Tinha-me deixado de fazer posts longos. Optei, recentemente, por destacar certos pontos de cada jogo por ser mais sucinto. Contudo, hoje, achei por bem escrever mais acerca do jogo de ontem, no La Rosaleda, Málaga 3-2 Real Madrid.
O José Mourinho é, desde há anos, um treinador que admiro e onde, de certa forma, busco alguma inspiração. É português e o melhor, ou dos melhores, do mundo na sua área. Em 10 anos ganhou a liga em Portugal, Inglaterra, Itália e Espanha. Também ganhou as respectivas taças, uma Taça UEFA e duas Ligas dos Campeões. Um português que detém este curriculum é, certamente, uma fonte de inspiração e de admiração de qualquer um de nós.
Desde que chegou a Espanha, tratou de pôr a imprensa, nomeadamente a afecta ao Real Madrid, em ordem. Filtravam-se XI's iniciais, notícias do balneário, tudo. A relação entre o José e a imprensa espanhola nunca foi fácil e ainda menos fácil é quando o português se tinha de enfrentar ao Barcelona de Pep Guardiola: uma equipa que se conhece muito bem, com uma matriz muito bem definida e, provavelmente, a melhor equipa que o futebol alguma vez viu. Era um desafio digno de Hércules.
A história começou mal. Em Novembro visitou o Camp Nou e foi goleado por 5-0, numa exibição memorável dos blaugrana. A partir daí, conseguiu uma série de muito bons resultados contra o Barça, conseguindo vencer-lhes a Taça do Rei, no prolongamento.
Acho que o problema começa, precisamente, aqui: a forma como esses clásicos, carregados de intensidade e dureza foram abordados pelo José Mourinho foram como uma guerra. Isto chegou a um ponto tão extremo que qualquer olhar fazia faísca. Se eu - José Mourinho - ganho, tudo bem. A vitória é minha. Se perco, é porque os árbitros não me deixaram. Se eu ganho, é limpo, é justo. Se são os outros, é sujo, é injusto, é a UNICEF, é o Villarato, é o calendário. Chego à sala de imprensa e tiro uma lista de erros de arbitragem que me prejudicaram. Por qué? Planifico sempre bem os jogos? Nunca me engano? Calo-me, quando não expulsam o Pepe por uma agressão ou quando me beneficiam.
O Real Madrid, conhecido pelo seu señorío e por ser o "segundo clube" de todos passava a ser um ódio de estimação. Em Pamplona, em Gijón, em Saragoça, em todo o lado. Porquê? Por ganhar e ser o melhor? Ao Barça não lhe aconteceu. Nem a outras equipas do Real Madrid - treinadas por estrangeiros (Toshack, Capello, Heynckes) - que ganharam títulos importantes. A afición, que cresceu e viveu com este espírito de señorío na vitória e também na derrota, divide-se. Uns compram a guerra de José Mourinho, outros optam pela postura de toda a vida.
No primeiro ano, o Barcelona foi superior dentro das quatro linhas, com o Real a estreitar a margem para os catalães. No segundo ano - tradicionalmente, os melhores de Mourinho - o Real Madrid atingiu uma maturidade de jogo, aliado a um contra-ataque e eficácia tremendos. A confiança estava no auge e qualquer jogo que estivesse 0-1 - e foram vários - o Real Madrid virava para 4 e 5-1 e Cristiano Ronaldo, em plano estelar, comandou a equipa à liga com mais pontos e golos jamais conquistada em Espanha. Indiscutível. Foram os melhores. Com diferença.
Entretanto, dado o que tinha acontecido nos últimos clásicos, Del Bosque ligou aos dois capitães - Iker Casillas e Xavi - e, basicamente, disse-lhes que tinham um campeonato da Europa pela frente e que a equipa espanhola era constituida, basicamente, por jogadores das duas equipas e a ver se se entendiam. Assim foi, Iker Casillas e Xavi falaram ao telefone e a cada um ficava imcumbida a tarefa de apaziguar os seus. Para mim, aqui foi o momento definitivo de viragem da relação de Iker Casillas e José Mourinho. O treinador português que via a rivalidade com o Barcelona como uma guerra sem trincheiras, sentiu-se traído por um dos seus soldados, pelo seu capitão.
E depois do Europeu? O Real Madrid, começou a pré-temporada desprovido de boa parte da sua equipa, já que Portugal e Espanha chegaram longe na competição de nações. Os inícios não foram prometedores, porque a equipa também não o permitia. Os jogadores-chave chegaram tarde e as habituais giras de pré-época de clubes como o Real Madrid não ajudam à planificação, por parte dos treinadores. Houve indefinição quanto ao plantel.
Quem entra? Quem sai? José Mourinho parecia querer um jogador para o meio campo, Luka Modric e um lateral-direito que bem conhecia, Maicon. Ter-lhe-á sido dito (?) que só poderiam trazer um deles. Alguém - o próprio José Mourinho, o outro - terá decidido que era prioritário trazer o jogador croata. Custou 35 milhões de euros. Repito, 35 milhões de euros, por um médio-centro fino, de toque curto e para que a equipa tenha a bola no seu poder. Parece tudo o contrário de Lassana Diarra, que saiu para o Anzhi.
