Da Bela Vista à comunidade.
No segundo semestre de 2020, não conseguindo mais lidar com a crise financeira com a qual me encontrei depois de dezesseis anos de estabilidade – perdi tudo, ou comecei a perder, entreguei meu apartamento no bairro da Bela Vista na cidade de São Paulo, onde morei por nove anos. Era aluguel, nunca tive essa pretensão de casa própria. Sempre soube que não constituiria família sendo gay e, principalmente, sendo portador do transtorno bipolar.
Por que o fato de ser gay e bipolar são agravantes?
Estatisticamente, o número de homossexuais homens que conseguem manter relacionamentos longos a ponto de se casarem é mínimo, e quando se fala em casais gays que têm filhos por meios biológicos ou por adoção, é ainda menor. Nunca consegui manter relacionamentos duradouros. Acredito que eu esteja nos percentuais estatísticos da maioria dos gays, mesmo sendo muito diferente deles.
Então, você quer dizer que uma pessoa que possui transtorno bipolar não pode ser pai ou mãe? Sim. Não deveria. Mas são pais e mães e criam filhos muito traumatizados (raras exceções). E para dizer o porquê, eu teria que explicar detalhadamente o que é a bipolaridade, mas não quero me estender e o objetivo do texto não é esse (já falei de bipolaridade antes), o leitor que dê um Google ou me mande um e-mail.
Pois bem, voltando ao assunto principal... nunca fui ambicioso, minha ambição sempre foi ter força para trabalhar e inteligência para laborar com o que gosto e sei fazer para conseguir a alimentação que quisesse, frequentar bons lugares, viajar, ter boas roupas e um apartamento muito confortável – grande não, confortável mesmo! E eu tinha tudo isso – trabalhava como um louco, mas ao contrário de muita gente, eu aproveitava o meu dinheiro. Mas economia não é meu forte. Gerenciamento é; planejamento a logo prazo, não! Sou exagerado e intenso, não consigo pensar em algo que para mim não existe – o amanhã. É inadmissível eu fazer planos se não tenho certeza de que vou acordar vivo. E se tiver dinheiro no banco, bens, para quem deixar?
Prefiro viver o hoje. Só não pensei que essa escolha de vida tivesse um preço. Que o que eu tinha no banco duraria apenas um ano sem renda. Fiquei sem emprego e com o meu curriculum, pensei que depois de seis meses de descanso e, quem sabe, até um ano eu, arrumaria um trabalho fácil, fácil. Mas então, veio a pandemia da Covid-19 e o mundo parou.
No Brasil, vagas foram suspensas, profissionais dispensados, salários congelados. A economia despencou acompanhada de uma gestão despreparada e absurda de um governo criminoso que já estava mexendo em direitos trabalhistas e o escambau...
Não teve jeito! Sem conseguir pagar mais aluguel e com dinheiro contado na conta, uma amiga me ofereceu seu sítio para que eu morasse por um tempo. Cogitei. Mas, a pessoa que me colocou no mundo me ligou, quase chorando, fazendo a cena que ela sabe fazer muito bem e que todo mundo cai, dizendo para que eu morasse nos fundos de sua casa.
Conversei com uma irmã minha querendo saber se a pessoa que me pariu havia mudado e ela afirmou que sim. Em síntese, minha progenitora e eu não nos amamos, nem sequer nos gostamos (se é que ela gosta de alguém, eu não acredito). Aceitei a proposta. Ainda acreditei que o sangue do meu sangue valeria mais a pena – maldita hora!
Com dor no coração entreguei meu confortável apartamento, saí da capital de São Paulo e fui para a cidade de Suzano. No governo do PT as favelas ganharam um rótulo menos pejorativo com a ascensão da classe trabalhadora, o de – comunidade. É mais digno. Eu não acho. Como vivi em favelas boa parte de minha infância, a diferença entre as favelas e as comunidades é o visual. Saíram os barracos de tábua para darem lugar a casas de alvenaria sempre por terminar. Muitas, nem o reboco primário possuem. Mas é interessante, as casas são assim, sua maioria em terreno de posse, mas dentro tem de tudo que é mais moderno, inclusive moradores com IPHONES pré-pagos. Quando digo que não mudou muito é porque as pessoas e suas manias de vida continuam as mesmas.
Ali estava eu no mesmo lugar de onde eu saí dezoito anos antes, para nunca mais voltar. Voltei para o ponto de partida e, pior, para conviver com quem eu menos queria nessa vida. Essa parte da história é o que menos importa hoje, já consegui sair daquele inferno que foi voltar a morar com aquela que eu deveria ser chamada de mãe. Trago apenas para compreensão de quem vai ler essa série de crônicas em que vou relatar as anedotas interessantes (outras nem tanto) que tenho vivido estando de volta à periferia, meu sofrimento, as coisas que me divertem e o que tenho aprendido...
O blog “A vida na comunidade” é para dividir com as pessoas justamente como é viver dezoito anos na classe média da maior metrópole do país e voltar a conviver numa comunidade no fim da zona leste de São Paulo. E mesmo estando mais de um ano por aqui, ainda não consegui me adaptar.
Nos vemos no próximo texto...














