Cido Pintor e Seu Trágico Destino
Ano vai, ano vem, o fim do mundo não chega de novo, seguem os dias e alguns casos vão naturalmente sendo esquecidos dos anais da história. Um deles é a história de Aparecido Fulgêncio dos Santos, mais conhecido como Cido Pintor.
Não se sabe exatamente quando essa sequência de fatos ocorreu. Mas é de conhecimento popular que foi depois da Grande Crise Municipal de Ervas Daninhas e antes da Breve Revolta Armada de Gatos Domésticos. Como o apelido já diz, o protagonista aqui era pintor e sua residência ficava ali nas imediações da Rodoviária de Londrina. Com boas habilidades na profissão, era conhecido na região e quase todos sabiam onde encontra-lo. Assim corria sua vida pacífica e tranquila, até que uma presepada do destino mudou tudo. Em uma ensolarada manhã de quarta-feira Cido decidiu pintar o armário da cozinha. Foi aí que ocorreu uma inimaginável e ainda inexplicada cadeia de eventos, uma obra do acaso que culminou tragicamente na morte de sua mãe. Ao se dar conta, o corpo da velha estava estirado no chão sobre uma enorme poça de sangue. A cabeça, decepada, rolou até sala.
Nos minutos seguintes um grande silêncio generalizado pairou na atmosfera. Um gavião abocanhando um pássaro nos ares pôde ser ouvido naquele eterno momento. A sanidade de Aparecido lentamente se esvaiu e sua vida tomou os primeiros passos rumo à fama que o acompanharia pelo resto dos dias. Traumatizado e alucinado, não conseguiu mais chegar perto de pincéis ou tintas. O simples ato de pensar em cores passou a ser o suficiente para leva-lo a um estado misto de fúria e pânico. Os acontecimentos posteriores se tornaram histórias eternizadas em balcões de boteco.
Quando o primeiro desavisado tocou a campainha e foi atendido apenas por um olho o observando pelo vão da porta, logo questionou:
- Opa, boa tarde! Você que é o Cido Pintor, né? Preciso de...
E não houve tempo de terminar. Da casa saiu um homem com olhos ensandecidos trajando apenas cueca e meias. Machado na mão e fúria na cabeça. Este irreconhecível Aparecido avançou sobre o pobre coitado enquanto berrava palavras que nunca mais foram esquecidas:
- Cido Pintor é o caralho! Cido Pintor é o caralho!
A lâmina passou a centímetros do atônito sujeito, que apenas queria contratar um serviço. Após se esquivar, saiu correndo de forma a causar inveja em muitos atletas olímpicos e nunca mais foi visto.
Cenas semelhantes ainda ocorreram outras vezes. Segundo relatos, outro infeliz tropeçou ao fugir e perdeu a perna mecânica. Largou por lá mesmo e disparou rua afora feito um cruzamento de saci com Sonic. E teve o dia em que uma mulher cega voltou a enxergar com o susto. Ou talvez o contrário.
Atualmente não se sabe o paradeiro de Aparecido. Sua casa permanece fechada e ninguém se lembra da última vez que alguma movimentação foi vista por lá. Alguns dizem que se tratou e começou vida nova em outra cidade. Outros contam que ele mudou de aparência e hoje toca um trailer de lanches na zona norte de Londrina. Tem até quem afirme que ele se tornou vereador de uma pequena cidade no interior de Goiás.
Fato é que estes acontecimentos ainda pululam nas mentes dos mais antigos da região. E há quem jure de pés juntos que toda sexta-feira, às duas e vinte e cinco da manhã, ainda escute os gritos ecoando pela noite:
- Cido Pintor é o caralho! Cido Pintor é o caralho!












