A insurgência do toque - Nicolás Cuello
A insurgência do toque
O que significa ser tocado? Talvez para a maioria das pessoas, no silêncio naturalizado que acomoda seus corpos na possibilidade privilegiada de não enfrentar certas questões, a proximidade do toque não pareça relevante como questionamento, embora para alguns de nós seja como uma voz aguda que cresce e de maneira insistente atordoa nossa escuta interna. Como sabemos, a distribuição do possível e as lógicas de funcionamento dos mercados de desejo guardam em seu interior uma desigualdade que se faz interminável a espera dos afetos, do desejo e do prazer para alguns corpos, enquanto para outros cristaliza a ininterrupta disponibilidade de olhares, de desejo e circulação sócio-sexual. Um diagrama desigual que organiza com uma temporalidade cruel a chegada do calor, construída exclusivamente a partir da ideia de que alguns corpos são menos desejáveis do que outros, por sua origem, por sua classe, por seu gênero e por seu peso. Isto é, por serem diferentes da projeção reguladora e normalizante que organiza o dever-ser da corporalidade. Educado na cultura sistemática da dúvida e da desvalorização do meu corpo por ser gordo, ausente de representações ou de discursos afirmativos que se referem a estas encarnações como possível, partilho uma pergunta que se move em mim como um espectro obcecado por falta de atenção, quase como um fantasma cansado de si mesmo, mas que não pode desaprender o grito que lhe deu lugar no mundo. O que significa ser tocado? O que significa ser tocado com este corpo? No momento em que um grupo de pessoas gordas começam a colocar em questão de maneira coletiva os imaginários existentes sobre nossos corpos gordos, para além de combater a patologização dos nossos modos de vida e a cultura da indústria da dieta, também se tornou cada vez mais importante falar sobre a desigualdade política que estrutura as economias afetivo-sexuais dos espaços em que nos movemos. Uma desigualdade que reproduz a desvalorização de nossas subjetividades, a deserotizarão dos nossos corpos gordos, a aceleração da ansiedade social que nos atomiza e nos fecha, concluindo em uma revitimização social complexa, promovida especialmente pelos dispositivos médicos, que nos culpam por não sermos capazes de alcançar o que queremos em questões afetivas: “Faz quando tempo que você está sozinho? Não tentou emagrecer? Talvez isso te ajude a encontrar alguém”. Mais uma vez o problema somos nós, mas nunca um sistema cultural determinado e consensualizado em que nossos corpos jamais serão valiosos, e no qual sistematicamente a complexidade de nossas potências afetivas e desejantes é destruída, enquanto a magreza é privilegiada como o único mérito e requisito para aprovação social. O preço que temos que pagar para sermos amadxs, sermos desejadxs, para atrair o olhar do outro, é abandonar a nossa pele, é deixar de existir como pessoas gordas. Somos lembrados de maneira permanente que se queremos que alguém se aproxime, nos toque, nos olhe, ou nos deseje, devemos nos esforçar, suprir o pecado mortal da nossa carne em excesso, pagar o diferencial de custo de ter um corpo maior que o resto, e negar a nós mesmos, nos desprezar. Nunca por em xeque o desejo alheio, jamais reclamar de maneira organizada contra a obsessão inquestionável por um ideal corporal produzido pelo mercado. O que significa ser tocado? Pensar em uma política radical de prazer enunciada desde um corpo gordo, hoje me leva a reivindicar uma justiça afetiva em que tanto pessoal quanto coletivamente possa ser restaurada a substância do tato, desmontando o mecanismo de dúvida e o esvaziamento auto-infligido, sem alimentar a responsabilidade com o grito disciplinante que nos chama a "Ponerle onda” ou “Mudar de atitude”. Porque se algo deve mudar para que a ternura de uma carícia não leve tanto tempo para ter lugar em nossos corpos, se algo deve acontecer para que o prazer se faça carne e exploda em nós, se algo tem que deixar de ser, hoje podemos dizer com segurança e convicção que não são nossos corpos gordos. O chamado urgente é romper com estes mecanismos de reprodução do nojo e do ódio à diversidade corporal, a gordura, às máquinas produtoras de beleza mercantilizada que domam o olhar, que desfocam a complexidade das experiências desejantes, que enclausuram o encontro com o gozo, e que transformam em série o acesso aos prazeres. Tocar/Nos deixar tocar não só envolve ativar um umbral de sentidos que disputam a natureza dos nossos corpos como lixo, programados para serem descartados, não eleitos, substituídos, também nos desafia a nos superar, embora seja difícil e nem sempre possível, afastando o mandato injusto que nos separa de nós mesmos, que não nos permite associar o prazer com a gordura, que nos submete ao sigilo, que nos mantém como um prazer oculto, que nos precariza sexualmente e nos restringe à gratidão. Tocar/Nos deixar tocar envolve um trabalho árduo de silenciar aquelas vozes que nos atormentam, fazendo-nos duvidar da legitimidade de nossas potências, para poder questionar a história do tato e sua distribuição desigual, para dar lugar ao grito indomável que exige com urgência necessária todos os beijos e todas as carícias que este mundo nos deve.
Tradução livre do espanhol de Nicolás Cuello, por Bia Varanis. Texto disponível em zine Deseable (Buenos Aires, 2016) por Jael Caiero. (Reproduzir somente com os devidos créditos!)
Foto: Untitled (line II) (1973), Liliana Porter [http://lilianaporter.com/pieces/736/assets/1650]













