O Departamentos de Experiências para Uso Simbiótico (DEUS) tinha feitos incríveis. No primeiro ano de trabalho, fizeram ótimas experiências com fótons, criando luz do nada!
E assim foi com minerais, clonagens de animais e desenvolvimento humano por 6 anos ininterruptos. No sétimo, seus funcionários tiveram férias.
A Divisão de Genética Animal era comandado por Dr. Adão, homem que catalogava todas as espécies criadas nos laboratórios. Sua atividade era trabalhosa e logo suplicou por uma assistente. O DEUS mandou Eva, uma promissora cientista, da qual sem ela Adão não conseguia dar um passo sequer. Logo Eva seria promovida a sub-chefe de laboratório, nos projetos de frutas transgênicas, por sua lealdade ao Dr. Adão.
Por ser a única figura feminina no departamento, Eva era conhecida como "A Mulher". Entre uma chacota ou outra, Eva seguia conduzindo experimentos sobre desenvolvimento de inteligência em répteis através de células hiper-modificadas de uma maçã. Um desenvolvimento em tanto, aliás. Um progresso que lhe fazia pensar bastante sobre o Departamento para o qual trabalhava. A informação era compartimentada e, por mais que trabalhasse em coisas incríveis, pouco sabia sobre os resultados finais de seus projetos. Às vezes gerava dados, mas não podia lê-los, pois faltava-lhe informações. Tudo era controlado pelos poderosos do DEUS.
Um dia, o projeto de Eva foi cancelado. Diziam que a maçã com a qual trabalhara era perigosa. Em uma circular, dados sobre a periculosidade do alimento modificado, seguido de um aviso: "Quem comer desse fruto positivamente morrerá".
Eva podia não estar ciente de todas os dados de seu projeto, mas sabia que algo não batia com as informações da circular. Contudo, teve de obedecer. Não iria perder o emprego por bobagem. Comparado com as tantas empresas do ramo por aí, o Instituto Éden S.A. era um paraíso. Ela poderia se ocupar com todas as outras frutas desenvolvidas e esquecer seu projeto mais ambicioso. Poderia, mas não queria...
Depois de alguns dias, Eva foi recolher alguns dados de sua pesquisa com répteis e reencontrou uma serpente que havia servido como cobaia. Ela era tão inteligente... Dava até mesmo a impressão de querer conversar com Eva. Por um breve momento, A Mulher sentiu-se tocada pelo esforço da serpente em querer mostrar-lhe algo; agitava-se para que Eva compreendesse que aquela serpente vivia um novo mundo, que não podia mais ser uma cobaia. Que não podia mais ser tão simplória quanto Eva era.
Sim, Eva sentiu-se simplória perto daquela serpente, que agora devia ter a inteligência de uma criança pequena, mas em suas limitações já havia percebido que o mundo era mais do que lhe apresentavam. E Eva tinha medo dos figurões do DEUS, sabendo que podia ser como eles se a vida ao menos lhe desse mais oportunidades, ao invés de relegar-lhe sempre ao segundo plano frente a Adão. Foi então que Eva decidiu arriscar tudo. Suas chances eram claras: sabedoria ou morte. Ainda assim, Eva comeu o fruto.
O efeito era um tanto parecido com psicoativos. Em poucos segundos acontecia uma rave cósmica por dentro dos olhos de Eva. Sua mente diminuía e expandia de acordo com o som que as luzes etéreas produziam. Eva experimentou o Nirvana cerebral. Visitou seus medos, anseios e memórias mais profundas. Descobriu o que achava nem mesmo saber. Ouviu todas as vozes que lhe chegaram aos ouvidos e percebeu a conexão entre todos os pontos do universo. Em algum momento, veio à mente os dados de seu projeto e ela os compreendeu em um lampejo. Definitivamente Eva estava em pé de igualdade com DEUS.
Porém, o pecado de Eva não foi comer a fruta proibida pela gerência. Seu pecado foi deixar de se alimentar com o que tinha para compartilhar com outro. Seu erro foi achar que aquela experiência era tão enriquecedora que deveria compartilha-la com Dr. Adão. E foi assim que ela foi pega. Ao comer a fruta, Adão deixou sair o que mais tinha dentro de si. Sua consciência vomitou medo e culpa. Sua atitude suspeita fez cair sobre ele a desconfiança fiscalizadora do DEUS e, assim que pressionado, culpou Eva por tudo. O caso veio a público e a atitude de Eva em ter compartilhado a fruta ao invés de manter para si lhe rendeu um apelido infame nos noticiários de TV: Mãe Eva.
Ambos foram despedidos e passaram a ter sub-empregos em Nod, uma empresa que em nada se comparava com Éden. Sob pretexto de exames de desintoxicação, médicos que simpatizavam com as pesquisas desenvolvidas pelo DEUS modificaram Eva para que ela sentisse terríveis cólicas; uma vingança infantil por parte dos responsáveis que a fez ter terríveis trabalhos de parto futuramente.
Eva realmente morreu, mas não como fora previsto. Apesar de terem retirado seu nome dos artigos científicos publicados, fazendo com que ela parecesse uma simples estagiária solicitada por Adão, Eva não seria lembrada apenas por seu desacato ao longo da história. O tempo passou e dossiês finalmente fizeram jus à sua história, mostrando que A Mulher não se deteve e nem aceitou que a negassem viver suas experiências, pois expandir-se seria sempre mais gratificante.
A história mostraria que a condenação de Eva foi a prova de que os seguidores do DEUS tentaram antes o mesmo que tentam ainda hoje: que nenhuma outra mulher perceba o quão longe pode chegar.