E mesmo com uma eminente expulsão de Julliard, não pude me trair e desse modo, o bloqueio cedeu espaço para a mais crua sátira feita à Laila. Pediam por um incêndio e foram surpreendidos pelas chamas incontroláveis em sua estrutura. Na noite do lançamento, o olhar feroz da cineasta e de meus professores alimentaram-me com a inspiração necessária para retornar a escrita. Passei os próximos anos imersa no mesmo título, despindo-me a cada capítulo e no último, a dor da partida o tornou uma das obras mais importantes para mim.
5:10. O ar gélido de Paris provavelmente percorre meus pés, mas protegidos do piso com as meias grossas – um de cada par, as que Abbadon e Dragan havia esquecido –, não há incômodo em caminhar pelo apartamento até uma das imensas janelas. A cidade caí sobre o sono profundo e seus sonhos a revelam sobre a luz do amanhecer, reluzindo timidamente no horizonte. Não volto a encarar a máquina, a beleza ao olhar me impede de o fazer. Contemplo, em silêncio. O corpo descansando no estofado, frente ao vidro entreaberto, os joelhos próximos e o queixo sob ela. Um momento de acalento, conforto e segurança, algo que Paris me oferece gentilmente após cada madrugada solitária. Digo a ela que estou apaixonada. Apaixonada por sua mais pura e sincera companhia. Permaneço no limiar do físico e transcendental por algumas horas, sendo abruptamente retirada quando um automóvel atropela um ciclista na esquina. Após ligar para a emergência, prestar socorro ao homem e ser impedida de agredir o motorista, retorno para casa. Ignoro a ligação de Laila na banheira por misericórdia. O corpo é coberto pela água morna, os sais perfumando o ambiente sutilmente, enquanto meus pulmões são impedidos de alcançar o ar.
O desembarque de Abbadon está marcado para daqui uma hora, o que me permite dirigir pela Paris recém despertada calmamente. A melodia preenche o automóvel e com o cotovelo apoiado na lataria, a medida que avanço, a brisa me atinge: a ponta do nariz a mercê do inverno. Os olhos antes cansados se concentram na estrada e na massa corpórea ao redor, parisienses caminham pelas ruelas em seus casacos pesados. Com o semáforo tingido de vermelho, apanho a câmera e a guio pelo fluxo de filmagem ideal, acompanho os moradores em sua forma natural, captando as imagens de uma perspectiva distante. O simples ato de caminhar para alguns que para mim revela pessoalidade: o momento em que mulheres encaram a luta, o momento em que amantes se despedem, o momento que… Fecho os olhos, cercada pela própria escuridão. Buzina. As pálpebras se erguem e retomo a condução ainda presa a sensação. Quando as mãos apertam o volante, controlo o impulso com um mordiscar no lábio inferior e antes mesmo de perceber, o gosto ferroso de sangue é sentido.
O aeroporto surge e minutos após encontro o portão de desembarque. O telefone celular vibra no bolso da calça e por estar inquestionavelmente entendiada, me ocupo em ler as novas mensagens. A primeira notificação é de Jean: o endereço. Suspiro, o peito arfa como se o pedisse desesperadamente. Ponderando sobre minha decisão na noite anterior, constato que havia pactuado com o Diabo. Deslizo e encontro outra notificação, dessa vez de um jornal e meu nome está em destaque. Leio a matéria sobre o longa de Laila, mas a partir da terceira linha minha mente se concentra apenas nas últimas especificações da edição. Desisto e guardo o aparelho. 20 minutos… Sento-me em um dos assentos próximos, prestes a descascar ainda mais o esmalte preto em minhas unhas, no entanto um grupo de adolescentes surge repentinamente. Merda. camisas de Tarantino nunca são bons sinais.
— Vivienne Etóile? — A silhueta menor, de emaranhado louro diz. — Pode autografar nossas câmeras? Somos fãs da sua mãe. É tão maneiro conhecer você. — Suicídio, eu opto pelo suicídio. Prossegue com animosidade, o característico estusiasmo de quem ainda acredita que seus ídolos lhe apresentarão o cerne da existência humana. Ela se senta ao meu lado e sorrisos largos se formam, retomo a postura indiferente. Cruel, mas assertiva.
