Onde estão as meninas?
Sábados, domingos e feriados são dias em que as crianças passam o dia todo soltando pipas, jogando futebol, jogando pedras no portão dos outros (no meu, no caso - quando criança a gente apertava campainhas), andam de bicicleta, brincam de pega-pega e esconde-esconde. Ah, e vão para os bares jogar sinuca com seus pais, irmãos ou entre eles, mesmo.
O interessante é – só avistamos meninos fazendo isso pelas ruas da quebrada. Isso mesmo! Uma ou outra menina perdida no meio deles. De repente porque essas brincadeiras são mais comuns entre os meninos. Ainda hoje existe isso? Não é machismo estrutural que diz? Coisa de menino e coisa de menina não é um tipo de segregação que serve para definir coisas que são de foro íntimo ao ser definir quando se sentir pronto? Parafuso!
Quando vejo aquele monte de meninos descalços e com a sola do pé preta brincando nas ruas, me pergunto:
Onde estão as meninas?
Embora as estatísticas sejam diferentes em cada país, aqui no Brasil os percentuais de nascimento de meninos é em média 3% a mais do que de meninas - dados de 2021. Temos mais meninos do que meninas, mas esse percentual nem é muito alarmante.
E cadê elas, que enquanto crianças não estão nas ruas brincando com os meninos?
Andei reparando. Elas estão em casa. As daqui da comunidade precisam aprender que lugar de menina não é se misturando com os meninos, e sim, em casa, aprendendo a lavar, a cozinhar, a, cuidar da casa, olhar os irmãos mais novos ou, simplesmente, ficar no Facebook, Instagram, Tiktok vendo aquelas bandas coreanas o dia todo, desde que seja dentro de casa. Não importa se não pegar o caderno para estudar. Ir para a escola já é suficiente (acho que acabei de descrever minhas sobrinhas e elas nem moram em comunidade).
Verdade, enquanto as meninas brincam de casinha como treinamento para cuidar desses “carinhas” que estão na rua e que ao crescerem, provavelmente vão substituir suas mães por mulheres com quem possam transar. Então, é chegada a hora de deixar as meninas saírem de casa, quando o garoto agora homem está pronto para caçar.
Ainda na infância, a menina é colocada num lugar - o lugar de servidão e submissão. Os meninos podem correr soltos, serem livres e aprontarem todas por aí. Elas, não! E mesmo que a sociedade já tenha dado um ou dois passos em relação a isso, ainda falta muito. Não adianta a jovem da classe média saber que pode ser quem quiser, enquanto a filha da empregada ouve que lugar de mulher é dentro de casa.
Tiro o chapéu para o Ronaldo, o pai da Thais. Ela brinca com o irmão na rua; brinca do que quer. Joga sinuca com ele quando bem entende, ajuda a mãe a mãe com a mesma obrigação do irmão e cuida de suas coisas porque é importante aprender a cuidar do que é nosso. E quando conversei com ele sobre a criação de sua filha, ele me disse:
- Lucas, ele, ela qual a diferença? São meus filhos e no que depender de mim, não matando e não roubando, eles podem tudo!
Sei que não vou ficar na comunidade tempo o suficiente para ver um cenário diferente, mas quem se importa? Pretensão achar que vou ficar no mundo para ver um outro mundo. Mas é agora que se começam as mudanças de comportamento do amanhã.Mães, suas filhas podem, sim, brincar na rua. E coloquem essa molecada para lavar louça, fazer um arroz. Saber lavar só o próprio pé, não leva ninguém a lugar nenhum.














