Ele colocou a cadeira ao lado de sua cama e sentado nela abraçava o corpo do filho ainda quente, chorando descontroladamente e se perguntando o que havia feito de errado.
Foi a primeira vez que o vi chorar e a segunda que vi um corpo morto. A primeira vez tinha sido no enterro do avô da minha amiga, primeiro velório que fui, aos 22 anos. Mal sabia eu que dali a três semanas iria em outro. A diferença é que dessa vez o sangue do defunto corria em minhas veias.
O quarto do meu tio era escuro e tinha uma pequena janela que dava para as escadas da entrada principal do sobrado de quatro andares. Conhecia esse quarto muito bem, pois havia dormido nele quando criança. Nessa época, dormiam eu, meus irmãos e meus pais amontoados em colchões no chão. Lembro-me de acordar várias noites com a calça azul do pijama molhada de xixi. O banheiro ao lado do quarto que um dia pertencera a nós cinco tornou-se do meu tio.
Seu quarto era sujo e todos os seus pertences estavam empoeirados. O banheiro fedia e o vaso sanitário ainda continha fezes. Me aproximei do corpo e seu rosto estava em paz. Meu tio, que faleceu repentinamente de um infarto enquanto dormia – embora estivesse em um grave estado de saúde – não deixou muito para trás. Após dois casamentos infelizes e o abandono da única filha, caiu em depressão e não conseguiu abandonar o álcool, trilhando o caminho da sua morte.
Trilhando o caminho da sua morte.
Posso parar aqui em pensar em alguns questionamentos que surgiram quando meu pai, acudindo minha mãe, contou-me que meu tio havia falecido. Era um domingo ensolarado e estávamos em casa preparando o almoço porque iríamos receber a família do meu pai. O celular da minha mãe tocou e era o meu outro tio, dizendo que o irmão mais velho deles não suportara a noite.
O almoço foi cancelado. Fomos correndo para a casa dos meus avós, onde meu tio morava; os médicos estavam lá. Subi para ver minha avó e meu avô, que tiveram o desgosto de enterrar seu segundo filho. Um amigo de infância do meu tio morto estava lá, tentando consolar o meu avô que mal conseguia respirar. Minha avó, com os olhos inchados e vermelhos, não falava. Só perguntava por seu lencinho para assoar o nariz.
Naquele momento, fui à cozinha. Recebi a ligação de uma tia que ia ao almoço, querendo detalhes. O choro não me deixou responder, só pedia para ela conversar com meu pai. E então me veio, como veio para todos nós: a morte dele poderia ter sido prevenida? Que pergunta cruel de se fazer. Alguém poderia carregar a culpa? Lembro-me do meu tio – o segundo irmão – chorando no velório, dizendo que se tivesse chegado 15 minutos antes, talvez a vida pudesse ter sido poupada. Essa frase se baseava simplesmente no corpo ainda quente; não há resposta para essa afirmação.
Talvez os 15 minutos de antecedência não fariam diferença. Ainda assim, porque a família e os três irmãos que ele tinha – minha mãe, minha tia e meu tio – não o internaram? Porque o contato, embora estivéssemos juntos quase sempre, não foi maior?
O meu irmão que de Minas Gerais não veio para o enterro chorou no telefone. Porque os sobrinhos – incluindo eu – não se esforçaram mais para desenvolver o bom relacionamento que temos com todos os outros tios e as outras tias?
É assustador dar vida a esses pensamentos. Quando eles estão dentro de nós, parece que por alguns segundos, não são reais, são intocáveis; no entanto, a partir do momento em que permitimos que eles tomem forma, não podemos mais guardá-los. Estão lá, materializados para todo mundo ver.
Carrego memórias vívidas de meu tio Altimar. Lembro dele me ensinando o tipo de caligrafia mais bonita e das vezes que trouxera salgadinho ou pão doce para mim e meus irmãos. Lembro quando ele ainda andava direito e se comunicava sem problemas. Três dias antes de morrer, o vi. Não imaginava que seria a última vez. Ele mal conseguia falar por causa de sua saúde; era a primeira vez que o via tão mal.
Ele não queria ir à uma clínica de reabilitação. Deveríamos ter insistido? Ele falava que não bebia mais, mas sabíamos que não era verdade. Naquele domingo fatídico, amigos entravam e saíam, chorando desoladamente. Conheci sua filha, minha prima. Busquei-a no aeroporto e deixei que dormisse em minha cama. Ela e o pai não se viam há 18 anos.
Sem dinheiro para nada, pagamos sua passagem de Ipatinga para São Paulo. Se não teve a oportunidade de vê-lo vivo, que tivesse a oportunidade de olhá-lo uma última vez.
Ele foi filho, irmão, pai e amigo.
Ao meu avô que hoje está destruído por dentro: tenho a pretensão de afirmar que você não fez nada de errado. O seu filho já estava morto muito antes de morrer.
Sua vida foi triste. Eu não sabia da existência de metade de seus amigos, até sua morte. Em seu quarto, achei o álbum de fotos do seu segundo casamento e uma foto de sua filha na adolescência. Sob sua mesa, brinquedos meus e dos meus irmãos encontravam-se empoeirados. Era como se ele estivesse tentando se agarrar ao que sobrara através daqueles objetos e daquelas memórias; como se isso o confortasse nas noites frias.
Se é algum alívio, parece que a morte foi rápida e não muito dolorosa.
Agora, dobramos suas roupas, juntamos sua coleção de fitas – do amante do sertanejo e da música internacional, um desesperançoso romântico – e jogamos fora o que não presta mais. Limpamos o quarto e pintamos as paredes brancas com a cor amarela.
Por fim, abrimos a janela. Só assim a luz pode entrar.