— Laila fará uma sessão de autógrafos esta noite. — O brilho se esvai, os sonhos sendo brutalmente esmagados. – Como se chamam? Coloco vocês na lista… — E os gritos ensurdecedores soam. Movem-se como um organismo e nesse instante percebo que há uma silhueta desconhecida atrás do grupo. — Você é?
— Huh, alguém que detesta a merda que Laila filma. — Quem diz carrega uma filmadora antiga no peito, a superfície visivelmente atingida pelo uso e validade. — Cinema-verdade não é a minha praia.
— Cinema-verdade? — Um riso meu se impõe. Para uma garota que beira os dezoito anos, ela realmente compreendeu o que é a arte. — E qual é a mentira que você filma? — A está altura as outras adolescentes ocupam-se com os comentários eletrônicos o suficiente para eu e Sofie, quem se identifica como uma caloura em Cinema, mantermos uma conversa calorosa sobre títulos clássicos. Sofie insulta Laila com criatividade e sou entretida pelos minutos restantes até o desembarque de Abbadon ser anunciado.
— Se acreditamos no mesmo ideal… por quê diabos está trabalhando para sua mãe? — Sofie indaga quando suas colegas retornam suas atenções a mim, apenas dou de ombros.
Pedindo os autógrafos com fervor desnecessário, as adolescentes me perturbam o tempo suficiente para os passageiros do voo de Abbadon caminharem para a esteira e por um segundo, penso tê-la desencontrado. Sufocada em meio às fãs de Laila, busco por salvação. E, com um olhar rápido ao redor, visualizo seus olhos castanhos familiares. Sofie ri quando a líder do vespeiro me abraça, roubando uma fotografia possivelmente desfocada minha, lanço-lhe um curvar de despedida rápida. Me despeço com cordialidade de Sofie, anotando seu número na minha lista de contatos. Anotando mentalmente que valeria entrevistá-la para um futuro estágio. Enquanto ando na direção de Abba, retiro o casaco, com o calor percorrendo o corpo por conta do estresse sem o apoio da cafeína. Minha expressão revelaria o desconforto, especialmente porque um comentário de uma das estudantes realmente havia me tirado do sério. “Ouvi dizer que Sawyer rompeu com você pelos seus surtos. Quer merda, ele é um gostoso!” Bufo, irritada. Porém, recolhendo a fúria para um momento mais oportuno, corro para Abbadon e a cerco com meus braços. Havia sentido tanto sua falta…
— A minha cadela sul-americana favorita! — Afasto-me o suficiente para cobrí-la de beijos no rosto. Cessando assim que ouvi alguns grunhidos. — Finalmente, Abba! Me diga, como está? — Pergunto enquanto caminho para a esteira, fitando seu rosto em expectativa.
Oito malas não eram o suficiente. Este era o único pensamento que cruzava a mente de Abbadon enquanto os funcionários carregavam sua última mala, talvez ela devesse adiar o voo, ter mais tempo para se preparar para passar duas semanas com Vivienne, entretanto já eram 08:50 da manhã e seu voo estava programado para decolar às 09:10, não parecia certo fazer com que todos os funcionários fossem dispensados apenas por sua crescente ansiedade diante da possibilidade de não ter tudo que precisava ter consigo. Ela sempre poderia comprar os itens faltantes na capital francesa, não era como se não fosse voltar com uma ou duas malas a mais como sempre. Não era como se não fosse ser amplamente criticada pela amiga pelo seu consumismo desenfreado e analisada friamente sobre o que isso mascarava, tudo isso aconteceria de uma forma ou de outra e mesmo assim lá estava ela subindo as escadas que a levavam para o interior do jatinho particular pronta para encarar horas e mais horas de voo com o mínimo de sono que poderia pedir. Tudo para que pudesse rever Vivienne.