Quereria Mourinho rodar Xabi, Modric e Khedira para ter os jogadores mais frescos para o ataque às 3 competições? Abdicaria de jogar com Ozil para jogar com os 3, deixando toda a velocidade em Cristiano Ronaldo, Dí Maria e Benzema/Higuaín? Todos ficamos à espera. Era mais prioritária a posição de Luka Modric, ou contratar um verdadeiro lateral-direito, como Maicon, em vez de ter um Real Madrid coxo, com Arbeloa? Quem tomou estas decisões? É uma pergunta sincera que faço. Quem foi o responsável por esta decisão de trazer um jogador de 35 milhões, para uma posição que está coberta e deixar escapar Maicon, por 6 milhões de euros, para o Manchester City.
E quem decidiu trazer Fábio Coentrão, por 30 milhões de euros, tendo Marcelo para a posição? Mais, tendo Marcelo sempre demonstrado render a um nível superior. Não é caro, mesmo para o Real Madrid, ter um suplente que tenha custado tanto? Não seria mais lógico que a posição preenchida fosse a de lateral-direito, com Arbeloa como suplente de ambos?
Se continuamos, vemos a entrada de Essien - jogador da confiança de Mourinho, mas a quem as lesões arruinaram a carreira - para substituir a posição deixada por Lass? Faz sentido, é um jogador mais físico e que José Mourinho conhece bem. Ainda por cima, vem emprestado e não pressupõe uma grande despesa para os merengues. Mas o Essien veio para... jogar a lateral esquerdo? a lateral direito? Sim, é uma adaptação, mas porquê? Porque é que se adaptou o Essien? Porque não se comprou um lateral-direito, em primeiro lugar? Porque se deixou Carvajal, lateral-direito da cantera, fugir para o Leverkusen, a troco de 6 milhões de euros? Porque não confia em Nacho, lateral-esquerdo de raiz, porque diz que o seu treinador no Real Madrid Castilla, Toril, o põe a jogar como central?
Eu, treinador e manager - palavra da moda - do Real Madrid dou aval à transferência de Joselu - melhor marcador da 2ª divisão B espanhola, com a equipa B - para o Hoffenheim e ainda fico com Morata na 1ª equipa, mas que não joga, deixo a equipa de Toril "descalça" e ainda venho criticá-lo publicamente, porque ele faz adaptações, tendo em conta as limitações do seu plantel? Caso o José Mourinho não saiba, o Real Madrid Castilla joga o 2º escalão profissional do seu país e, se lhe vendemos os melhores jogadores, é provável que o seu treinador tenha que fazer adaptações, porque não tem um orçamento equiparável ao da equipa principal, obviamente.
O plantel está, claramente, desiquilibrado, mas ganha a Supertaça. Quando os outros a ganhavam ela pouco valia, portanto presumo que continua a valer o mesmo. Chega o primeiro jogo da liga. O Real Madrid joga mal e o Valência empata no Bernabéu, 1-1 e segue-se um início de temporada péssimo. Estão a 8 pontos do Barcelona. Na Liga dos Campeões, apesar das dificuldades - no grupo mais difícil da competição - acabam por passar, em segundo lugar. A equipa não rende como no ano passado. A eficácia, que tinha sido tremenda, baixou. Não marcam os mesmos golos, os contra-ataques não saem tão bem, não jogam com garra e falta-nos confiança. O balneário está dividido e alguns jogadores, sobretudo os espanhóis, já não confiam em José Mourinho.
A culpa é do calendário. O clube não me defende. Aviso para o Sérgio Ramos, banco. Perdemos em Vigo, contra um Celta valente, para a taça. Aviso para... Dí María? Kaká? Ozil? Estou a 13 pontos do Barcelona, jogo em Málaga, 3º classificado, a 5 pontos de nós. Iker Casillas, banco - dez anos depois; Essien a lateral e fico com Nacho no banco, outra vez. Primeira parte bem jogada, mas sem golos. Sofro o primeiro e desesperadamente (?) meto o Kaká, em quem não confio muito (?). O Málaga, comandado pelo golden boy Isco, quer ganhar o jogo dez vezes mais do que a minha equipa. Desesperadamente, com 3-1, Sergio Ramos vai para ponta-de-lança. Morata - lembram-se dos parágrafos anteriores? - no banco.
José Mourinho, o bravo, vai à sala de imprensa. Conhecido pela sua frontalidade, perguntam-lhe por Iker Casillas. Mente e diz que foi uma decisão técnica. Que Adán estava mais em forma do que o, considerado por alguns, melhor guarda-redes do mundo. Se é assim, assume a responsabilidade de, no terceiro golo do Málaga, oferecer o 1º poste a Roque Santa Cruz? Não. Disse que ter lá o Adán ou outro qualquer não faria diferença no resultado final. Se calhar, não, é verdade. E qual é a explicação para jogar com Essien na esquerda ou de colocar Sergio Ramos como '9'? Porque é que a "auto-crítica" é sempre para os jogadores e dirigentes? Porque o clube não me defende, porque o calendário, porque os árbitros, porque os Mayas... E tu, José? Não ouvi dizer que o planeamento do jogo não foi adequado e que, durante momentos, a sua equipa levou um autêntico banho, do Málaga.
Também ele, um dos melhores do mundo, erra. E não fica nada mal admiti-lo. Há erros no planeamento da época e do plantel, em algumas abordagens e em alguns jogos. Desde o XI inicial até algumas substituições questionáveis. E sim, há questões nas quais José Mourinho tem (pouca/alguma/toda) razão, mas não podemos ter uma lei ou bitola para nós e uma diferente para os outros. A culpa é de todos, mas nunca é minha.