Não era para menos, dois anos significavam um período de tempo considerável para não se ter notícias de alguém, especialmente quando estes dois anos tinham um ponta pé terrível para um dos lados e quando o período era excruciantemente doloroso para o outro, quando tantas coisas ocorriam que mesmo sabendo que Vivi gostaria de saber os detalhes Abbadon já tivesse decidido que assuntos pertinentes a sua vida permaneceriam enterrados, a última coisa que queria era colocar um peso nos ombros da cineasta quando esta acabara de deixar com que voltasse a sua vida. Bom, ela e provavelmente todos os outros, não se atreveria a pensar que de alguma forma fosse uma exceção aos hábitos e decisões de Vivi, não tinha sido à dois anos atrás e definitivamente não achava que seria agora, mas isso não importava, o que importava é que o convite tinha sido feito e é claro que sua mente impulsiva havia aceitado em mais uma tentativa de agradar absolutamente todos àqueles que vinham a ter contato com sua figura.
Todos exceto por si mesma. Era por isso que se colocava em situações em que sabia que odiaria cada minuto apenas para poder ter uma centelha de certeza de que alguém sairia satisfeito. Como um voo tão longo para um país frio em pleno inverno. Abbadon corria da Europa no inverno, na realidade ela fugia de todos os países frios no inverno, o frio começava e a De Rosas se obrigava a colocar-se em um voo para algum país tropical ou para um continente que ainda experimentava o verão. Todos os seus amigos, no entanto, pareciam ser amantes do frio e era assim que Abbadon sempre acabava sendo arrastada para as paisagens brancas apenas para reclamar sobre como nenhum deles concordava em ir para praia com ela e ainda assim esperavam que esta sempre estivesse disposta a colocar casacos grossos e ignorar seu claro trauma com frio apenas para que ficassem confortáveis. Ela fazia. Todo ano. Mas não custava nada esperar uma mudança de cenário de vez em quando, não é mesmo?
O pequeno desconforto da decolagem fizera com que seus olhos se fechassem e por instinto o pingente de seu colar foi agarrado como uma espécie de pedido de calma, é claro que o medalhão apenas a fazia se sentir pior e não havia motivo claro para ainda usá-lo, nem para o fato de estar usando o moletom preto surrado três vezes o seu tamanho como uma espécie de roupa de conforto. É claro que não. Não havia um motivo sequer que pudesse vir a sua mente para o motivo de ter escolhido justamente a peça que não lhe pertencia para levar na viagem apesar de seus inúmeros protestos sobre não ter espaço suficiente para transportar seus próprios pertences. Isto é, nenhum motivo a qual se permitiria pensar pelas próximas dezessete horas, nem mesmo quando o silêncio sepulcral fizesse-se presente na aeronave, nem mesmo quando o sono lhe atingisse e conforme deitasse-se percebesse que não tinha mais controle absoluto sobre seu subconsciente e as lágrimas invasivas escorressem por seu rosto insistentemente sem que pudesse dizer a si mesma o quão estúpida parecia ao chorar por eventos que já deveriam ter sido superados.
Dezessete horas e quarenta minutos consigo mesma não estava exatamente no topo da lista de coisas que Abbadon gostaria de experimentar, na verdade mais que trinta minutos sozinha com seus pensamentos já era mais do que suficiente para lembrá-la o quão quebrado e abandonado seu palácio mental parecia ser, sucumbindo aos poucos as pressões externas que pareciam se agarrar à suas paredes como raízes fortes moendo aos poucos pequenas faíscas de qualquer que fosse o pensamento minimamente construtivo que pudesse ter acerca de si.
O celular acendendo avisava que sua viagem estava quase no fim, só mais duas horas e estariam gentilmente pousando no aeroporto parisiense, duas horas ainda pareciam muito para ela, tão perto e ainda tão distante. Seus olhos estava inchados e avermelhados, o sono misturando-se com o choro criando-lhe uma aura e uma aparência de vulnerabilidade que certamente estava sendo bisbilhotada por seus seguranças, todos tinham a sensibilidade para não comentar, entretanto era muito claro que os olhares preocupados gritavam a pergunta que não queria se calar: Eles teriam problemas em mantê-la na linha em Paris ou finalmente as horas sem sono e a crescente recusa a se alimentar estavam alcançando sua mente como uma criança depois de pular seu sono da tarde? A segunda opção parecia muito mais plausível considerando que a argentina estava trocando de fuso horário pela quarta vez no mês e não tinha permanecido tempo suficiente para que seu corpo se acostumasse em nenhum lugar.
❝ — Lagston, quando chegarmos poderia por favor não fazer com que todos descessem comigo? — ❞ O chefe de sua segurança tirou os olhos de seu livro por um instante, ele parecia tão cansado quanto Abbadon, e provavelmente estava sentindo falta de casa tanto quanto ela, mas ainda havia um sorriso gentil em seu rosto quando apresentara mais uma vez o plano que tinham para seu pouso, apenas quatro dos seguranças sairiam com Abbadon enquanto os outros dois ficariam responsáveis por suas bagagens. ❝ — Obrigada, eu não sei onde estaria sem vocês.— ❞ Provavelmente morta, ela sabia muito bem disso, mas não era algo a ser dito em voz alta.
Quando finalmente sua chegada foi anunciada e o jatinho pousou tudo que Abbadon queria fazer era sair daquele avião e respirar ar puro, mas é claro que o inferno congelaria antes que fosse fotografada usando um conjunto de moletom que não lhe pertencia - que os olhos mais atentos saberiam muito bem reconhecer - e sem maquiagem com os olhos inchados daquela forma. Então antes de sair, enquanto tudo era aprontado, com seus seguranças levando suas bagagens e os funcionários sendo agradecidos, Abbadon fizera-se o favor de trocar de roupa e de esconder os traços de uma viagem mal aproveitada com uma maquiagem leve e um penteado rápido. Os óculos escuros lhe cobriam quase toda a face e mesmo enquanto era levada pelos portões de desembarque sua cabeça continuava baixa e seu corpo sendo tampado por seus seguranças apenas para que não precisasse lidar com nenhum tipo de alvoroço.
É claro que a posição não lhe dava a vantagem da visão e o susto ao sentir os braços sendo jogados ao seu entorno foi suficientemente grande para que quase cambaleasse para trás sendo segurada no lugar com uma forte mão na base de sua coluna que logo foi afastada. A tensão de seu corpo se dissipou ao raciocinar que era Vivienne lhe abraçando e logo os braços também envolveram o figura alheia. ❝ — Hey, corazon.— ❞ A voz saiu baixa e delicada, um claro indicativo do quão cansada estava e de como não estava processando corretamente seus entornos. Uma sobrancelha foi levantada por trás dos grandes óculos escuros com a pergunta de Vivi, ela queria responder que péssima, que tinha tido um péssimo mês, que seu voo tinha sido longo, que estava com fome, sono e que queria um banho, mas ao invés disso apenas sorrira e dera de ombros. ❝ — Nunca estive melhor, ainda mais agora que estou te vendo novamente, só demorou o que? Dois anos? — ❞ O dedo indicador cutucou as costelas de Vivi de forma brincalhona. ❝ — E como você está? A versão rápida, por favor, eu não quero ficar tão exposta em um aeroporto desse tamanho com pessoas olhando. Podemos ir, por favor? — ❞
Os olhos desviaram-se um pouco para a multidão e um sorriso foi dado ao olhar para um grupo, claramente estudantes de cinema, a cabeça foi apontada na direção de uma das garotas usando uma camisa do diretor Tarantino. ❝ — Eu tenho uma igualzinha àquela. — ❞ Uma risada baixa foi dada antes que enlaçasse o braço ao de Vivienne e começasse a puxar a amiga em direção a saída. ❝ — Preciso que me mande seu endereço por mensagem, meus seguranças vão levar minhas malas para sua casa enquanto comemos, eu estou morrendo de fome e eu não trouxe minha carteira de motorista então parabéns, você é a motorista da rodada. — ❞
Abbadon não odiava comida vegana, pelo menos era o que dizia a todos que a faziam comer comida vegana, mas com toda certeza não era o que ela queria no momento e por isso tinha tão gentilmente pedido por água e um mini salada de alface a qual não tinha tocado desde que o prato chegara à sua mesa. ❝ — Então, sua mãe quer que eu trabalhe com ela novamente, eu disse que eu pensaria, mas eu só queria ter certeza que você está de acordo com isso... Sabe, eu já tenho gente demais no meu pé por trabalhar com Priest, se você disser que não se sente confortável eu vou dizer não a Lila. Also...Are we preteding that you didn’t spend two years out of touch with the world or...? Because I would love to talk about that if you want it to, but I’m good in faking it too, I mean I’ve dated man for the past nine years, so...I’m very good at faking. — ❞